quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Canção para uma menina
QUE NASCEU NA PRIMAVERA

(Primeiro movimento: chuva)
Água escorre pelas escadas,
pelas calhas, pelas nuvens:
música das águas.

(Segundo movimento: sol e chuva)
O telhado brilha, a planta sua.
Gotas de luz, brisa vegetal:
dança das substâncias.

(Terceiro movimento: sol depois da chuva)
O pássaro canta, o cão espreguiça
e a garotinha corre pela grama:
na direção do arco-íris.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

DEUS NÃO MORREU, MATOU-SE! O SUICÍDIO DO GRANDE CASTRADOR
Os homens foram criados à imagem e semelhança de deus, porém uns mais que os outros. Paul Lafargue, André Gorz, Ernest Hemingway, Wladimir Maiakovski, Virginia Woolf, Mario Monicelli e Torquato Neto entre os mais semelhantes. Seres humanos são antes de tudo criaturas criadoras, que se fazem e desfazem continuamente. Mas se por definição uma criatura é um ser criado, como lhes pode ser permitida a criação e seu contrário, a destruição? Ainda mais porque a capacidade destrutiva humana implica na negação da criação divina. O auto-assassinato humano, por exemplo, nega a onipotência divina em sua maior dimensão, a concessão da vida. A condenação aberta do suicídio pela maioria das religiões nos diz muito. O mínimo que se pode afirmar é que existe algo como um Complexo de Édipo entre homens e deuses. Sísifo e Prometeu que o digam.
A relação com deus é dupla: ame-o ou deixo-o. Deus é o limite, para bem e para mal. É o grande sintetizador na medida em que pode representar o princípio, a unidade e o fim; mas, pela mesma razão, é também o grande castrador já que oferece uma solução externa e inacessível aos homens. À humanidade caberá se libertar de deus ou ser castrada por ele. A divindade é a pedra no caminho do fazer e desfazer-se humano, é o limite. Alguns caminharão para o deicídio, outros se anularão nos braços do criador.
Das duas uma, ou deus não é onipotente ou aos homens não se concedeu o livre-arbítrio. Pela simples razão de que uma opção inviabiliza a outra. O livre-arbítrio humano se choca com a onipotência divina.
Na concepção cristã as implicações deste problema são demolidoras. Para haver pecado é preciso existir livre-arbítrio e escolha, mas assim abre-se a possibilidade de se negar inclusive o próprio criador.
Uma questão quiçá mais interessante do que determinar a medida do livre-arbítrio humano é mensurar a autonomia criativa de deus, que teria forjado a possibilidade da sua própria negação: o homem. Como o livre-arbítrio é sempre relativo a algo, seríamos forçados a terceirizar ou hierarquizar a divindade. Mas suponhamos o pior, quais a implicações de imaginarmos um deus todo poderoso e livre de qualquer arbítrio que lhe fosse externo? Como o deus cristão. Se assim fosse, deveríamos cobrar-lhe a conta de todas as chagas do mundo, incluindo os campos de concentração, Hiroshima, Nagasaki, Gaza e por aí vai. Se o homem escolhe o pior é porque essa opção lhe foi disponibilizada pelo criador.
O contrário dessa obviedade é o cinismo mais meia-boca, ultra-hollywoodiano, que consiste em afirmar que todo mal deriva unicamente das escolhas humanas. Transforma-se deus no mocinho redentor e os homens em vilões. Mas a questão é: quem criou a possibilidade de escolha humana? Quem colocou o ovo de serpente no cesto? Deus é um pai que deixou um revolver entre os brinquedos de seu filho. A quem responsabilizar pelo crime cometido com a arma-brinquedo?
O protagonismo de deus é duplo: primeiro suicida em potencial da história e guru da auto-ajuda. Matou-se ao criar o seu assassino: homem. Por outro lado, inaugurou a arte do auto-engano, conhecida atualmente por auto-ajuda, que consiste em acreditar no que é mais conveniente. Como na canção: “não há crença sem recompensa.” Crença e recompensa se tornam diretamente proporcionais, e utilitaristas. A crença religiosa não é um em-si é um para-íso. Abolido este, extingue-se aquela. Quem perderia tempo rezando à toa? Deus existe na exata medida em que o crente carece de graça.
Da poesia à literatura, o Complexo de Édipo homens-deuses deixou marcas. Millôr Fernandes indagou: “Mestre, respeito o Senhor, mas não a sua obra; que paraíso é esse, que tem cobra?” Mas é nas páginas de Dostoievski que a relação edipiana vai aos píncaros, na fábula de Ivã Karamazov, o Grande Inquisidor, em nome de um determinado projeto de humanidade, condena o representante de deus na terra.
O livre-arbítrio humano é tão livre que chega a aprisionar-se, tão amplo que fabricou o próprio deus, não sem desconstruí-lo depois, num contínuo fazer-se desfazendo-se. Enquanto a crença em deus é utilitarista, posto que fundamentada nos prêmios futuros, a sua mais firme negação é ética, não negocia princípios, recusa uma criação que admite o mal em nome da redenção futura, os fins não justificam os meios.
No caminho da desconstrução, seguindo os passos de Ivã Karamázov, Albert Camus recusa a salvação: deus não existe, mas isso pouco importa, não seriam legítimas as benesses oferecidas por uma divindade que aceita o mal. Recusar a salvação torna-se um imperativo ético.

domingo, 10 de setembro de 2017

FILHO


Meu filho que não veio
voa no vento

e suga o seio da noite,
em estado de ausência.

Procuro seu corpo,
que some no vácuo,

dissolvendo-se
hipoteticodedutivo.

Meu filho que não veio
jaz no campo das possibilidades.



domingo, 3 de setembro de 2017

PASSAGEM

as palavras estão enterradas
mas se movem
se agrupam
penetram a rocha
e fluem

um rio de palavras corre
sereno

pelo leito de pedra
desce a palavra vida
fugaz
veloz

a palavra juventude
passa

a palavre tempo
corta

a palavra fogo arde
no rio
e passa

apanho a palavra água
ergo-a

mas ela deságua
escorre
e flui




segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O LIBERTÁRIO

Torcer ponteiros,
achatar relógios,
libertar as horas.
Amassar o tempo,
rechear o tempo,
meter a dor no tempo.
Viver. Viver.
Abolir o pecado,
revogar o paraíso,
anular a criação
e criar.
Engolir o sentido,
vomitar o sentido
e abandoná-lo.
No caos geral: viver.
Implodir barragens,
afogar o latifúndio.
Multiplicar a libido,
alongar a libido.
Apanhar a borra dos desejos
e tingir as coisas.
Sabotar o não,
tocar fogo no não.
Entre nada e tudo,
entre a chama e o tédio:
dinamitar a propriedade privada,
explodir a vida presente
e viver.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

entre a fruta podre
e a espinha de peixe

entre o rato
e o arroz azedo

entre a merda
e o papel higiênico

entre o urubu
e a carniça:

uma criança come lixo
e caga chorume

que goteja,
goteja, goteja...

terça-feira, 27 de junho de 2017

CEILÂNDIA

A garota de programa se aproxima 
quando o sol começa a se despedir
e há nuvens alaranjadas no céu.
Põe música na máquina
e toma uma dose,
que a noite ainda precisa baixar.
Janta peixe frito
(algumas moscam a incomodam)
Crianças brincam na calçada,
um gato atravessa a rua.
Os engraxates conversam
e bebem cerveja.
Os últimos raios de sol ainda iluminam.
Mas a garota de programa está tensa,
o apetite sexual é crescente no país,
é preciso saciá-lo.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

CRI-CRÍTICA DA RAZÃO TUPINIQUIM

Há uma filosofia brasileira? Sim? Não? Por quê? Esta é a questão fundamental da obra Crítica da Razão Tupiniquim, de Roberto Gomes. O fato é que esta questão implica outras, por exemplo: o que é filosofia? Gomes afirma que filosofia é essencialmente dizer o contrário, ou seja, a filosofia seria crítica e contestatória.  Sendo assim, essas linhas estreitas devem ser consideradas filosóficas, já que em alguma medida contestam o crítico da razão tupiniquim. Muito bem, gracejos à parte, o mais provável é que a definição de Gomes seja demasiadamente ampla. Ou então, sendo este meu humilde texto também filosófico, deixemos o conteúdo mais nobre para o final, comecemos por onde há acordo com Gomes, ainda que relativo.

Ocorre que a tal razão tupiniquim a que se refere Roberto Gomes se inscreve no marcos das escolas de filosofia, das academias. Então, o título correto seria crítica da razão (acadêmica) tupiniquim. Se assim fosse, o título estaria muito mais adequado à obra, mas perderia muito em abrangência, e o próprio autor afirma que não queria perder o título.

Hector Bernabó Carybé: Músicos

O fato é que as academias produzem historiadores da filosofia, comentadores..., mas não exatamente filósofos. Busquemos uma definição simples de filosofia: “estudo que amplia a compreensão da realidade, buscando apreendê-la em sua totalidade." Ora, academias produzem especialistas/comentadores de filósofos europeus, só. Como bem lembra Gomes, para produzir algo é preciso se conceder ampla liberdade de criação, apenas assim é possível tentar apreender a totalidade, mas liberdade de criação não se ensina na academia, muito pelo contrário. Neste sentido é que Gomes afirma não haver uma razão tupiniquim, concordo. Alguém que conheça a filosofia mundial de rabo a cabo, se não se conceder a necessária liberdade de criação, será quando muito um excelente professor, mas não um filósofo. Para tanto se faz necessária a tal liberdade de criação. Concordo.

Muito bem. Para introduzir minha crítica (e fazer filosofia rs), busquemos um segundo acordo com Roberto Gomes. A crítica da razão tupiniquim é uma contestação do pensamento meramente especulativo, para Gomes a filosofia sempre está escorada no “real cotidiano, também matéria de poesia”, e de filosofia. Concordo. Toda filosofia é sempre uma tentativa de apreensão da totalidade real, ou histórica. Neste ponto reside a crítica de Gomes, como filósofos brasileiros se limitam a comentar ideias de terceiros, não fazem filosofia, quando muito produzem história da filosofia, ou se formos um pouco mais complacentes, produzem história comentada da filosofia.

A questão é que se a filosofia é essencialmente contestatória, se é o inverso do verso, ou o desdito do dito... Roberto Gomes procura a filosofia onde ela não estará: nas academias. Filosofia entendida como tentativa de apreensão do real e de contestação só pode ser encontrada nos espaços de crítica da ordem vigente, como, por exemplo, os movimentos sociais. Universidades cada vez mais enquadradas e redirecionadas para a produção de saberes mercantis jamais poderão contestar seu Deus (mercado), exceto alguma exceção que confirme a regra. O padrão lógico-dedutivo-estabelecido são as academias apologéticas ao status-quo caduco e, exatamente por isso, produtoras de “conhecimento” parcelado e falsificado.

Perguntas tão simples quanto filosóficas não se farão nestes centros produtores de frutos caducos. Produzir mais? Para quem? Qual a racionalidade da atual sociedade capitalista? Quais as alternativas a esta? Ou mais que isso, e inclusive mais ao gosto de Gomes: qual o projeto queremos para o Brasil?

Questões tão simples não se formulam por que se aceita a ordem vigente, a crítica e, conseqüentemente, a tentativa de apreensão do real só é possível entre os que negam a ordem estabelecida, para negá-la é preciso conhecê-la. Os discursos de louvor ao estabelecido simplesmente aceitam o vigente. Se a história acabou, não precisamos pensá-la, basta que a aceitemos. Nesta aceitação morre o filosofar, que é essencialmente crítico. Morre a possibilidade de pensarmos que história queremos.

Ora, se a perspectiva aqui esboçada estiver correta, Roberto Gomes busca um pensamento social brasileiro, ou até latino-americano (esta última possibilidade se encontra presente em trechos da obra) onde ele não estará. Ou seja, está sugerida a necessidade de tentar apreender o real, mas, obviamente, essa tentativa tende ao fracasso se estiver limitada metodologicamente à filosofia acadêmica, que é parcelada. Para filosofar se faz necessário recorrer aos mais diversos saberes: economia, antropologia, sociologia, cinema, literatura, música e por aí vai.

O crítico da razão tupiniquim está consciente desta necessidade, inclusive se valendo de sacadas de figuras como Oswald de Andrade, Nelson Rodrigues, Mário de Andrade entre outros. Segundo Roberto Gomes, a filosofia não se realizou em solo tupiniquim, mas não se pode dizer o mesmo da canção popular e da poesia, por exemplo. Concordo. Figuras como Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque, Adoniran Barbosa, Noel Rosa... não me deixam mentir. Gomes, por seu lado, tenta captar e transformar em filosofia algo como uma sensibilidade brasileira, que está presente nos poetas, escritores e músicos.  

Ok. Há acordo. Mas neste ponto surge uma interrogação da qual declino, posto que nem a indústria têxtil da China (crescendo a taxas cavalares) poderia produzir pano pra tanta manga: é possível se falar em filosofia brasileira? Ou tupiniquim? Filosofia não é universal? Não sei. Tenho dúvidas. Declino.

Por outro lado, um pensamento crítico brasileiro e até mesmo latino-americano é possível e, inclusive, existe. Se concordamos ou não com ele é outra questão. Para ficarmos apenas em terras e teóricos tupiniquins, listemos alguns: Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Celso Furtado. Este último, por exemplo, publicou um livreto intitulado Um Projeto para o Brasil. Apesar dos pontos polêmicos que contém, trata-se de uma tentativa de compreensão da realidade nacional, acompanhada inclusive de propostas de superação das contradições apontadas. Ou seja, algo parecido com a tal razão tupiniquim. Neste exemplo, ainda que mais econômico, também há filosofia na medida em que se parte de princípios e ideias sobre a sociedade ideal (na visão de Furtado).


Tarsila do Amaral: O mamoeiro 

Enfim, parece-me claro que um pensamento crítico brasileiro só poderá existir se multidisciplinar, respostas puramente filosóficas dirão muito pouco sobre as contradições e possibilidades do país. Por este caminho seguiram os principais textos interpretativos brasileiros, e até a Crítica da Razão Tupiniquim. No caso desta, sua maior debilidade é a escolha de falsos interlocutores. Se é para criticar a razão tupiniquim, necessário seria estabelecer um diálogo com os grandes pensadores brasileiros, como os acima citados. Entretanto, uma simples consulta à bibliografia utilizada por Roberto Gomes mostra que tais pensadores não estão no escopo do trabalho do crítico, com exceção de Sérgio Buarque de Holanda. Sendo assim, a crítica deixa muito a desejar, pela simples razão de que não dialoga com a razão tupiniquim, limita-se à reprodução tupiniquim, às academias.

Porém, se é verdade que a crítica da razão tupiniquim deixa a desejar à medida que não dialoga com a autêntica razão tupiniquim, também é verdade que vale como um sapeca-iaiá na academia.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

com o corpo cansado
e a marmita vazia
contra o capital
e a mais-valia
a exploração
e a carestia
entre o pó
e a poesia
o operário
parou a maquinaria


terça-feira, 11 de abril de 2017

CAMPOS AMARELOS
Para Sérgio Ferreira Pinto Júnior

Cemitério de pobre tem poucas flores,
tem poucas cores,
tem túmulos parcos.

O sal da terra tempera a carne
dos corpos mortos
pregados no solo.

Cruz de pobre tem muita madeira,
muito tijolo,
muito cupim.

Cemitério de pobre tem tanto Silva,
tem tanta bala,
tem tanta dor.





sexta-feira, 7 de abril de 2017

AUTO-DE-FÉ


Domo renascentista,
catedral neogótica,
no centro da cidade.

As torres e os vitrais,
os ângulos e o sino,
comunicam a graça.

O conforto dos bancos
e a força das imagens
redimem pecadores.

A dureza do mármore
convida à penitência
e ao arrependimento.

Música brota do órgão,
pelos doze mil tubos
(todos italianos).

Melodia dos foles
ecoa na rosácea,
penetra os penitentes.

O dourado retábulo
espelha o criador,
sua grandeza e poder.

Mas na praça defronte
dorme o povo de Deus:
em camas de jornal.


quarta-feira, 29 de março de 2017

CRÍTICA: JULIET, NUA E CRUA, DE NICK HORNBY

Era sexta-feira, véspera de carnaval. Procurava um livro no sebo como quem procura um amor em baile de carnaval. Corria os olhos pelo silêncio das prateleiras, flertava com as lombadas, acariciava orelhas e capas. Até que, depois de Cervantes e Kundera, lá no N, encontrei Juliet, Nua e Crua, de Nick Hornby. Nunca tinha ouvido falar nem de Juliet nem de Hornby. Tão importante quanto encontrar um livro é ser encontrado por um livro.

A chuva caiu, que chuva. Só tive tempo de atravessar a rua e me abrigar no boteco. Três cervejas e sessenta páginas depois (uma cerveja para cada vinte páginas), estava grudado no livro, como casal de baile de carnaval.

Juliet, Nua e Crua é um triângulo desamoroso, meio torto, formado por um casal inglês (Duncan e Annie) e um rockeiro estadunidense (Tucker Crowe). Duncan e Annie são um casal normal, como milhões de outros, que se separam e buscam parceiros pela internet e outros meios. Crowe é um rockeiro que, sumido por décadas, continua sendo seguido por centenas de idiotas, como Duncan, que mantém um site sobre o ídolo. Um dia Duncan recebe uma demo inédita de Juliet (único disco de Crowe), o relançamento chama-se Juliet, Nua e Crua, sua única finalidade é levantar alguns trocados para a gravadora e o rockeiro. Annie ouve antes do marido, que fica indignado, e considera o ato dela uma falha moral grave. Superado o problema, Duncan escreve uma resenha para viralizar na net, Annie resolve escrever também. Ele diz que a demo é tão espetacular que supera o disco acabado. Ela escreve que a demo é uma bosta. O rockeiro, que estava sumido há décadas, reaparece e se comunica por e-mail com Annie, diz que finalmente alguém tinha escrito algo que prestava sobre seu trabalho. Daí para frente o romance começa a fazer o que só o romance pode fazer: integra diálogos presenciais, conversas por e-mail, relatos, notícias, críticas e, sobretudo, brinca.

No boteco, a vinte páginas por hora e por cerveja: eu lia e ria. Dobrava o canto das páginas, para grifar depois, porque estava despreparado, sem lápis nem lapiseira. Há uma qualidade que encontrei em poucos escritores: fazer rir: Cervantes, Machado, Drummond, Nelson Rodrigues, Kundera, Veríssimo e, mais recentemente, Nick Hornby. Não é pouco.

Kundera registra que há uma palavra tcheca sem tradução em outros idiomas: litost, que é um estado atormentador provocado pelo espetáculo da nossa própria miséria subitamente revelada. Hornby faz rir porque expõe nossa miséria – a miséria intelectual e moral das primeiras décadas do século XXI – aos poucos, sem solavancos. Exemplo:

“Os dois haviam se mudado para a mesma cidade inglesa à beira-mar na mesma época: Duncan, para terminar sua tese, e Annie, para lecionar. Haviam sido apresentados por amigos em comum que perceberam que, no mínimo, eles podiam conversar sobre livros ou música, ir ao cinema e ocasionalmente viajar a Londres para ver exposições e sessões de jazz. Goolness não era uma cidade sofisticada. Não havia cinema de arte, não havia comunidade gay, não havia nem uma filial da livraria Waterstone’s (a mais próxima ficava na estrada em Hull), e fora um alívio poderem recorrer um ao outro, começaram a tomar uns drinques juntos durante as tardes e a dormir um na casa do outro nos fins de semana, até que, finalmente, esses pernoites viraram algo indistinguível de coabitação. E eles haviam ficado assim para sempre, empacados num eterno mundo pós-universitário, em que sessões de jazz, livros e filmes eram mais importantes para eles do que outras pessoas da mesma idade.”

Atire todas as pedras no Hornby quem nunca viveu algo à lá Annie e Duncan, quem tem menos de 30 anos não vale, porque a casal do romance é quarentinha. Se litost é um estado atormentador provocado pela nossa miséria subitamente revelada, como um ataque de fúria sem nenhuma razão; Juliet, Nua e Crua é a nossa miséria exaustivamente reexposta, como o sexo pré-agendado para os sábados à noite, depois do programa de entrevistas. Contra e apesar das “centenas de especialistas e publicações”, que defendem o agendamento do inagendável, Horny lembra que trepar é “algo necessário e assustadoramente incontrolável”, ou, pelo menos, deveria ser.

Contra e apesar da crítica, que vê em Juliet um diálogo com a cultura pop, o livro de Hornby é, sobretudo, um diálogo com a história do romance, explora os calos da vida nas primeiras décadas do século XXI. Como escreveu Kundera, é imoral o romance que não explora algum aspecto inexplorado da existência, o livro de Hornby supera este obstáculo.

Em tempos de miséria exposta e reexposta, a dieta mais saudável é a que incorpora fartas porções pessimismo, ou seria de lucidez? Juliet é a vida como ela é, nos termos rodrigueanos, ou nua e crua, como no título do romance. Mas o importante é que, apesar de tudo e contra todos, é possível rir. O homem é um bicho que ri, escreveu Rabelais, nos primórdios do renascimento. Nas primeiras décadas do século XXI, contra tudo, contra todos e quase quinhentos anos depois de Rabelais: o homem ri.


Juliet, Nua e Crua, é como um amor de carnaval: excitante, engraçado, sedutor, ridículo, passageiro; um amor para reencontrar em outros carnavais: para gozar, rir e sumir. 


sexta-feira, 17 de março de 2017

sexta-feira, 3 de março de 2017

DE MACHADO DE ASSIS A SÉRGIO BIANCHI: A CAUSA SECRETA E O DRAMA DO RATO

Na frente o rótulo declarado, no verso a verdade inconfessável. Ou: a causa secreta. Gouveia levou uma facada e foi socorrido por Fortunato e Garcia, este era estudante de medicina e se apaixonou por Maria Luísa, esta era casada com Fortunato. Garcia passou a frequentar a casa de Fortunato porque amava Maria Luísa. Fortunato era enfermeiro, no rótulo; mas no verso, sentia prazer com a dor alheia, por isso socorreu Gouveia e por isso torturava animais. Fortunato não conheceu o cinema, mas ia ao teatro e redobrava a atenção para apreciar facadas e outras cenas violentas. Hoje, ele teria ereções assistindo telejornais. Garcia era estudante de medicina, no rótulo; mas no verso, era curioso, possuía a faculdade de decompor caracteres e de decifrar os homens, tinha amor pela análise, gostava de penetrar nas camadas morais dos outros, por isso começou a observar Fortunato, que lhe intrigava.

Machado de Assis também possuía a faculdade de decifrar os homens, gostava de penetrar nas camadas morais dos outros, mostrava o verso do rótulo, sentia prazer ao revelar a miséria moral alheia. Por isso escreveu Dom Casmurro, A Causa Secreta... Por isso criou Brás Cubas, Quincas Borba, Simão Bacamarte, Fortunato, Garcia. Foi um escritor genial. Sérgio Bianchi gosta de esfregar o verso do rótulo na cara das pessoas, na cara do Brasil. Por isso costuma meter o dedo e a mão nas feridas do nosso tempo (Fortunato gozaria com essa imagem). Porque gosta de esfregar o verso do rótulo na cara dos outros, Bianchi estabeleceu um diálogo entre seu cinema e a literatura de Machado de Assis. Seu filme Quanto Vale ou é por Quilo dialoga com o conto Pai contra Mãe, A Causa Secreta dialoga com o conto homônimo de Machado de Assis.

Atenção, luz amarela: dizer que um filme dialoga com a literatura não é dizer que ele baseia-se ou é uma adaptação de uma obra literária. Bianchi, que parece ser um sujeito com alguma ousadia, não se limitou a adaptar literatura para o cinema, deu um passo à frente, fez uma experiência de linguagem, dialogou com Machado. Exemplo: enquanto Machado mostra um homem (Fortunato) que tem prazer com a dor alheia, Bianchi retrata homens indiferentes à dor alheia. Nestes tempos pantanosos, qualquer espertinho pode ganhar uma bolada, via edital público, para “simplificar” um texto machadiano. Por outro lado, dialogar com a obra do “bruxo do Cosme Velho”, como fez Bianchi, exige mais do que a fome por vinténs, tão comum aos agregados de Machado e aos simplificadores do nosso tempo. Ironia da história: a simplificadora que “reescreveu” O Alienista, do Machado, com certeza seria internada pelo alienista Simão Bacamarte, do Machado, resta saber se por avareza, indigência intelectual ou as duas coisas.

Outra ironia da história: também Bianchi depende da bufunfa dos editais públicos para tocar seu trabalho. No filme A Causa Secreta um diretor de teatro tenta adaptar o conto A Causa Secreta, mas, para isso, depende da bufunfa dos editais públicos e passa por não poucos apertos para consegui-la. Aqui o filme se afasta do conto machadiano para se aproximar da realidade atual. A ironia mais afiada é sempre aquela que corta o bucho do seu criador, Bianchi vira personagem de si próprio, cineasta na vida real, diretor de teatro no filme. No final da película, depois de todas as críticas aos mecanismos de financiamento, aparecem os créditos do filme: um banco público (depois seria privatizado) e outras instituições.

Voltando ao filme. O diretor de teatro gosta de observar e penetrar nas camadas morais do outros, como Garcia. Por isso e para esfregar o verso do rótulo na cara dos outros, o diretor de teatro faz os atores meterem os pés na realidade pantanosa do país, por exemplo: visitando clínicas e hospitais públicos sucateados. Nessa hora, se vê a mediocridade por baixo do rótulo ator. A mediocridade une o mauricinho de direita ao esquerdista de boteco, que atuam na mesma peça e, por inércia, constroem o país da Casa Grande e da Senzala. Talvez esta seja a fonte da impotência que choca nos filmes de Bianchi, não é o país nem o mundo que são cronicamente inviáveis, é o individuo isolado e amesquinhado que é cronicamente impotente para transformar as coisas. Não é que o país e o mundo sejam cronicamente viáveis, com certeza são mais inviáveis do que viáveis, mas se fossem necessariamente e com certeza inviáveis, Bianchi estaria ganhando dinheiro produzindo versões simplificadas dos livros de Machado de Assis, e não dialogando com o “bruxo do Cosme Velho”, estaria enlatando produtos mais rentáveis e de fácil de digestão, e não rodando filmes indigestos e com pouco apelo comercial. Com seu trabalho, Bianchi mostra, querendo ou não, que acredita no cinema e na arte, e acreditar é o primeiro passo no caminho para criar e transformar. Assim sendo, nem tudo está perdido, nem tudo é cronicamente inviável, mas essa é outra questão.

Dizem os conhecedores da sétima arte que A Causa Secreta deixa a desejar na qualidade técnica: planos mal iluminados e mal enfocados. Mas esse não é foco deste texto, pretendo explorar A Causa Secreta como experiência de linguagem, como diálogo do cinema com a literatura. Uma cena se repete no conto de Machado e no filme de Bianchi: com a mão direita Fortunato segura uma tesoura, com a esquerda um barbante na ponta do qual está amarrado um rato, ele corta uma pata do animal e em seguida o faz descer na direção da chama de uma espiriteira, o rato grita de dor e desespero, Fortunato repete a operação outras três vezes, arrancando as patas do animal e descendo-o na direção da chama com cuidado para não matá-lo, por fim ele corta o focinho do rato e desce o bicho em direção à chama, o animal morre e vira um pedaço de carne cheio de sangue e pelos chamuscados. No conto, Garcia, que gostava de observar as camadas morais escondidas e de decifrar os outros, vê a cena e conclui que Fortunato tem prazer com a dor alheia. O filme não explora essa reflexão de Garcia, talvez porque o cinema não é capaz de penetrar nas camadas morais dos personagens como a literatura, ou, melhor dizendo: o cinema tem mais dificuldade para reproduzir com palavras o pensamento de um personagem, teria que apelar para um narrador, o que nem sempre é funcional. Por outro lado, o cinema com seu poder de imagem e de som, ao mostrar um rato sendo torturado, cria uma cena que é mais forte na tela do que no papel. Parafraseando João Cabral: o rato do filme é mais espesso do que o rato do conto. Neste ponto a experiência de linguagem de Bianchi é interessante, mostra que o cinema é capaz de dialogar de igual para igual com a literatura. Não é pouco.

Surge outra questão. E o rato? É aceitável torturar e matar um animal, ainda que seja um rato, em nome da arte? Conscientemente ou não, Bianchi deixou uma ratoeira no caminho do expectador, que se incomoda mais com o rato do que com os pacientes abandonados nas clínicas e hospitais sucateados, mais com o rato do que com as crianças de rua que aparecem no filme. Um rato é mais espesso do que um homem?


Bianchi é conhecido por seu cinema provocador: A Causa Secreta, Cronicamente Inviável, Quanto Vale ou é por Quilo. Nestes três filmes ele denuncia a acomodação ao sofrimento alheio típica do indivíduo amesquinhado pelo modo capitalista de produção, no mundo do capital a mesquinharia se transformou em colete salva-vidas. É por isso que o cinema de Bianchi choca, ele é um espelho que revela baixezas debaixo das camadas morais dos expectadores. Só por isso já valeria a pena, o diálogo com Machado é ainda mais interessante. Mas… Essas duas coisas justificam a tortura do rato?