quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Tréplica: “ninguém faz samba só porque prefere”


Prezado amigo,

Tenho algumas palavras ossudas para dizer. Umas sobre suas ideias, outras sobre A insustentável leveza do ser. Foi a grandeza estética da obra que justificou essa interlocução. Mas, neste momento, é menos a estética e mais a política que me faz escrever. Chamarei as coisas pelos nomes que acho elas têm. Participo de movimentos sociais e políticos e defendo minha postura, o que é diferente de não aceitar outras. Sou militante e, como tal, é preciso fazer o combate contra o pensamento reacionário, inclusive quando este é pronunciado por bocas amigas.
Por que faço uma ideia instrumentalizada de politização? Que problema jogo para fora da borda do meu pensamento? Não entendi essas afirmações. A exemplificação ajudaria na exposição.
Você pergunta se está claro que o kitsch é um fenômeno geral próprio dos partidos? Não está claro. Pelo contrário. Quem pensa dessa forma deveria explicar exatamente por que é assim? Qual a relação precisa de uma coisa com a outra? Na falta dessa explicação, que não vi nem em Kundera nem em ti, só posso considerar o argumento ideológico (no sentido de falseamento da realidade). Não duvido que alguns partidos e movimentos produzam o kitsch, mas afirmar que todos o criam necessariamente é abrir uma vereda ideológica muito útil para o pensamento reacionário.
Na verdade, a única defesa contra o kitsch é justamente a politização, e não o contrário como você e o Kundera defendem. A saída de vocês é pequena, se esconde atrás do umbigo do indivíduo. É o embate franco e aberto de posições que pode rechaçar o kitsch, como fazemos neste debate. A politização rechaça o kitsch porque este não sobrevivi à crítica. A questão é fortalecer a democracia operária e seus mecanismos, não o contrário. A saída individual além de ineficiente é funcional para burguesia. Rompe-se o acordo categórico com o ser e firma-se outro com a burguesia. Pensar que todas as organizações políticas criam o kitsch é desarmar a luta de classes.
René Magritte: Les Amants (1928)
Caminhemos pelos campos das definições. Classifiquei o socialismo dos países do leste-europeu como degenerado, não sei se é a melhor definição, mas nos limites desse debate caracteriza uma formação econômica que não atingiu os objetivos a que se propôs. Mas por quê? Como explicar o colapso da URSS? Esta é uma ferida aberta nas carnes militantes. E se não temos uma explicação fechada para a questão, também não nos furtamos do combate. Sabemos que contradições internas ajudaram a produzir o colapso, mas limitar a explicação a estas significa ser ideológico, ou mal informado, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Significa esquecer os 30 milhões de russos vitimados pelas duas guerras mundiais, significa ignorar a destruição causada por imperialistas e nazistas, significa desconsiderar o atraso relativo da URSS, seu isolamento e por aí vai.
Pela via fácil do seu pensamento, que é o do Kundera em alguma medida, a Revolução Russa já estava condenada a priori, afinal, a organização política cria o kitsch. Isso não é despolitizar? Nem os Fukuyamas conseguiram ser tão reacionários, para estes a história acabou depois da queda da URSS e do Muro de Berlim, para você a história não existe sequer como possibilidade, posto que a organização política é repelida. Como não existe transformação social sem organização política, rechaçar esta significa inviabilizar aquela.
A questão fundamental é: como lidamos com as experiências revolucionárias concretas? Reivindico a Revolução Russa dos sovietes de 1905 e 1917; os conselhos operários italianos, alemães e húngaros do pós-primeira guerra; a auto-gestão da Revolução Espanhola; a auto-organização da Comuna de Paris entre outras experiências. É por reivindicar processos históricos reais que combato este mito insensato, esta generalização hipertrofiada que anula qualquer perspectiva de transformação social.
Também acho problemático quando outra postura não pode ser entendida sequer como possibilidade. Rosa dizia que a liberdade é sempre a liberdade para o que pensa diferente. Corretíssimo. E este é um caminho obrigatório para rechaçar o perigo do kitsch. Mas certamente a liberdade não exclui  a crítica, o que seria paradoxal. Você afirma e eu concordo que todas as escolhas têm seu preço. Se opto pela revolução tenho que pensar os limites dos processos reais que reivindico, como o espanhol e o russo. Neste sentido defini este último como socialismo degenerado, óbvio que seria preciso indicar com precisão em que momento a revolução refluiu, o que ultrapassa os objetivos desta polêmica, mas, de qualquer forma, minha definição é o preço que pago por minha postura. Se escolho a leveza na sua perspectiva (não tomar parte de nenhum lugar na minha existência social), posso levitar tranquilo sobre o campo das definições, inclusive empregando expressões como cortina de ferro e sugerindo outras como socialismo real. Cortina de ferro é uma expressão de Goebbels, fixada por Churchill e depois amplamente empregada pela mídia ocidental para desqualificar a Revolução Russa e o socialismo. Socialismo real é uma definição dos burocratas do leste europeu, e que também permite fartos usos ideológicos. Nós dois lemos Marx, sabemos que ele enxerga o socialismo nos moldes da Comuna de Paris. Se é assim, como podemos chamar  a experiência russa de socialismo real? Qual era o espaço que havia para os trabalhadores auto-organizados tocarem suas vidas e a produção? Entretanto, se ultrapassamos as generalizações ideológicas e hipertrofiadas, enxergaremos na Rússia o embrião das potencialidades revolucionárias: os sovietes.
A Revolução Russa começou a agonizar quando os sovietes foram esvaziados, a partir deste ponto os russos começaram a cavar a cova da revolução. Esta é a minha opinião, mas imagino que não é a sua, se for coerente com seu argumento você terá que condenar todas as organizações políticas, que nada produzem a não ser o kitsch, os sovietes inclusive. Acho que nem Kundera chegaria a tanto.
Voltando ao livro. Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido. As frases são bonitas. Mas Sabina será sempre um ser incompleto, porque a maior traição à ordem, a revolução, não lhe é acessível nem como possibilidade, já que ela rechaça partidos e movimentos políticos. Creio que a beleza do livro deriva dessa contradição. E se é contradição, há um choque de opostos, por isso afirmei que A insustentável leveza do ser não é apenas uma crítica ao socialismo degenerado.
Somente um ex-militante poderia escrever A insustentável leveza do ser, Kundera é um homem desiludido com a Grande Marcha, o peso das marteladas que ele dá em Franz comprova isso. Mas veja, é exatamente essa desilusão que agiganta a obra, pela simples razão de que esse mal estar é coletivo e real.
Kundera escreve numa época em que já se sabia que nem o socialismo degenerado e nem o capitalismo redimiriam a humanidade. Lembro de um texto em que ele compara seus dias na França e na República Tcheca; nesta havia uma única rádio que repetia as mesmas notícias, naquela há várias rádios que também repetem as mesmas notícias.
Os cenários desabam. A história soterra os seres: nem futuro, nem presente. A insustentável leveza do ser é grande porque expressa esse dilema. Lembro-me de Drummond (poema Nosso tempo): este é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em outro poema (A flor e a náusea), o poeta diz que o tempo é ainda fezes, maus poemas, alucinações e espera. Kundera é filho deste tempo, é um eu todo retorcido, e sua obra é grande porque nela transitam seres envergados.
O que fazer? A bestialidade autoritária massacra os seres; mas, por outro lado, o kitsch é o limite de todos os homens políticos, de todos os partidos e movimentos políticos. Bestialidade vigente ou kitsch de esquerda? Kundera se debate e se afoga neste impasse, seus personagens são incapazes de se contrapor ao socialismo degenerado, porque para tanto seria preciso fazer uso de partidos e movimentos políticos, incorrendo, portanto, no kitsch. O ser ensimesmado cava sua trincheira em si próprio, incapaz de qualquer combate coletivo. Mas nem por isso deixa de ser interpelado pelo real, como quando Tomas é forçado a se retratar e, consequentemente, lhe é negada a possibilidade de não tomar parte em nenhum lugar da existência social. Passagens como essas são belas, mostram o embate impossível de um ser isolado contra as engrenagens que lhe oprimem.  
O individualismo a la Kundera é uma possibilidade, entre kitsch e bestialidade autoritária, e se o kitsch é o limite, muitos escolherão se abrigar e se anular nos limites do eu. É uma possibilidade legítima para os que aceitam a equação formulada, não é o meu caso. Escolho o engajamento político a partir das minhas ideias, partindo das suas você declina do engajamento, são duas posições possíveis. Discutir as bases que sustentam nossas posições e suas implicações está no campo da crítica, não das chantagens e acusações. É como embate político que enxergo este debate, não se trata de uma cobrança moral de engajamento, mas sim da constatação de que politicamente nos alistamos em trincheiras opostas. Portanto, se quisermos definir esquerda e direita a partir um princípio teórico, esta polêmica tem uma serventia mínima: a esquerda afirma a transformação, a direita aposta na continuidade. 
Concordamos que a direita é a própria situação. Se é assim e se a revolução é sempre social e coletiva, em qual campo político se inscreve a afirmação de que o kitsch é o ideal estético de todos os partidos e movimentos políticos? Esquerda ou direita? É possível imaginar a negação da situação sem partidos e movimentos políticos? A quem interessa esse mito insensato? À direita, óbvio. Você sintetiza muito bem mensagem kunderiana: Não são os posicionamentos políticos propriamente que Kundera (des)qualifica como Kitsch, mas a forma política, a organização. Esses não derivam do Kitsch, mas o criam como consequência da organização política. Se o kitsch surge como consequência da organização política, a revolução é excluída do campo das possibilidades, posto que é incapaz ultrapassar o primeiro. Afirmo que Kundera despolitiza porque ele nega a política e a organização. Não consigo enxergar de outra forma, como é possível politizar despolitizando, afastando a forma política e a organização? Como já afirmei, penso exatamente o contrário, somente fortalecendo a organização política é que se pode rechaçar o kitsch. É por essa razão e outras que defendo a democracia operária e seus mecanismos.
A insustentável leveza do ser, que é grande porque esboça as contorções e traços do eu todo retorcido. A crítica política deve se posicionar humildemente, muitos degraus abaixo da crítica estética, mas deve se posicionar: desqualificar a forma política e a organização é um posicionamento reacionário que Kundera sugere e você endossa. No livro é possível relevar a crítica, mas quando você transplanta as possibilidades reacionárias do Kundera para desqualificar a totalidade da luta política, que é minha também, não me resta outra possibilidade a não ser responder. Registre-se que a generalização do argumento no livro é uma possibilidade, mas, concretamente, Kundera dispara apenas contra os burocratas do seu tempo, contra um estadunidense inclusive. Quem generaliza e transforma o argumento em ideologia é você, não sei se Kundera apoiaria este procedimento.  
A insustentável leveza do ser é um romance ensaístico da melhor qualidade, e é sempre complicado iluminar a arte com as lanternas do pensamento racional, mas arrisquemos: qual é a relação de causa e efeito entre Kitsch e política? Quando Marx fala do fetichismo da mercadoria entendemos por que as relações entre os homens são enxergadas e sentidas como relações entre coisas. Quando Kundera sugere que a organização política cria o kitsch não se estabelece uma relação de causa e efeito, é uma opinião especulativa. Primeiro seria preciso definir de que organização política estamos falando, isso extrapola o campo da literatura e é compreensível que assim seja. Pensar que a burocracia estalinista produza o kitsch é quase uma constatação, e está claro que é isso que Kundera faz. Generalizar o argumento é empulhação ideológica. Para ter seriedade seria preciso dizer quais organizações criam o kitsch e por quê? Que mecanismos explicam o fato? Pensemos nos conselhos operários, como os Sovietes, eles produzem o kitsch também? Você chegaria a tanto? Acho que Kundera não daria tamanho pinote para a direita.
O único enfrentamento possível contra kitsch estalinista e outros é a politização e o fortalecimento das organizações proletárias. Tanto é assim que o leste europeu não se libertou do kitsch depois do fim do socialismo degenerado. A burocracia estalinista negava a merda porque esta saia do seu próprio ânus. O mesmo vale para a burguesia. Para essas duas castas é conveniente negar seus excrementos. Se é assim, se o tempo é ainda de fezes, buscar a leveza é recusar a merda na exata medida em que tenta levitar sobre o real cotidiano, ou como você diz: não tomando parte de nenhum lugar na minha existência social.  A história é escrita com sangue e merda. Tereza viveu seus melhores dias quando combateu os tanques russos com fotos, não foi um grande ato de resistência revolucionária, mas poderia ter causado a identificação e repressão a posteriori dos manifestantes, ela se espanta com essa possibilidade e fica aliviada por saber que nenhum tcheco foi identificado através da sua câmera. A questão é: por que ela não passou das fotos para outras formas mais efetivas de resistência? Tomas foi grande quando se recusou a assinar sua retratação. Mas por que ele não se aproximou dos que resistiam? Sabina colocou o dedo nas feridas dos tchecos que pregavam a luta armada sem serem capazes eles próprios de lutar? Mas por que ela não resistiu diretamente ao estalinismo e à era da feiúra total? Porque Sabina, Tomas e Tereza são materialização da ideia de que a forma e a organização política criam o kitsch. Franz pensa diferente, ele crê na Grande Marcha, se organiza, luta e acaba martelado com brio. Franz é conjunto de possibilidades que Kundera se esforça para rechaçar.
Por fim, se reivindicar a política e a organização significa se expor ao risco do kitsch ou outro qualquer, e em alguma medida significa mesmo, não é isso um freio. A ação política progressista tem a ver com o espírito criador dos seres, é, sobretudo, anticoisificação. Escolho a politização e o engajamento apesar de qualquer risco e preço. Repito que não tenho dificuldade para aceitar outras posturas como possibilidade, mas não entendo por que os diversos posicionamentos não devam ser submetidas à crítica, política inclusive. Creio que um pensamento independente de qualquer forma de compromisso, que chega no “ser ou não ser”, não vai se incomodar se seus aspectos reacionários são criticados.
JC