quarta-feira, 25 de abril de 2012

O feitiço do Barça

Quando o Barcelona atropelou o Santos, comecei torcendo por este último, depois passei a torcer pelo apito final, que encerraria o castigo. No início a ilusão policarpiana: temos o melhor futebol, os melhores jogadores, Neymar é mil vezes melhor que Messi... No final o espanto: o Barça brincou de ciranda com melhor time do Brasil, meteu quatro brincando. A força da sova excluiu a conjunção condicional, ninguém ousou empregar o tão comum “se”; “mas se o Santos tivesse”...  Nada. Nenhum santo salvaria o Santos. A vitória da equipe catalã foi maiúscula e incondicional. Quis escrever algo na época, mas fiquei sem palavras, como não poucos.

Ontem o Chelsea eliminou o Barcelona. Vitória da buRRocracia inglesa sobre a ciranda catalã. O futebol é tão democrático que abre espaço inclusive para a buRRocracia, mas não fecha as porteiras da inovação. O Barça é, sobretudo, uma novidade. Síntese do jogo holandês, com a melhor geração espanhola, com um dos grandes craques da escola platina.

Um princípio: manter a posse de bola. 75%, 80% por partida. Quem tem a bola nos pés, tem o jogo nas mãos. Mas o futebol é tão mágico, mas tão mágico, que deixa brechas para seu contrário, o antijogo. O Chelsea eliminou o Barça montado numa retranca total, com todos seus homens posicionados atrás da meia-lua. Não houve jogo. Antecipadamente a equipe inglesa confessou sua inferioridade, optou por recuar todas as suas peças. Se fosse boxe, o árbitro desclassificaria os ingleses por falta de combatividade e antijogo. Mas boxe não é futebol, ainda bem.

Quando o Barça nocauteou o Santos, disseram que tratava-se de um time histórico; agora que perdeu para o Chelsea, é possível que mudem-se os discursos. Da minha parte repito: o Barça é, sobretudo, uma novidade (síntese da escola holandesa, com a melhor geração espanhola, com um craque platino ímpar). Por isso é sim uma esquadra histórica. O toque de bola é seu passaporte para a história.

No caminho de Barcelona, Dom Quixote tentou açoitar Sancho Pança à força para desencantar sua amada Dulcinéia, foi derrubado e imobilizado pelo escudeiro. No caminho do Barcelona apareceu uma equipe que recusa todas as regras do bom combate, e que não se envergonha de recuar todos seus homens.

Quixote e Barcelona são teimosamente principistas. O primeiro acredita nos livros de cavalaria, o segundo na magia do seu toque de bola. Quixotescamente, o Barça recusa chutes de fora da área, cruzamentos e qualquer tipo de jogada que não seja o toque de pé para pé. Chutes de longa distância e chuveirinhos na área representam a possibilidade de perder a posse de bola, logo não são empregados. O Barça chega na linha de fundo, mas não cruza; chega na entrada da área, mas não chuta; apenas rola a pelota de pé para pé até encontrar brechas na defesa adversária.

Enfim, ontem tive certeza de que o Barça é mesmo um time histórico, seu oponente esteve o tempo todo posicionado no campo de defesa. Para tentar vencer o Barça, o Chelsea precisou negar o futebol, praticando a retranca e o antijogo. O último tento dos ingleses quase não foi filmado, as câmeras todas estavam viradas para o gol Chelsea, quando uma rebatida da zaga encontrou um atacante livre, este percorreu dezenas de metros sem ser visto pelas câmeras, driblou o goleiro e empurrou para as redes. Estranho. Feio. Sintomático. Antes perder de pé do que ganhar de joelhos.  

JC

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Solano Trindade – Advertência

Homem sobre as ruínas de
Hiroshima, 06.08.1945
Há poetas que só fazem versos de amor
Há poetas herméticos e concretistas
enquanto se fabricam
bombas atômicas e de hidrogênio
enquanto se preparam
exércitos para guerra
enquanto a fome estiola os povos...

Depois
eles farão versos de pavor e de remorso
e não escaparão ao castigo
porque a guerra e a fome
também os atingirão
e os poetas cairão no esquecimento...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

anaCrônica da pré-história ideológica

Despertador. Sono interrompido. Noite mal dormida. Chuveiro, leite, pão amanhecido, ônibus. Oitenta minutos no trânsito. Calor. Fumaça. Cansaço. Trabalho. Café. Barulho. Mais café. Mais cansaço. Mais barulho. Almoço.

Marmita: arroz, feijão e bife.

Retorno. Corredor. Dor de cabeça. Mal súbito. Visão nublada. Tontura. Queda. Vômito. Convulsão. Espera por socorro. Espera por socorro. Espera por socorro. Não compensa esperar socorro. Remoção improvisada. Hospital. Novo desmaio. Outra convulsão. Aguardar: não há médicos. Aguardar: não há médicos. No hospital público não há médicos.

Nova remoção. São Paulo: engarrafamento, chuva, xingo, tensão. Noventa minutos no trânsito. Outro hospital público. Ficha. Senha. Espera. Previsão: cinco horas de espera. Sala de espera de hospital tem televisão barulhenta que transmite a rede globo. O corpo declina, prefere morrer em casa. Última remoção. Casa. Cama. Sono.

Dia seguinte pela manhã. Todos concordam que foi um absurdo. Seria preciso exigir direitos. Bater o pé. Xingar. “Eu nunca teria deixado você sair sem atendimento. Quando é assim tem que fazer raios-X, tomografia. Eu chamaria o responsável. Eu chamaria a polícia e a imprensa. Queria ver se eu tivesse lá. Ah, se eu tivesse lá!” Consenso.

Almoço. Marmita: arroz, feijão e bife.

Todos continuam achando que foi um absurdo, que seria preciso gritar e xingar. “Eu nunca teria deixado você sair sem atendimento. Quando é assim tem que fazer raios-X, tomografia. Eu chamaria o responsável. Eu chamaria a polícia e a imprensa. Queria ver se eu tivesse lá. Ah, se eu tivesse lá!” Consenso.

Na pré-história ideológica, protestar é um verbo que se conjuga sempre à distância, na condicional e em primeira pessoa. Quem grita mais chora menos, ou quem pode mais chora menos, de qualquer forma fica estabelecido que alguém vai ter que chorar. Furar fila não é problema, se tomamos a frente. A falta de médicos não é problema, se não estamos precisando de atendimento. Na pré-história ideológica a corrupção se instalou em cada um. Na pré-história ideológica a palavra povo ficou oca, sem miolo. O outro é uma abstração. Dente por dente, olho por olho: mundo cego e banguela.

Retorno. Banheiro. Barulho. Café. Tédio. Mais barulho. Mais café. Mais tédio. Fim do expediente. Ônibus. Oitenta minutos no trânsito. Calor. Fumaça. Casa. Televisão. Cama. Sono.

Cândido Portinari: Os retirantes (1944)


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Convite: JUBIABÁ



Hector Bernabó Carybé: Capoeira (1977)


“ao contrário de todos os meninos, sempre torcia nas fitas de cowboy pelo índio mau contra o mocinho branco, o sentido de raça e de raça oprimida ele o adquirira à custa das histórias do morro e o conservava latente.”


Baticum de candomblé e macumba. Sapateado e batuque das águas. Maresia, marulho, cheiro de peixe. Espinha de peixe no prato vazio. Povo sem eira nem beira na beira do mar. O feitiço, a farofa e a foda na areia da praia. A escravidão disfarçada na lavoura de fumo ou no cais do porto. Sopro de vida no lombo do morro e no compasso do samba. Golpe de capoeira e navalha. O suor, o sonho, a greve. Um personagem que é todo um povo, num livro que é um trago de cachaça, numa língua em que malandragem significa liberdade. As páginas de Jorge Amado têm gosto de Brasil e cheiro de dendê.


O Grupo Cipó de Aroeira se reúne no Espaço Cultural Mané Garrincha para discutir as diversas manifestações da cultura brasileira. Este ano comemora-se o centenário de Jorge Amado. Convidamos todos para discutir a obra Jubiabá de Jorge Amado. Temos o texto eletrônico e podemos repassar para quem se interessar, basta solicitar.



Será sábado 14.04.2012, às 15h.


Rua Silveira Martins, 131, sala 11, Sé, São Paulo/SP.