quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Casa de Carlos Drummond, Itabira/MG




Carta para Carlos Drummond

Carlos, hoje é 31.10. Dia do halloween nas escolas de capitulação. E dia do saci nas escolas de resistência. Mas te escrevo porque aniversarias hoje, nasceste em Itabira/MG, em 31.10.1902. Tomo a liberdade de utilizar teus versos.

Às vezes desejavas “por fogo em tudo”, inclusive em ti, “ao menino de 1918 chamavam anarquista”, teu ódio sempre foi o melhor de ti. Outras vezes desejavas “viver para sempre e esgotar a borra dos séculos”. Mas, por “haver disposto o essencial, deixando o resto aos doutores de Bizâncio”, voaste “para nunca-mais” em 17.08.1987, eu tinha 8 anos, não te conhecia, apesar do “e agora, José?” que minha mãe pronunciava nas horas de dificuldade.

Houve um tempo, Carlos, em que foste uma pedra no meu caminho, como se a poesia só estivesse contigo, como se a palavra poeta só valesse para ti, mas isso passou, aprendi a gostar do chileno Neruda, do maranhense Gullar, do pernambucano Cabral, do pantaneiro Manoel de Barros... Melhor assim. O Brasil é mesmo cheio de poetas e de pedras no meio do caminho: Itanhaém (a pedra que canta), Itaporanga (a pedra bonita), Itatinga (a pedra branca), Itapoema (a pedra da poesia?), Itabira (a pedra que brilha)...

Estive em Itabira neste ano, tua casa virou museu, Carlos, e me disseram que havia uma pedra no meio da rua, entre a tua casa e a escola em que estudaste. Foi por isso que escreveste “No meio do caminho”? Tudo tão simples? Os “doutores de Bizâncio” e das nossas academias perderam tanto tempo e não enxergaram o óbvio? Uma simples pedra no meio do caminho da escola e nada mais? Toneladas de análises e nada? Foste um “anjo torto”, Carlos, um zombeteiro que ria da academesmice. A Academia Brasileira de Letras (ABL) vai te homenagear hoje, Carlos, e eu fico rindo porque recusaste a ABL e a imortalidade, com teus braços magros, mandaste uma banana para os imortais.

Mas nem tudo é riso, ou melhor, o riso é pouco, o riso é parco. Preciso falar de dor e lamento. Carlos, as mineradoras limaram o brilho das pedras da tua cidade, cortaram os morros da tua cidade. Itabira é uma pedra retalhada. Minas desaparece de baixo do pó da mineração, “Minas não há mais”. O pó cobrirá os profetas do Aleijadinho e as igrejas de Ouro Preto.

“O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.” “Não veio a utopia”. Não veio o tempo da vida sem mistificações. Nenhuma flor nasceu na rua. O homem não liquidou a bomba. “A noite desceu. Que noite.” “A noite dissolve os homens”. Dezenas de homens executados todas as noites na capital econômica do país. Os esquadrões da morte tomaram as ruas, tomaram as noites. “Existe apenas o medo”. “O medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.” E o medo da morte, o medo dos esquadrões da morte. Uma rua começa em São Paulo e vai dar no cemitério, por esta rua passam meus irmãos. “O triste mundo fascista” se recompõe. “Haveremos de amanhecer”? Quando? Teremos que adiar a felicidade coletiva por mais um século?

Carlos, e agora?

JC





sábado, 27 de outubro de 2012





ITANHAÉM

Água mole em pedra dura,
tanto bate até que chora.

Água cobre a pedra
e escorre choro
de pandeiro e violão.

Água cobre a pedra
e escorre canto
do povo tupi.

Escorre sonho.
Escorre som.
Escorre sal.

Escorre pranto.
Escorre espuma.
Escorre mar.

Canto de pedra.
Pedra que chora.

Som de pedra.
Som de choro. 


* Itanhaém é uma cidade do litoral sul de São Paulo, é considerada a segunda mais antiga do Brasil. A palavra Itanhaém é de origem tupi e significa pedra (ita) sonora (nhaém), ou pedra que canta, outra versão diz que Itanhaém significa pedra que chora. O mar bate nas pedras da praia do Sonho, que choram, ou cantam. Talvez o povo tupi não separe canto de choro, ou talvez as pedras cantem e chorem ao mesmo tempo, como os pássaros engaiolados, e como no poema. As duas fotos desta postagem foram tiradas em Itanhaém.




sábado, 20 de outubro de 2012

12º Texto


* Nota preliminar: este texto é parte do debate sobre o livro A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Os textos anteriores podem ser acessados aqui: Polêmica (A insustentável leveza do ser)

Caro JC..

O Acordo Categórico Com o Ser em Kundera é, como a expressão que lhe corresponde, uma afirmação do ser e, evidentemente, da vida. Isso para mim é mais e bem mais do que claro, se há uma divergência sua quanto a esse detalhe fundamental seria bom se pudesse esclarecer.

Argumentei e citei trechos do livro que considero fundamentar meus argumentos para explicar que o Acordo Categórico é quem está por trás do Gênese, e não o contrário. Essa ideia não é minha, é do próprio Kundera, é assim que penso que os trechos do livro citados por mim esclarecem muito bem. Os princípios do Gênese que Kundera cita servem exatamente para explicar o kitsch que legitima o Acordo Categórico Com o Ser, ou seja, a afirmação do ser e não sua negação. Isso eu penso ter respondido com citações do próprio Kundera, que não termina a explicação do conceito do Acordo Categórico no Gênese, continua a desenvolver a ideia mais adiante e, inclusive, num parágrafo todo onde narra um desfile do 1º de maio e lá distingue o Acordo Categórico Com o Ser, um acordo com o ser enquanto tal, de sua forma, o desfile do primeiro de maio: a palavra de ordem do desfile é “viva a vida”, e não “viva o comunismo”. Como em todo apelo das organizações de esquerda, das igrejas, dos partidos e dos movimentos políticos, à direita e à esquerda, as massas.

Portanto:

Acordo Categórico Com o Ser = acordo com o ser enquanto tal (afirmação fundamental do ser).

Gênese = Kitsch, forma pela qual se afirma o ser, forma atrás da qual escondemos aspectos indesejáveis desse ser. Essa forma tem os seus princípios, ou seja, o homem é bom, o mundo foi criado como deveria ser, etc.

Por isso não discutimos coisas distintas, creio que compreendi seu argumento, que nega que marxistas e anarquistas possam ser enquadrados na definição de Kundera. Ocorre que a definição de Kundera, a meu ver, é essa afirmada acima por mim, e não se trata meramente de uma compreensão arbitrária de minha parte, tanto que exemplifiquei com citações do próprio Kundera. Se você discorda, ok, mas então é necessário me apontar meu equívoco na interpretação, afinal, seu argumento é justamente e exatamente o que neguei em meu último texto. Se você acha que lançar marxismo e anarquismo na definição do Kundera significa falsificar ambos, então você continua achando que o Gênese é o fundamento do Acordo Categórico, quando é exatamente o contrário e é o que penso ter demonstrado a partir do próprio Kundera. É aqui que é preciso desenrolar o novelo. Repetindo para engessar a ideia: Kundera não afirma o Gênese como fundamento do Acordo Categórico, mas faz exatamente o contrário. Para que você sustente que Kundera afirma o Gênese como fundamento é preciso exemplificar.

Sobre o acordo categórico, concordo com você. É por isso que Kundera afirma repetidamente que a fraternidade entre todos os homens não poderá ter outra base senão o kitsch: porque sempre se insinua algum tipo de acordo, porque a vida, perfeita ou imperfeita, é inevitável.  Os homens reunidos em grupos, que partem do princípio de que viver é preciso (absolutamente natural que assim seja), precisam igualmente corrigir a vida para permiti-la, e é desse ofício que brotará o kitsch. Esse acordo, de que viver é preciso, é exatamente o de Kundera, acordo com o ser enquanto tal. Ou seja: enquanto SER.

Acreditar que viver não é preciso não é o mesmo que acreditar que morrer é necessário. Viver não é preciso, mas ninguém, a despeito de poder morrer, a rigor, quando bem quiser, tem escolha. Morrer, antes de ser uma opção, é uma condição. Camus não conheceu nenhum suicídio filosófico, mas eu afirmo, com certa tranquilidade de consciência, que eles aconteceram. Não importa se soubemos ou não. Chegar à conclusão de que viver é uma completa inutilidade dolorosa coloca qualquer um a beira do suicídio, e não há como afirmar que tantos não o fizeram. Mas nosso amigo Souzalopes estava certo...normalmente, em suas amplas razões, os suicidas buscam mesmo uma vida ao contrário.

A partir da definição de Kundera, não há dúvida que entre ele e Camus se insinua algum acordo com o ser. Mas é exatamente a partir daquele definido no romance, um acordo que não tem e nunca teve como fundamento o Gênese.

O menor dos problemas da burrocracia stalinista é o kitsch, seu mal foi muito maior. O kitsch é um dado da existência, está no bem e está no mal, no marxismo, no stalinismo, no anarquismo, no fascismo, na religião, em tudo. Sem mistificações.

O kitsch é a máscara com que se afirma o acordo com o ser. É a máscara que encobre aspectos problemáticos, críticos, a ponto de serem indesejáveis. É somente isso o que vi no belo verso de Brecht: ao receber críticas, ao invés de encará-las ou respondê-las, faz um apelo a sua própria bondade: não é outra coisa senão o profundo acordo categórico com o ser e o kitsch kunderianos.

O trecho do parágrafo que cita sobre a definição do acordo categórico com o ser não passou despercebido por mim, sobretudo quanto diz que “(...) muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.” Pouco importa como, por que e por quem.

Sobre Nietzsche, está correto que a transvaloração dos valores é o contrário da relativização dos valores. Ocorre que Nietzsche, para chegar até aí, passou pela denúncia da relativização de todos os valores, teve de entender a construção histórica de todos os valores e de toda a moral (especificamente da tradição judaico-cristã). Conforme ele afirmou sobre o que seja a verdade, “um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são." Nietzsche foi o precursor da pós-modernidade quando colocou em questão o valor dos valores. A partir daí, da compreensão dos valores como construção histórica e por isso mesmo relativos, é que afirmará a transvaloração dos valores, a imposição de novos valores, negação da tradição moral judaico-cristã.

Bem, fico por aqui também...

Abraços do camarada
Olavo

sábado, 13 de outubro de 2012

11º Texto


* Nota preliminar: este texto é parte do debate sobre o livro A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Os textos anteriores podem ser acessados aqui: Polêmica (A insustentável leveza do ser)

Li duas vezes seu Último Samba, mas não elaborei nenhuma resposta e nem retornei nada, por isso envio esta mensagem (mais um retorno do que uma resposta, porque sem grande elaboração). Já escrevi num desses textos que foi útil essa polêmica, o exercício de compreensão do pensamento do outro e de expressão do próprio é interessante. Por exemplo, só agora compreendi (ou acho que compreendi) porque você afirmou, lá no começo, que se insinuava algum tipo de acordo com o ser no pensamento da esquerda, viver é firmar algum tipo de acordo com o ser (pela simples razão de que não nos matamos), nesse sentido se insinua mesmo um acordo, mas não é acordo categórico com ser do Kundera, porque este se requer condições claras:

1º) Por trás dele deve estar o primeiro capítulo do Gênese;

2º) É preciso crer que o mundo foi criado como devia ser;

3º) É preciso crer que o homem é bom.

Então discutimos coisas distintas. Argumento que marxistas e anarquistas não podem ser enquadrados na definição do Kundera, e isso pela simples razão de que não defendem que o mundo tenha sido criado e que exista uma natureza humana. Boa sacada a sua: o capítulo primeiro do Gênese é realmente consequência do acordo categórico com o ser. Mas não era exatamente isso que eu estava discutindo, disse que lançar marxismo e anarquismo na definição do Kundera significa falsificar ambos, nem um nem outro defendem a criação do mundo e a bondade inata do homem.  Por isso que, para mim, dizer que marxismo e anarquismo firmam o acordo categórico com o ser, a partir da definição do Kundera, equivale a falsificar princípios de ambos.

Sobre o acordo categórico com o ser, gostaria de registrar que, do revolucionário ao homem do subsolo, sempre se insinua algum tipo de acordo, ainda que não o definido pelo Kundera. Só não se insinua acordo no caso do suicida incondicional, ou suicídio filosófico, que é como definia o Camus, que também dizia não ter notícia de nenhum suicídio deste tipo.

Os homens reunidos em sovietes, assembleias, partidos e outros mecanismos partem de um princípio: viver é preciso. É também por isso que se reúnem. É legítimo que assim seja: um homem não precisa dos outros para morrer, mas precisa dos outros para viver, e por isso se organiza. O suicida não precisa do aval de terceiros para se matar, e que bom que seja assim. Voltando. Se creio que viver é preciso, realmente se insinua algum acordo, ainda que não seja o do Kundera. Por outro lado, se creio que viver não é preciso, ou melhor dizendo, se creio que a vida é a própria merda, só me resta a autodestruição, viver, neste caso, significa não ter coragem para rasgar um contrato.

Camus não conheceu nenhum suicídio filosófico, não conheceu ninguém que afirmasse ter se matado por achar a vida uma merda (merda no sentido do Kundera). Neste ponto o finado Souzalopes foi genialmente preciso: “Os suicidas buscam a v-ida ao contrário”. Ou seja, há sempre uma condição: uma dívida impagável, um amor perdido etc, etc. O suicida filosófico buscaria a morte de frente (e não a vida ao contrário), porque, ele sim, está em desacordo categórico com o ser.

Vale dizer que Camus escolhe a vida, Kundera idem; então, também no caso deles se insinua algum acordo com o ser, repito: ainda que não exatamente aquele definido no romance. Creio que o pomo da nossa discórdia é exatamente esse, continuo achando mistificação lançar marxismo e anarquismo na definição de acordo categórico com o ser, tenho dificuldade de imaginar que Kundera faça isso, enquadrar a burrocracia estalinista na definição é tranquilo, fazer o mesmo com o marxismo e o anarquismo é mistificar.

Já registrei que pode haver e provavelmente há kitsch na esquerda, mas repito que não é pela via do acordo categórico com ser (na definição do Kundera). Baixei materiais sobre o kitsch, inclusive Apocalípticos e Integrados, do Humberto Eco, quero ler esses textos para depois repensar a questão. Por exemplo: forçando posso até dizer que há algum kitsch no poema do Brecht (Aos que vão nascer), mas não o enxergo onde você o viu, para mim o problema está menos no pedido de complacência do poeta e mais nos últimos versos: “Mas vós, quando chegar a ocasião de ser o homem um parceiro do homem, pensai em nós com simpatia.” A questão é que o tempo do homem ser parceiro do homem pode não chegar, e o poeta parece não relevar essa possibilidade. Então, o suposto kitsch de Brecht não está no seu acordo categórico com o ser, não na definição do Kundera.

Discutimos muito o parágrafo que define o acordo categórico com o ser, mas imediatamente antes está um trecho que passou quase batido: “O debate entre os que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que o universo apareceu por si mesmo implica coisas que vão além da nossa compreensão e aparência. Muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.” Ou seja, podemos pensar no kitsch como a doença dos que aderem às coisas (não só à vida) sem reservas, por esse caminho dá para tentar enquadrar Brecht no kitsch, já que ele adere, aparentemente sem reservas, à crença num tempo em que o homem será parceiro do homem. Mas repito a sua ressalva: cobrar isso da poesia é complicado. Enfim, pretendo fazer outras leituras para aprofundar melhor.

Aproveito para registrar que não concordo que Nietzsche relativize valores, antes pelo contrário, a transvaloração de todos os valores é o contrário da relativização. Mas se formos seguir por essa vereda sairemos do tema.

A leveza é uma condição da existência, a vida é leve porque não se repete. Como lidamos com isso é uma outra questão, podemos buscar a leveza ou o peso, é por esse duplo caráter que a contradição peso x leveza se torna tão misteriosa e tão ambígua.

Forte abraço,
JC

domingo, 7 de outubro de 2012




D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL
(Fernando Pessoa)

Louco sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza:
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?