sábado, 28 de julho de 2012

Quadrinha

Oswaldo Goeldi: Jardim do Rio (1930)

Culatra: cu de lata,

cu que ladra.



A vida saiu

pela culatra.



JC

sábado, 21 de julho de 2012

Neruda e Dali


Salvador Dali: O Grande Masturbador (1929)

O Grande Urinador
(Pablo Neruda)

O grande urinador era amarelo
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.

Que era, onde estava?

Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.

Nada se divisava. Onde
estava o perigo?

Que ia acontecer com o mundo?

O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.

Que quer dizer isso?

Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propror guarda-chuvas especiais.

Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.

sábado, 14 de julho de 2012

Ananta Martins - Aurora

Tarsila do Amaral: A Cuca (1934)


São seis horas da manhã
de um novo romper de dia.


O romper de manhã
de pássaros a anunciar:


- Hoje tem sol...
- Hoje tem sol...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Passagem

Praia do Rio Grande do Norte
As palavras estão enterradas,
mas se movem,
se agrupam,
chocam-se com a crosta do solo,
procuram a superfície
e fluem.
Um rio de palavras corre
sereno.
Pelo leito de pedra
desce a palavra vida,
fugaz, veloz.
A palavra juventude
passa.
A palavra tempo
corta.
A palavra fogo arde
no rio
e passa.
Apanho a palavra água,
ergo-a,
mas ela deságua,
escorre
e flui.


JC

sábado, 7 de julho de 2012

Ananta Martins - Poema sem título


Oswaldo Goeldi: Abandono (1937)

Eu vi mais uma vez

os negros dançarinos

que um dia

bailaram nos olhos

meus.