sábado, 30 de junho de 2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

Um Sarau para Souzalopes



Capa do livro Togo Fogo, de Souzalopes.

 
 
poesia cadela dialética


palavra que fala silêncio


fala que cala cética etc

(Souzalopes)




Poeta de todo fogo. Poeta do fogo. Brasa braseiro brasil. Pau & pelo. Porta-seio. Amor o corpo e sempre e sempre o corpo. Amor é cego e louco. Pé de fala. Pede fala. Fala e falo. Fede o falo. Fode a fala. Fode e fala. Poesia: fala que fode o falo. Explode e fala. Feto focinhando o futuro. Osso da palavra carne. Nervo da palavra fosso. Cipoada de aroeira. Rato roendo a pele da terra. Gargalhada de boca banguela. Uivo de cão sem dono. Pó de poeta. Pode poeta. Pó de poeta se reagrupando. Em versos. Para sempre. O poeta de fogo nem viu que o mundo ia acabar, mas se a terra tem fome, que coma já! Carcoma tudo carcoma. Nós dizemos até sempre.

Morreu o poeta Souzalopes. Em seus cinquenta e alguns anos, o poeta publicou os livros Pau & Pelo e Todo Fogo. Participou dos grupos Pindaíba e Cacimba. Com os cacoreanos, do Grupo Cultural Cacoré, organizou um seminário de poesia contra a privatização do alfabeto; contra a globanalização do capital, a boa poesia, da Grécia antiga até os nos nossos dias. Souzalopes escreveu para a Revista Brasil Revolucionário, onde publicou o Manifesto do Partido Comunista em cordel, todinho em sextilhas de sete sílabas com rimas nos versos 2, 4 e 6, que é como manda a sabedoria popular:

O mundo inteiro se assombra
Com o tal do comunismo.
O papa e os poderes
Querem fazer exorcismo:
Dizem que é coisa do cão
Querer o socialismo


Souzalopes, ou Souza (que é como costumamos lhe chamar), também escreveu para o jornal do Espaço Cultural Mané Garrincha. E participou sempre que pode das nossas atividades. Poeta de pernas e palavras tortas, de cortes e sacadas secas, para ele todo fogo e todo carinho, para ele nosso sarau de junho. Convidamos todos a comparecer com suas fomes, versos, canções e instrumentos musicais. Um sarau para rimar política com poesia com revolta e com cachaça. Uma orgia de poesia.

Será sábado, 16.06.2012, às 18h, no Espaço Cultural Mané Garrincha
Rua Silveira Martins, 131, sala 11, Sé, São Paulo/SP

Desenho de Marciano Lírio de Souza Lopes,
contra-capa do livro Todo Fogo.

Obs.: O Espaço Cultural Mané Garrincha pretende organizar e publicar os materiais do Souzalopes, quem puder e quiser contribuir basta enviar textos e poemas que poeta deixou pelos zines, livros, revistas e blogues desse mundão. Pode nos entregar no Sarau ou outra atividade ou enviar por e-mail para ecmg.blog@gmail.com

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sobre colaboradores e colaboracionistas (pequeno léxico do mundo corporativo)


Oswaldo Guayasamín: Las manos del terror


Capital: máquina de extrair mais valia. Dono da máquina de extrair mais valia: patrão. Patrão: o mesmo que proprietário, ou capitalista, aquele que come o pão sem o suor do próprio rosto. Estado: máquina totalmente sujeita à autoridade do capital. Cidadão: personificação do capital, se patrão; engrenagem do capital, se peão. Peão: aquele que anda a pé, ou de busão, ou em automóvel financiado em 48 parcelas. Peão: aquele que é forçado a labutar por e pelo patrão, aquele que come o pão que patrão amassou. Capital: aquilo que acarreta a morte, pena capital. Mais valia: riqueza produzida pelo peão e apropriada pelo patrão. Gestão: ato de gerir, ter gerência sobre, administrar, governar. Recursos: bens materiais, dinheiro, haveres, patrimônio, meios pecuniários. Empresa: negócio, empreendimento, sociedade organizada para extração do suor do rosto alheio. Departamento de recursos humanos: seção de uma empresa responsável pela gestão dos colaboradores. Colaborador: nome dado pelos patrões para os seus peões, palavra incorporada pelo jargão empresarial após a reestruturação ideológica. Colaborador: aquele que é gerido, que não tem gerência sobre si próprio, que é administrado, que é governado e que diz assim seja. Colaborador: aquele que colabora voluntariamente. Servo: aquele que não é livre, que não pertence a si mesmo. Peão do Estado: servidor, servidor público. Peão da iniciativa privada: servidor, servidor privado.

Aquele que não labora: patrão. Aquele que não co-labora: patrão. Labora pelo patrão voluntariamente: colaborador. Colabora e ora pelo patrão: colab-orador. Colaborador: ora para o capital, reza pelo patrão. Ação de colaborar voluntariamente: colaboração. Aquele que é forçado laborar para o patrão: servidor público ou servidor privado. Colabora com ação: colaboracionista. Colabora com nazista: colaboracionista. Colabora com fascista: colaboracionista. Colabora com o patrão: colaborador. Servidor público ou servidor privado que colabora voluntariamente com o patrão: colaboracionista, ou colaborador.

Colaborador. Colaboracionista. Colaborador. Colaboracionista. Colaborador. Colaboracionista. Colaborador. Colaboracionista. Colaborador. Colaboracionista.

JC

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Largo do Café

Foto de Minás Kuyumjian Neto. Largo do Café nos anos 1970.
Olha o cheirinho de café
saindo pelo bueiro.
Olha o fantasma do barão
na Rua do Comércio.
Olha o capitão-do-mato
com terno e gravata.
Olha o jesuíta
na Bolsa de Valores.

Na sombra do casarão
a cidade vai passando.
Álvares Penteado.
São Bento.

Chorinho. Feijoada.
Pudim de leite.
Pela Miguel Couto
se vê o Municipal.

Pombos. Mendigos.
São Paulo vai passando.

Cabelo branco.
Copo na mão.
Este verso.
O poeta vai passando,
passando, passando...

JC