terça-feira, 30 de agosto de 2011

Um grito

Edvard Munch: O grito.
Semana passada foi divulgado um vídeo em que policiais de SP xingam dois homens baleados: um está algemado no chão, outro agoniza caído e espuma pela boca. As frases dos policiais são: “Estrebucha, filha da puta, estrebucha, vai...”; “Por que que esse não morreu ainda?”; “Deu sorte, heim meu...!”; “Não morreu o filha da puta?” e “Tomara que você morra no caminho.”


Tirando a imagem, nada de novo. A média mortos pela PM de SP no último ano foi de 1,85 por dia. No período que vai de janeiro de 1998 a setembro de 2009, a polícia do RJ matou 10.261 pessoas, média de 2,4 mortos por dia.

Metendo o dedo na ferida. A questão é: quem chancela a violência policial? O Estado? Sim. Os capitalistas? Sim. Só estes? Não.

O anonimato possibilitado pela Internet é revelador. Até onde meu estômago permitiu, li alguns dos milhares de comentários relacionados ao vídeo. A conclusão é inequívoca. A maioria apóia incondicionalmente a atitude dos policiais.

A questão é: o que fazemos quando temos total poder sobre terceiros? Considerando os comentários peçonhentos, a situação dos baleados seria muito pior se algum dos internéticos fosse PM. Ou seja, a violência policial é socialmente legitimada. Essa é a questão. O policial é somente quem puxa gatilho; quem mata é deus, a família, a propriedade privada e toda a sociedade.

Penso em Quixote. Tripudiar de um inimigo indefeso e agonizante? Onde ficam as leis do bom combate? Fosse contra quem fosse em qualquer situação é uma covardia. A ética não tem duas medidas. Como queria Lukács, Quixote realmente lutava contra dois tempos: contra “a cavalaria medieval” e contra “a baixeza prosaica da sociedade burguesa”.

Como Quixote assistiria um vídeo tão catingoso? O que pensaria dos comentadores sapateando sobre um quase cadáver? Estes responderiam: mas e se fosse a sua família, e se fosse com você, e se, e se...  Rebato: a estupidez mais covarde se esconde atrás da conjunção condicional se!

Roliudeanamente, cérebros bipolares dividem o mundo em dois grupos: cidadãos de bem (comentadores, suas famílias, contribuintes) e ladrões (todos aqueles que ameaçam a paz dos shopping centers, quiçá até este que escreve. Tomara!). A burrice bipolar exclui qualquer coisa que escape da equação cidadãos de bem x ladrões. Classes sociais, cor da pele, consumismo são sumariamente excluídos. E vale tudo, inclusive sapatear sobre o corpo de um homem que agoniza.

A poesia naufraga. Mundo siliconado: cosméticos clareiam dentes, viagras levantam picas, barragens assassinam rios, medicamentos psiquiátricos sustentam os cidadãos de bem. Aurora das mercadorias e dos critérios quantitativos.

 
Capitalismo é igual a guerras, assassinatos, destruição ambiental, burrice bipolar, calmantes, medicamentos antidepressivos e covardia. Enojado, fico pensando que é o mundo que estrebucha e que morre no caminho. Alegro-me. O capitalismo e suas guerras, sua ignorância, sua destruição do meio ambiente estão liquidando este acaso horroroso chamado humanidade. Evoé!

JC

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Tango (Carlos Saura)

Cena do filme Tango
O tango tem qualquer coisa de intermediário. Meio temperado, meio tropical. Meio música, meio dança. Meio hétero, meio homo. Meio crepúsculo, meio amanhecer. Meio tortura, meio libertação. Meio fratura, meio cicatriz. Meio rotina, meio clandestinidade. Meio cachaça, meio ressaca.

O tango é um homem atraente e másculo, com marcas de expressão, como Mario Suarez, do filme Tango, de Carlos Saura. O tango é uma mulher deslumbrante, tão jovem quanto vivida, como Elena Flores, do filme Tango, de Carlos Saura.

Tango. Argentina/Espanha 1998. 117 min. Drama. Diretor: Carlos Saura. Atores: Miguel Ángel Sola (Mario Suárez), Cecilia Narova , Mía Maestro (Elena Flores), Juan Carlos Copes.  

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carlos Drummond de Andrade - O passarinho dela

O passarinho dela
é azul e encarnado.
Encarnado e azul são
as cores do meu desejo.

O passarinho dela
bica o meu coração.
Ai ingrato, deixa estar
que o bicho te pega.

O passarinho dela
está batendo asas, seu Carlos!
Ele diz que vai-se embora
sem você pegar.

* Do livro Brejo das almas

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Notas conjunturais

O tacho capitalista entornou. O caldo pestilento da crise escorre pelo mundo. Do Oriente Médio a Israel, dos EUA à Espanha, e até debaixo da saia da rainha mãe.

Dinheiro não nasce em árvore e nem de semente transgênica. A teoria econômica ainda serve para alguma coisa, apesar dos economistas do establishment. Não era difícil prever o resultado das medidas anticrise de 2008, os estados se endividaram até o nariz para salvar seus capitalistas da bancarrota, três anos depois estão todos se afogando: estados, capitalistas e, principalmente, trabalhadores. Não há grandes novidades na teoria da crise, apesar das palavras pomposas repetidas pelos economistas, como o substantivo feminino recidiva, sinônimo de recaída. Os apologéticos de plantão não resolveram a crise, mas a palavra bonita para definir o segundo momento da tormenta já está na praça: recidiva.

É sabido que os canhões e bombas da segunda guerra mundial foram a solução de continuidade do capitalismo em crise; apesar de Keynes e de sua teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Atualmente a burguesia não dispõe de um Keynes, mas resta-lhe sua máquina de guerra. Afeganistão, Iraque e Líbia na mira do fuzil. E virão outros.

Na Líbia os serviços secretos ocidentais armaram dúzias de mercenários, deram-lhes o nome de rebeldes e desfecharam o ataque petroleiro. Depois acusaram o governo líbio de reprimir seu próprio povo. Esperaram semanas. Quando a rebeldia dos seus rebeldes se mostrou insuficiente para garantir o ouro negro, aviões e bombas da otan foram despachados para liquidar a peleja.

Mas a crise é uma serpente traiçoeira, está no quintal e no berço das crianças. A Inglaterra condena a repressão de todos os governos que não lhe agradam, se cala sobre a repressão de todos os governos que lhe agradam e agora se vê obrigada a reprimir em seu próprio solo. Pau que bate em Chico também bate nos súditos da rainha. Virão jatos de água, cassetetes e o exército se necessário.

Desemprego, racismo e desigualdade social são varridos para baixo do tapete. Os rebeldes ingleses foram definidos como vândalos, só. O combate é antes de tudo semântico. Conta pouco o assassinato de um jovem negro pela Scotland Yard, que é a mesma polícia que liquidou um brasileiro inocente com sete balaços na cabeça. Mas a crise dificulta inclusive a manipulação. Na terra da rainha e de Huxley já não dá para omitir uma verdade: a crise chegou. Admirável Mundo Novo. A crise é para inglês ver.

O rei está nu, a rainha, só de calcinha.

JC

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Líbia: bombas sedentas de petróleo, cifrões encharcados de sangue


Os ritos processuais da guerra de rapina variam pouco. Interesses econômicos na frente; notícias falsas, soldados e caças no campo de batalha. Afeganistão, Iraque, Haiti. Na Líbia não é diferente. Passados cento e trinta dias do início dos ataques ao país norte africano, a verdade brilha sobre os escombros de Trípoli: imperialistas ocidentais armaram, treinaram e deram o nome de rebeldes aos mercenários de Benghazi.

É isto que explica como os protestos populares em dois dias se transformaram em levante militar, armas e soldados já estavam lá, faltava apenas a oportunidade. Nuri Mesmari, homem de confiança de Kadafi,  já havia sido recrutado pelos franceses, foi ele que negociou a deserção de militares do regime. Um mês depois do início do levante, um homem da CIA, o coronel Khalifa Haftar, chegou dos EUA para comandar os rebeldes.

Quando seus rapazes de Benghazi se mostraram incapazes de derrotar o regime, a OTAN não hesitou, despachou seus caças e bombas para a Líbia. Neste momento em que caças, bombas e mercenários armados se mostram insuficientes para vencer Kadafi, o que farão os imperialistas? Dividirão ou país? Mandarão seus próprios rapazes para combater em solo?

Num contexto de crise capitalista e de explosão das dívidas dos estados imperialistas, não vai ser fácil enviar soldados oficialmente, a presença em terreno líbio deve se restringir às forças especiais. Por outro lado, os protocolos e ritos processuais da OTAN não protegerão os países imperialistas do inevitável desgaste.

Até quando a farsa da guerra humanitária vai se sustentar? Quantos caças e helicópteros cairão por “falhas mecânicas” até que se comece a questionar lorotas desse tipo? Os batalhões midiáticos vão poder sustentar as versões de seus militares por quanto tempo?

Nos últimos dias surgiu um sinal de aprofundamento da farsa da guerra, como aconteceu em outros países, as bombas imperialistas foram despejadas sobre a tv estatal líbia. Os embaixadores da liberdade de expressão da mídia comercial noticiaram como se fosse um fato qualquer. De qualquer forma, está claro que já não basta inundar os meios de comunicação com as versões dos militares da OTAN e seus patrões. Por mais rouca que seja, é preciso calar a única voz do inimigo, como ensinam os manuais da guerra imperialista.

Mas estes manuais e as empresas multinacionais só enxergam cifrões, esqueceram de estimar o tamanho da resistência do povo atacado. Pensaram que mercenários e bombas seriam suficientes para lhes garantir o domínio do petróleo líbio, erraram feio. Vão ter que refazer a conta, precisarão aumentar seus investimentos na guerra para garantir cifrões empapados de petróleo e sangue. 

JC