sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Nicarágua, o que és?

O que és
senão triângulo de terra
na metade do mundo?

O que és
senão vôo de pássaro?
Um guarda-barranco. Um colibri.

O que és
senão ruído de rio
levando pedras brilhantes,
deixando pegadas nos montes?

O que és
senão seios de terra?
Lisos. Pontudos. Ameaçadores.

O que és
senão canto de folhas de árvores gigantes?
Verdes. Emaranhadas. Cheias de pombos.

O que és
senão dor e povo e gritos na tarde,
- gritos de mulher parindo -?

O que és
senão punho cerrado e tiro na carne?

Nicarágua, o que és
que me dói tanto?

* Versão para o português do poema ¿Qué sos Nicaragua?, de Gioconda Belli.

Gioconda Belli - ¿Qué sos Nicaragua?

¿Qué sos
sino un triangulito de tierra
perdido en la mitad del mundo?

¿Qué sos
sino un vuelo de pájaros
guardabarrancos
cenzontles
colibríes?

¿Qué sos
sino un ruido de ríos
llevándose las piedras pulidas y brillantes
dejando pisadas de agua por los montes?

¿Qué sos
sino pechos de mujer hechos de tierra,
lisos, puntudos y amenazantes?

¿Qué sos
sino cantar de hojas en árboles gigantes
verdes, enmarañados y llenos de palomas?

¿Qué sos?
sino dolor y polvo y gritos en la tarde,
-"gritos de mujeres, como de parto"-?

¿Qué sos
sino puño crispado y bala en boca?

¿Qué sos, Nicaragua
para dolerme tanto?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Onze de setembro

Homem torturado em Abu Ghraib
Que o ataque de onze de setembro foi fundamental para estratégia belicista dos EUA, ninguém contesta. Daí a afirmar que os próprios serviços secretos estadunidenses armaram o atentado vai uma distância considerável, mas não impossível de percorrer. Lembremos dos aviões estadunidenses pintados com bandeiras cubanas para legitimar o ataque à Baía dos Porcos em 1961, isso para ficar em apenas um exemplo. Toneladas de vídeos e textos pesam contra a versão oficial sobre o 11/09: não há sinais do avião que teria sido lançado no pentágono, arranha-céus como as torres gêmeas são resistentes ao fogo, a imagem da queda dos edifícios sugere implosões, pessoas que estavam no local disseram ter ouvido explosões (reforçando a versão das implosões), o prédio 7 do WTC caiu sem ser atingido por aviões e por aí vai. Além disso, por que ninguém assumiu oficialmente o ataque? Por que os suicidas não deixaram mensagens? Tudo muito estranho. Mas deixemos para a história a tarefa de varrer debaixo do tapete.

Contra ataques hollywoodianos, respostas hollywoodianas. Dividido o mundo entre heróis e vilões, caberia aos primeiros vencer os segundos em nome da liberdade, da democracia e de bons bocados de petróleo. Bush filho é o pai da petroleocracia pós-moderna.

Dez anos depois, sabemos que a terrível Al-Qaeda não é assim tão poderosa quanto diziam os mocinhos estadunidenses. Claro, era e é preciso supervalorizar o inimigo. Também é sabido que as armas de destruição em massa do Iraque eram peça de ficção de relatórios pré-fabricados. Medo enxertado nos seres. Hemorragia social estancada com torniquetes de medo. Não há situação tão ruim que não posso piorar, essa é a mensagem do estado estadunidense para seus cidadãos. O colorido dos alertas de ataques terroristas estiveram sempre à mão, especialmente para os momentos de queda de popularidade do presidente da vez. Contra o colapso generalizado da sociedade consumista, a cicatrização via estabelecimento de um inimigo externo. É mais fácil justificar o esvaziamento das liberdades individuais quando se está enfrentando um “terrível” inimigo externo. Isso para não falar de Guântanamo, Abul Ghraib e da legitimação da tortura, eufesmiticamente chamada de simulação de afogamento.

Toneladas de enlatados engarrafaram a inteligência da sociedade estadunidense. As comemorações do suposto assassinato de Bin Laden atingiram o cu-me da ignorância xenófoba. A covardia do ato, a invasão deliberada de um país, as informações arrancadas sob tortura não serviram para constranger os paladinos da barbárie, que não hesitaram em comemorar o suposto assassinato.

Todo império decadente carece de mitos e mistificações. O mito da guerra ao terror produziu suas mistificações, como a idéia de que os EUA são vulneráveis. Dez anos depois do 11.09 a tricotomia se impõe: ou os ataques foram facilitados, ou foram forjados, ou houve grande falha dos mecanismos de segurança. Sendo esta última possibilidade a menos provável.

A questão fundamental é que ataques como os do 11.09, por mais espetaculares que possam parecer, não ameaçam a estrutura e o funcionamento do capitalismo estadunidense, que é o que realmente interessa para os burgueses. Os ataques tendem a formar um consenso momentâneo que encobre as contradições capitalistas, reforçando a hegemonia burguesa. O discurso da vulnerabilidade justifica a corrida armamentista, as guerras imperialistas e a limitação da liberdade dos cidadãos. Dez anos depois está tudo mais claro, apesar dos incautos e interesseiros que, por razões distintas, insistem em endossar o coro da vulnerabilidade.

A única ameaça real ao capitalismo estadunidenses são suas contradições internas, como sabem os Obamas e demais gestores do capital. O perigo é a crise de realização do valor e os milhões de estadunidenses varridos para baixo da linha da pobreza, 46,2 milhões para ser preciso. Guerra ao terror e vulnerabilidade externa são apenas maquiagem para esconder as garras da economia imperialista.

JC

sábado, 3 de setembro de 2011

Ferreira Gullar – Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras.

- porque o poema, senhores,
  está fechado:
  “não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

            O poema, senhores,
            não fede
   nem cheira