sexta-feira, 18 de outubro de 2013

sábado, 12 de outubro de 2013


No canto do Canto, uma Rosa nasceu



em qualquer lugar aqui o tempo grita
grita vamos plantar pedras vamos
(Souzalopes)



Este ensaio é uma pequena homenagem aos poetas citados e, sobretudo, aos homens e mulheres que derrotaram os nazistas na cidade russa de Stalingrado, em 1943.

Canto Geral, de Pablo Neruda, estabelece uma interlocução com A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade. Diálogo breve, mas quase direto e, suponho eu, pouco conhecido: no canto do Canto (Geral) há uma Rosa (do Povo).

A Rosa Povo foi um dos primeiros livros de poemas que li. Não tinha nenhuma referência, apenas apanhei o livro na estante do sebo. Por acaso me deparei com aquela que considero a grande obra da poesia universal. Desnecessário dizer que não conheço meio porcento da poesia universal, mas mantenho minha opinião. Enfim, de lá para cá, comecei a rabiscar versos, e a ler e reler Carlos Drummond, que se tornou uma solução e uma pedra no meio do meu caminho. Solução porque infinito e inspirador. Pedra no meio do caminho porque suas construções são tão geniais que limitam, como se esgotassem as possibilidades de expressão poética. Por exemplo: quase chamei este ensaio de pequeno voo sobre a poesia, seria uma referência ao poema O vôo sobre as igrejas, que é Drummond e será citado mais à frente. O título me veio antes do texto. É neste sentido que Drummond é um limite, ou uma pedra no meio do caminho, suas construções são tão expressivas que viciam.

Já disseram, e eu concordo, que os grandes poetas são capazes de colocar palavras e expressões na boca do povo. Me lembro da minha mãe, que não deve ter lido Drummond, repetindo e agora, José? Quando a coisa apertava: e agora, José? Conheci a expressão muito antes de conhecer o poema, que, diga-se de passagem, é genial. José: o sem saída, o apagão no fim do túnel:

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Desgraçadamente, José é duro, nem morre, a vida torna-se um fardo a ser carregado eternamente. José, que poderia ser Carlos, é filho da poesia de um povo que desconfia de seu passado e do seu futuro. País do futuro? País de todos? Só na propaganda chapa branca. José é filho da pena de um poeta sem pena e sem piedade de si próprio, todo ironia e sem autocomplacência. Tocar fogo em tudo, inclusive em si mesmo. José é universal e local. Parte do local, percorre o universal e não se encontra.

O bruxo de Itabira, Carlos Drummond, tinha seis anos quando morreu Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho. A lâmina do pessimismo e da ironia passa das mãos de Machado para as de Drummond, e continua cortando tudo e todos.

O labirinto não se desata. O poeta chega a dizer que os suicidas tinham razão. Eis o áporo, que ora se impõe, ora desmancha. Uma orquídea às vezes forma-se, às vezes a flor rompe o asfalto. A leveza do ser é insuportável e doce. Ora isso, ora aquilo; mas mais insuportável do que doce.

A poesia de Drummond dribla definições e leitores. Impossível não pensar em Garrincha. O João da marcação sabe que Garrincha vai cortar para o lado, mas inevitavelmente acaba driblado. O João com o livro na mão sabe que Drummond não escreveria como é maravilhoso o amor, mas prossegue e lê (o amor e outros produtos) no verso seguinte e entre parênteses. O amor, que era maravilhoso, torna-se um produto, uma mercadoria, como um sapato ou uma gravata. O poeta finta o leitor, que ri.

Lembro-me de uma finta que levei de Drummond. Já conhecia bem o livro Brejo das almas, mas não tinha prestado a devida atenção no poema O vôo sobre as igrejas. Até que fui a Ouro Preto, que tem muitos museus e muitas peças de Antônio Dias, o Aleijadinho. Em Ouro Preto repousa, pó sem esperança, pó sem lembrança, o Aleijadinho. Num dos museus havia versos do poema O vôo sobre as igreja, mais precisamente o trecho que fala do Aleijadinho:

Este mulato de gênio
lavou na pedra-sabão
todos os nossos pecados,
as nossas luxúrias todas,
e esse tropel de desejos,
essa ânsia de ir para o céu
e de pecar mais na terra;
este mulato de gênio
subiu nas asas da fama,
teve dinheiro, mulher,
escravo, comida farta,
teve também escorbuto
e morreu sem consolação.

Eis o corte seco, a finta. Quando parece que tudo vai bem... Aleijadinho é lançado do topo do mundo, despenca das asas da fama, teve tudo, inclusive escorbuto, e morreu sem consolação, descansa, pó sem esperança, debaixo de uma igreja de Ouro Preto. Pequenos parênteses. Num museu de Ouro Preto encontrei O vôo sobre as igrejas, depois, já no hotel, fui ressaborear o poema (não viajaria a Minas sem Drummond) e descobri, na página ao lado, o poeminha O passarinho dela. Em Quintana os outros passarão, e o poeta passarinho; em Drummond o passarinho da mulher desejada bate asas e escapa, sem ser apanhado pelo poeta. Voltando. Em Confidência do itabirano, Drummond também se vale do verbo ter para aplicar uma finta, começa conjugando no passado para depois saltar, ou despencar no presente:

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

O poeta se expõe à galhofa, não tem limites. Ele próprio, Aleijadinho... Todos lhe convêm. Drummond e Machado foram funcionários públicos, repartições e autarquias dão fio à lâmina da ironia, em nenhum outro local a verdade inconfessável está tão disponível: escorre pelos grampeadores, decretos, acórdãos. Os jornalões gritam contra a folha de pagamento do funcionalismo, dizem que é um absurdo porque cortar gastos é preciso. É preciso reduzir a folha de pagamento do funcionalismo para ampliar a folha de pagamentos aos capitalistas (obras públicas, subsídios etc.), esta é a verdade inconfessável, muito mais disponível para quem é diretamente amassado pelas engrenagens da máquina pública.

Funcionário público é sinônimo de servidor; servidor é aquele que serve, é um servo. Ser servidor público virou sonho de consumo. Só pode estar afundando um mundo no qual se deseja a servidão, o ser servidor público. Os jornalões dizem que a máquina publica é ineficiente, mas como pode ser ineficiente uma máquina que ajudou a produzir Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade? A máquina pública é o melhor do Brasil. Mas deixemos as coisas comezinhas dos jornalões, que este ensaio é sobre poesia.

Manuel Bandeira criticou o lirismo comedido, bem comportado, funcionário público. Drummond, que foi funcionário público, às vezes parece estar farto de todo lirismo, e dá bofetadas na cara do lirismo, queria por fogo em tudo, inclusive em si próprio, acha que seu ódio é o melhor de si.

Da mesma forma que coloca palavras e expressões na boca do povo, o poeta recolhe palavras e expressões da boca do povo, como um artesão, um mineiro garimpando pedras preciosas. Drummond arremata seus bucólicos versos para uma Cidadezinha qualquer com um Eta vida besta, meu Deus. Expressão também empregada no Poema de sete faces: Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Meu Deus? Espanto. Viva a fala popular. Ou: Adeus, composição que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade. Adeus? Deus o acompanhe? O poeta cético pede que Deus o acompanhe? Obviamente não, apenas repete a fala popular para expressar saudade. 

O escritor tcheco Milan Kundera provavelmente não conhece os poemas de Drummond, mas arriscou um palpite sobre poesia: A vocação da poesia não é nos deslumbrar com uma ideia surpreendente; mas sim fazer com que um instante do ser se torne inesquecível e digno de uma insustentável nostalgia. Tem a ver. Itabira pregada na parede da repartição não é uma ideia surpreendente, é pura nostalgia. A questão é: como a poesia constrói, ou reconstrói, instantes inesquecíveis? A resposta está nas palavras, no reino das palavras, e dessa vez o palpite é meu, ainda que apoiado em Drummond. Não se escreve um bom poema somente com uma grande ideia ou com a recordação de um acontecimento. Atritando uma palavra na outra o poeta reconstrói instantes e forja significados, o resultado final é imprevisível. A magia da poesia, para quem escreve, tem muito a ver com isso, ser surpreendido pelo resultado da escrita: as palavras falando pela boca do poeta, falando, sobretudo, para o poeta, ultrapassando seu projeto inicial. Para reforçar o vazio do presente, Drummond prega Itabira na parede e no verso, mas tempera o prato com o verbo ter conjugado no passado, assim se estabelece o contraste. Teve ouro, teve gado, teve fazendas e ficou só com uma foto na parede. Como está no poema, o hábito de sofrer, que tanto diverte o poeta, é doce herança itabirana. Alguns itabiranos não gostaram do verso de Drummond, acharam que o poeta estava diminuindo sua cidade ao reduzi-la a uma fotografia na parede. Quiçá seja o hábito tão itabirano de sofrer, porque é exatamente o contrário. Itabira é digna de uma insustentável nostalgia, tanto que nos seus últimos trabalhos Drummond mergulha na sua infância e na sua cidade natal.

A poética é um tema recorrente em Drummond, o espantoso é que o poeta foi capaz de expor sua teoria da versificação em versos, registrou suas ideias nos poemas Procura da poesia, Considerações do poema, O lutador e outros. O crítico Othon Moacyr Garcia ressalta o processo de palavra-puxa-palavra na poesia de Drummond. O próprio poeta se coloca como um lutador, luta com as palavras, quer revelar suas possibilidades ocultas, que resistem e são fortes como o javali. O poeta é garimpeiro e artesão ao mesmo tempo. Os poemas que esperam para ser escritos estão refugiados no reino das palavras, é preciso apanhá-las e modelá-las. Por isso não se faz boa poesia com grandes ideias, recordações, ou acontecimentos; boa poesia se faz com as palavras certas, mesmo quando são relatados acontecimentos, recordações ou ideias banais. Desnecessário dizer que as palavras certas para uma situação não costumam ser apropriadas para outra, se não fosse assim o mundo dispensaria os poetas.

O poeta é um devasso, sua arte consiste em devassar as palavras, revelando possibilidades, que são múltiplas, talvez infinitas. Por exemplo, com João Cabral a palavra branco parece significar pureza e limpidez; com Carlos Drummond a mesma palavra tem sabor de vazio.

Um pintor manipula cores e traços, um poeta fricciona palavras. A arte não apenas revela, às vezes subverte as coisas, ou pelo menos tenta subverter. O que é um olho de sal? O que é carne da terra? São construções possíveis no reino das palavras. Não há um único olho de sal no mundo. Não se encontra carne da terra num açougue. Mas uma posta de carne da terra posta no papel causa algum efeito, principalmente se temperada por um olho de sal.

O crítico inglês John Gledson estudou Machado e Drummond. Escreveu Influências e impasses – Drummond e alguns contemporâneos –, entre outras obras. Segundo Gledson, é muito difícil fazer um mapa das influências dos grandes poetas, porque eles digerem e renovam os materiais de que se alimentam. Ainda assim, Gledson vê em Carlos Drummond algo de Mário de Andrade. Sobre a relação entre Drummond e Neruda, o crítico afirma: Em muitos aspectos, é legítimo ver Drummond como o anti-Neruda, pois sua modéstia e ceticismo se opõem diretamente à autoconfiança e ao entusiasmo do poeta chileno.  

Com a deixa de Gledson, saltemos para Neruda. Antes um breve comentário: se as cordilheiras da língua não nos impedem de ver a grandeza de Neruda, isso se deve em grande medida ao excelente trabalho do tradutores brasileiro, Canto Geral, por exemplo, foi traduzido pelo poeta Paulo Mendes Campos. Drummond cita Neruda em Consideração do poema:

Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Nos anos 1940, Neruda já era um poeta de renome (Drummond publicou os versos acima em 1945). O poeta chileno já havia tomado partido e registrado a Revolução Espanhola em versos. Espanha no coração é um dos grandes poemas de Neruda:

Generais
traidores:
olhai minha casa morta,
olhai a Espanha rota:
mas de cada casa morta sai metal ardendo
em vez de flores,
mas de cada canto da Espanha
sai Espanha,
mas de cada criança morta sai um fuzil com olhos,
mas para cada crime nascem balas
que acharão neles um dia o sítio
do coração.


No mesmo poema, Neruda fala às mães dos milicianos mortos:

Não morreram! Estão no meio
da pólvora,
de pé, como mechas ardendo.[...]

[...] mães atravessadas pela angústia e pela morte,
olhem o coração do nobre dia que nasce,
e saibam que os seus mortos sorriem desde a terra,
levantando os seus punhos sobre o trigo.

Grandes poetas são garimpeiros e artesãos, recolhem e modelam palavras, forjando sentidos inesperados. No Canto Geral, Neruda oferece combinações tão improváveis quanto mágicas. Por exemplo, falando sobre o Uruguai, o poeta registra: idioma da água, voz das frutas, beijo fluvial. O que é idioma da água? Qual o timbre da voz das frutas? O que é beijo fluvial? São grãos de poesia.

Neruda vai cosendo grãos de poesia, alinhavando a resistência. O poeta chileno cantou Stalingrado, cidade russa que repeliu os nazistas. Dois milhões de russos morreram para defender Stalingrado, a expectativa de vida de um combatente russo, na batalha de Stalingrado, era de vinte e quatro horas. Entre 1942 e 1943 Neruda escreveu Canto a Stalingrado:

Cidade, Stalingrado, não podemos
chegar à tua muralha, estamos longe.
Somos mexicanos, somos araucanos,
somos patagões, somos guaranis,
somos uruguaios, somos chilenos,
somos milhões de homens.
Já temos, por sorte, parentes na família,
mas não chegamos ainda a defender-te, mãe.
Cidade, cidade em fogo, resista até
chegarmos, índios náufragos, às tuas muralhas
com um beijo de filhos que esperavam chegar.

Stalingrado, não há ainda segunda Frente,
mas não cairás, embora o ferro e o fogo
te mordam de dia e de noite.
Embora tu moras, não morres!

Depois Neruda escreveu Novo canto de amor a Stalingrado, os nazistas já haviam sido derrotados, o poeta lembra da Espanha ao falar da vitória russa:

Os que a Espanha romperam e queimaram
deixando o coração acorrentado
dessa mãe de carvalhos guerreiros
podres estão aos pés de Stalingrado.

A batalha de Stalingrado bateu forte em Carlos Drummond, ali se decidia o futuro da humanidade, o triste mundo fascista era uma ameaça concreta. Em 1945, Drummond publicou A Rosa do Povo, seus versos tomam partido, o poeta se aproxima dos homens e também canta Stalingrado no poema Telegrama de Moscou:

Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que peneirará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
-Stalingrado: o tempo responde.

Contrariando os últimos versos do poema, Stalingrado mudou de nome treze anos depois da vitória russa. Os crimes de Stalin foram tornados públicos, a heróica cidade localizada na margem ocidental do rio Volga passou a ser chamada de Volgogrado. Mas os crimes de Stalin não tem nada a ver com o heroísmo dos combatentes de Stalingrado, a cidade mudou de nome, mas a fibra dos seus defensores e defensoras permanece, por isso a cidade se chamará sempre Stalingrado, o tempo é quem responde. Na Rosa do Povo, Drummond publicou também Carta a Stalingrado:

[...]A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.

Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrirmos o jornal pela manhã teu nome (em ouro
[oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu
[a pena. [...]

[...] Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.

Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem
[trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços
[negros de parede,
mas a vida em ti e prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado! [...]

Drummond fala do hálito selvagem de liberdade, dos peitos que estalam e caem enquanto outros, vingadores, se elevam. O primeiro batalhão de defensores de Stalingrado era composto por mulheres sem grande preparo militar que resistiram até a morte, até serem eliminadas uma por uma.

Em 1950, Pablo Neruda publicou Canto Geral, seus versos tomam partido e, se pudessem, empunhariam fuzis. O poeta faz a defesa dos povos oprimidos e dos seus heróis, inclusive os combatentes russos de Stalingrado. Na terceira parte do seu Canto IX, Neruda fala de Stalingrado:

[...] Stalingrado, surge a tua voz de aço,
renasce andar por andar a esperança
como uma habitação coletiva,
e há um tremor de novo em marcha
ensinando,
cantando
e construindo.
Do sangue surge Stalingrado
como uma orquestra de água, pedra e ferro
e o pão renasce nas padarias,
a primavera nas escolas,
sobe novos andaimes, novas árvores,
enquanto o velho e férreo Volga palpita.
Estes livros,
em frescas caixas de pinho e cedro,
estão reunidos sobre o túmulo
dos verdugos mortos:
estes teatros feitos nas ruínas
cobrem martírio e resistência:
livros claros como monumentos:
um livro sobre cada herói,
sobre cada milímetro de morte,
sobre cada pétala desta glória imutável.[...]

No poema Canto de Amor a Stalingrado, Neruda é quixotesco, empunha versos contra os nazistas, pede que a cidade resista até a chegada de reforços (o poeta entre estes). Sete anos após a vitória russa, com versos autoconfiantes e entusiasmados, Neruda retoma o tema Stalingrado no seu Canto Geral. Drummond é mais contido, sabe que come, trabalha e dorme enquanto Stalingrado resiste. Drummond luta com as palavras (contra elas) nos campos de batalha da poesia; Neruda parece querer lutar com palavras contra tanques e aviões de guerra. Apesar destas diferenças, quando li o trecho do Canto Geral que fala de Stalingrado, percebi a presença da gravata chamejante de Drummond. Canto Geral dialoga com A Rosa do Povo, resta saber se de forma direta e consciente, ou se inconscientemente Neruda retomou e estabeleceu variações sobre os versos drummondianos. Creio que a primeira opção é mais provável.

Drummond: Pedra por pedra reconstruiremos a cidade. Casa e mais casa se cobrirá o chão. Rua e mais rua o trânsito ressurgirá. Neruda: Stalingrado, surge a tua voz de aço, renasce andar por andar a esperança. Nestes versos o mesmo reaparecer, ou reviver, ou reconstruir (Drummond), ou ressurgir (Drummond), ou renascer (Neruda). Em Drummond: pedra por pedra. Em Neruda: andar por andar. Drummond fala das escadas cheias de corpos nas casas destruídas. Neruda registra o renascer da esperança, como uma habitação coletiva. Drummond diz que sobraram apenas algumas árvores com cicatrizes, como soldados.  Neruda registra o renascer do pão nas padarias, da primavera nas escolas, dos novos andaimes e das novas árvores. Alguém já disse (Ernesto Sabato se não me engano) que se vê a alma dos pintores nas árvores que eles pintam, o mesmo vale para os poetas. As poucas árvores de Drummond têm muitas cicatrizes como os soldados, as árvores de Neruda são novas e estão renascendo como o pão nas padarias.  Estas imagens quase opostas refletem as almas dos poetas. Drummond se define como “um eu todo retorcido”, é um parafuso desparafusado orbitando em volta da Terra, em poucos momentos o poeta tentou caminhar de mãos dadas com os homens, A Rosa do Povo é um desses instantes raros. Neruda é um poeta comunista, toma partido dos trabalhadores, escolhe as palavras pelo poder de fogo que há nelas, por isso é às vezes quixotesco, como quando pede que Stalingrado resista enquanto ele se encaminha para a frente de batalha. Drummond se alegra com a resistência russa, mas é realista e razoável, não cria expectativas sobre homens latino-americanos que chegariam para defender a cidade russa, como faz o poeta chileno.

Há ainda outros diálogos entre os dois poetas. Drummond: Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas, todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede. Neruda responde: Estes livros, em frescas caixas de pinho e cedro, estão reunidos sobre o túmulo dos verdugos mortos: estes teatros feitos nas ruínas cobrem martírio e resistência: livros claros como monumentos: um livro sobre cada herói, sobre cada milímetro de morte, sobre cada pétala desta glória imutável. Aqui o diálogo é evidente, o poeta brasileiro diz não haver nem livros nem teatros, o chileno coloca caixas de livros sobre o túmulo dos verdugos mortos e constrói teatros nas ruínas. Novamente, enxergamos as almas dos poetas nas cores que empregam. Drummond é trágico, Neruda épico. As cores e os tons registrados pelo poeta brasileiro são retomados e retocados pelo chileno.

Neruda conheceu o Brasil e seus poetas, foi amigo de Paulo Mendes Campos, Thiago de Mello, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes. No Canto Geral, com suas cores épicas e com discurso eloqüente, o poeta chileno fala do Brasil, de Castro Alves e de Luiz Carlos Prestes. Não há nenhuma referência direta a Carlos Drummond no Canto Geral, mas há este diálogo sobre Stalingrado, que mostra que o chileno leu o brasileiro.


Com suas luzes e suas sombras, os poetas pintaram os heróis da luta contra o nazismo.