sábado, 30 de março de 2013

ALBERT CAMUS
(Por Jean-Paul Sartre)


Camus era uma aventura singular de nossa cultura, um movimento cujas fases e cujo termo final tratávamos de compreender. Representava neste século e contra a história, o herdeiro atual dessa longa fila de moralistas cujas obras constituem talvez o que há de mais original nas letras francesas. Seu humanismo obstinado, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate duvidoso contra os acontecimentos em massa e disformes deste tempo. Mas, inversamente, pela teimosia de suas repulsas, reafirmava, no coração de nossa época, contra os maquiavélicos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do fato moral. Era, por assim dizer, esta inquebrantável afirmação. Por pouco que se o lesse ou refletisse a respeito, chocávamos com os valores humanos que ele sustentava em seu punho fechado, pondo em julgamento o ato político. Inclusive seu silêncio, nestes últimos anos, tinha um aspecto positivo: este cartesiano do absurdo se negava a abandonar o terreno seguro da moralidade e entrar nos incertos caminhos da prática. Nós o adivinhávamos e adivinhávamos também os conflitos que calava, pois a moral, se considerada isoladamente, exige e condena a rebelião. Qualquer coisa que fosse o que Camus tivesse podido fazer ou decidir à sua frente, nunca teria deixado de ser uma das forças principais de nosso campo cultural, nem de representar à sua maneira a história da França e de seu século.

A ordem humana segue sendo só uma desordem; é injusta e precária; nela se mata e se morre de fome; mas pelo menos a fundam, a mantêm e a combatem, os homens. Nessa ordem Camus devia viver: este homem em marcha nos punha entre interrogações, ele mesmo era uma interrogação que procurava sua resposta; vivia no meio de uma longa vida; para nós, para ele, para os homens que fazem com que a ordem reine como para os que a recusam, era importante que Camus saísse do silêncio, que decidisse, que concluísse. Raramente os caracteres de uma obra e as condições do momento histórico exigiram com tanta clareza que um escritor vivesse.

Para todos os que o amaram há nesta morte um absurdo insuportável. Mas, teremos que aprender a ver esta obra truncada como uma obra total. Na medida mesmo em que o humanismo de Camus contém uma atitude humana frente à morte que havia de surpreendê-lo, na medida em que sua busca orgulhosa e pura da felicidade implicava e reclamava a necessidade desumana de morrer, reconheceremos nesta obra e nesta vida, inseparáveis uma de outra, a tentativa pura e vitoriosa de um homem reconquistando cada instante de sua existência frente à sua morte futura.

Obs.: Escrito em 1960 por Jean-Paul Sartre, um dia após a morte de Camus. Tradução: Jorge Luis Gutiérrez. Revisão: Terezinha Arco e Flexa. Introduzi pequenas variações a partir do texto publicado em La polémica Sartre – Camus, Ediciones elaleph.com


sábado, 23 de março de 2013

domingo, 17 de março de 2013


DANÇA DA TERRA

movimento
de placas
tectônicas

movimento
sísmico

corte terra
terra morte
movimento

gritos

som de vidro
estilhaçando

ossos
dos mortos
bailando
debaixo
da terra

terremoto

baile
da morte

moto
mortis





sábado, 9 de março de 2013

Um olhar livre sobre a arte de Antanas Sutkus

Chegou a São Paulo a exposição de fotos Antanas Sutkus: um olhar livre.  Sutkus fotografou a vida cotidiana na Lituânia entre 1950 e 1990 (época em que a Lituânia era parte da URSS).

O cotidiano nos mal chamados países do socialismo real me intriga. Penso em filmes como A Vida dos Outros e Adeus Lênin, penso na literatura de Milan Kundera. Uma das personagens mais fascinantes de Kundera é a pintora Sabina, que emigrou da então Tchecoslováquia para a Europa Ocidental. Sabina diz: “Meu inimigo não é o comunismo, meu inimigo é kitsch!” 

Mas o que é o kitsch? Kundera diz: “O kitsch é um biombo que dissimula a morte.” Se é assim, o kitsch está em todos os cantos, inclusive no mundo capitalista, porque a morte é onipresente.

E o que é um olhar livre? Existe um olhar preso? Algemado? Quando li o título da exposição pensei que seria mais da mesma campanha anti-socialista de sempre, e em alguma medida é (refiro-me ao título da exposição e não ao trabalho exposto). Sutkus é apresentado como alguém que resistiu ao comunismo, dizem que arte do fotógrafo não cabia no realismo socialista, e não cabia mesmo. Mas também Sutkus poderia dizer que seu inimigo não é o comunismo, é o kitsch.

O olhar livre de Sutkus escreve uma história do olhar, como se o fotógrafo quisesse se ver nas retinas das pessoas fotografadas. Os visitantes têm a sensação de estarem sendo encarados pelas fotografias, se vêem nas retinas das pessoas fotografadas. O que querem dizer os olhos daquelas mulheres, crianças e homens da Lituânia? Quantos estão vivos? Quantos morreram? Talvez seja esta a chave para compreender o mistério. Sutkus diz: “Uma missão muito importante para o fotógrafo é capturar e preservar coisas que vão inevitavelmente desaparecer.” Desesperados ou tranquilos, envelhecidos ou infantis; os olhares fotografados estão condenados desaparecer.

O título um olhar livre induz a olhar para o olhar do fotógrafo, o desafio é olhar nos olhos dos fotografados.

PS.: Como está no título, este é apenas um olhar livre (pessoal) sobre a arte de Antanas Sutkus, certamente outros olhares são possíveis. Abaixo três fotos de Sutkus. A exposição Antanas Sutkus: um olhar livre ficará na Caixa Cultural de SP até 21.04.2013. Endereço: Praça da Sé, 111, Centro, São Paulo/SP. De terça a domingo, das 9h às 20h.



Província. Dzukija, 1969


Família lituana. Pediskiai, 1967


No Mar Báltico. Giruliai, 1972