sábado, 30 de julho de 2011

Milan Kundera - A arte do romance

Seus romances são a fusão sem falha do sonho e do real. Ao mesmo tempo, o olhar mais lúcido pousado sobre o mundo moderno e a imaginação mais desabrida. Kafka, antes de qualquer coisa, é uma imensa revolução estética. Um milagre artístico.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O anjo exterminador (de Luis Buñel)


Mergulho nos meandros do sonho. O anjo exterminador é uma película pesadelo, uma sucessão de imagens incômodas. Sonho mau. Surrealismo. Super-realismo. Asfixia.

Um jantar para mais ou menos duas dezenas de burgueses, pouco importa o número, pesadelos são imprecisos. Hipocrisia de sempre. E o inusitado. Empregados abandonam o palacete antes do jantar, exceto o mordomo; burgueses jantam e ficam presos. Confinados sem explicação. Sem barreira visível, apenas o bloqueio. Quem está fora não consegue entrar, os de dentro não podem sair. Está montada a equação.


Não interessa o porquê do isolamento. O porquê não cabe no sonho. É fato e ponto. Como num pesadelo em que não se consegue despertar, nem mover um músculo, nem gritar. Agonia surda. Um inseto na metamorfose de Kafka, um homem na canoa na terceira margem do rio de Guimarães.


Cenários desabam. Dissolvem-se as convenções. Burgueses são bichos com ternos, gravatas e vestidos de grife. Fedem como qualquer cadáver. Atacam como animais acuados. Golpe de Buñel na burguesia? Com certeza. Mas a crítica é cáustica. Não ameaça apenas burgueses. Atire a primeira pedra quem quer seja indiferente ao confinamento e ao terror. Atire todas as pedras quem for capaz de colocar a moral antes do pão.


Grandes obras dizem mais do que expressam diretamente. As metáforas são perigosas. A peste, de Albert Camus, é o nazismo e mais. O anjo exterminador, de Luis Buñel, ataca o franquismo e mais.


O anjo exterminador é anto e ontológico, é mais do que um filme político. E são superficiais as análises que não ultrapassam horizontes políticos. É por ser mais do que política que a película pesadelo de Buñel continua atormentando meio século depois de sua produção. O pesadelo é um rio circular, se repete no filme e no dia-a-dia.  

O anjo exterminador. México 1962. 94min. Drama. Diretor: Luis Buñel. Atores: Silvia Pinal, Enrique Rambal, Claudio Brook, José Baviera, Augusto Benedico, Antonio Bravo, Jacqueline Andere, César del Campo, Rosa Elena Durgel, Lucy Gallardo, Enrique García Álvarez, Ofelia Guilmáin, Nadia Haro Oliva, Tito Junco, Xavier Loya, Xavier Masse, Ofelia Montesco

sábado, 23 de julho de 2011

ANTIDICA: UM LIVRO PARA NÃO LER

Não ignoro que textos como este tendem a produzir o efeito inverso do que pretendem, mas vamos aos fatos mesmo assim. Existe um livro para não ser lido? Não. Certamente não existe. É a vida que é curta, o que coloca prioridades. E aqui surge uma questão: depois de perder horas lendo um romance menor, ainda me proponho a escrever algo a respeito, por quê?

Auto-análise não é o meu forte, mas imagino por que despejo tempo pelo ralo comentando um livro medíocre: vingança. Jogos Surrealistas ludibriou minha intuição. Meu método de flertar com o livro falhou feio. O gosto pelo novo e a disposição ao risco me fizeram dar uma topada na estante do sebo. Troquei Abadon, o exterminador, de Ernesto Sábato; por Jogos Surrealistas, do inglês Robert Irwin. Olhando agora, vejo que as indicações do logro estavam visíveis no meio da contracapa: três hiperbólicos elogios da mídia comercial. Motivo suficiente para desconfiar, mas ignorei o sinal vermelho e fui em frente.   

Paul Éluard, André Breton e Salvador Dalí participam dos jogos surrealistas de Irwin. Mas são figuras decorativas, panos de fundo que não dão pano pra manga. A Revolução Espanhola e a Segunda Guerra também não têm grande importância, exceto pelo fato de serem contemporâneas do amor do narrador da história, Caspar, que é um pintor surrealista inglês.

A orelha do livro anuncia uma investigação sobre sexo, surrealismo, imagística hipnótica, obras de cera, arte nazista, mesmerismo e loucura. Pura ilusão. O texto é totalmente kitsch. Amor brega orquestrado, com maestro e dupla sertaneja comercial. Pinceladas de bom gosto duvidoso, classe mediano e medíocre. Um romance siliclonado. Super-realismo de canção cafona repetida em caixa de música de boteco ao preço de moeda de meio real. Peruca que não cobre a careca.

Jogos surrealistas é a história do hiperamor tão comum ao tempo presente, espelho do vazio dos seres. Supra-realismo manco, dejetos de civilização e repressão varridos para dentro do inconsciente. Sentimento hipertrofiado em academia e com anabolizantes sintéticos. Amor mercadoria exposto em vitrine de shopping. Amor piegas, meloso, ridiculamente sentimental. Amor carência que dá azia no leitor.



quinta-feira, 14 de julho de 2011

Rosa Luxemburgo - A revolução russa

A liberdade apenas para os sequazes do governo, apenas para os membros de um partido – por mais numerosos que sejam – não é liberdade. A liberdade é sempre unicamente liberdade para quem a pensa de modo diferente. Não por fanatismo de ‘justiça’, mas porque tudo o que é educativo, salutar e purificador deriva da liberdade política, depende dessa convicção, e perde toda eficácia, quando a liberdade torna-se privilégio.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Rosa Luxemburgo - A revolução russa

O negativo, a demolição, pode-se decretá-los; a construção, o positivo, não. Terra virgem. Mil problemas. Somente a experiência é capaz de corrigir e de abrir novas estradas. Somente uma vida fermentante, sem impedimentos, imagina mil novas formas, improvisa, emana uma força criadora, corrige espontaneamente todos os erros. Por isso, justamente, a vida pública dos estados com liberdade limitada é tão deficiente, tão pobre, tão esquemática, tão estéril, porque excluindo a democracia renuncia-se à fonte viva de toda riqueza espiritual e progresso (Prova: os anos 1905 e os meses fevereiro-outubro de 1917). Assim é não apenas politicamente, mas também econômica e socialmente. Toda a massa do povo deve participar da vida pública. De outra forma, o socialismo acontece por decreto, autorizado pelo bureau de uma dúzia de intelectuais. É incondicionalmente necessário um controle público. De outra forma, a troca de experiências fica estagnada no círculo fechado dos funcionários [...]. A práxis socialista exige uma completa transformação espiritual das massas degradadas por séculos de dominação de classe burguesa. Instintos sociais no lugar dos egoístas, iniciativa das massas no lugar do desleixo, idealismo que eleva acima de todo sofrimento, etc. Ninguém o sabe melhor, descreve-o com mais eficácia, repete-o mais obstinadamente do que Lênin. Mas ele se engana completamente sobre os meios. Decretos, poder ditatorial dos inspetores de fábrica, penas draconianas, reino do terror, são todos paliativos. O único caminho para o renascimento é a escola da própria vida pública, da mais ilimitada e ampla democracia, opinião pública. É justamente o que o reino do terror desmoraliza.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sem título

Quebra de rotina. Inspeção veicular. Saída do trabalho, mínima libertação, no meio da sexta-feira. Frio com sol, dia luzente, inverno no planalto paulista. Um rosto familiar na fila de espera, mas não o identifico. Aniversário da ex-mulher. Desatam-se os pensamentos. “Vida: conjunto de possibilidades não realizadas: amor desencontrado, sexo que não fiz.” Mas o letreiro do motel me lembra do sexo que fiz ali, há onze anos. Sexta-feira tem aroma de sexo. Legião Urbana no rádio do carro, canção depressiva. Refeição em casa com vinho cabernet sauvignon, pequena dose alcoólica em horário comercial, subversão insignificante, das que o capital tolera. Apartamento por limpar, piso branco malhado pela sujeira, marcas de sapato, vidros engordurados, interruptores manchados. Faxina adiada para o próximo semestre, pouco importa. Louça da semana, pouco importa. Descanso na sacada. Último gole. Último suspiro de liberdade. Retorno para a repartição. Crachá no peito. Sorriso implantado no rosto. Tédio vespertino. Homem etiquetado. Me calo. E escrevo.  

JC

domingo, 3 de julho de 2011

A poética da luta com palavras em Carlos Drummond


Falemos de poética, ou arte de fazer versos, e falemos de quem versejou como poucos, se é que algum poeta foi tão intenso e visceral. Falemos do mineiro de Itabira, falemos de Carlos Drummond de Andrade.
Abordarei a poética drummondiana presente em três poemas: O lutador, Procura da poesia e Consideração do poema. Chamarei esta concepção de fazer versos de poética da luta com palavras:  

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
        
Estes três poemas foram publicados, respectivamente, nos livros José (O lutador) e A Rosa do povo (Procura da poesia e Consideração do poema), na fase mais intensa do poeta mineiro. Tão intensa que ele foi capaz de registrar seu programa poético em versos. Era como se ele sentisse sua capacidade de expressar e comunicar todas as suas inquietações e angustias, abria-se para Drummond A máquina do mundo, ou de fazer poemas.
         Carlos Drummond nunca foi apegado à métrica e à rima. Entretanto, após esta fase mais visceral, ele flertou com estas duas deusas da poesia, como para recompor a repelida Máquina do mundo. Isso se deu em seu sexto livro, Claro Enigma, de 1951, que sucedeu os intensos poemas de A Rosa do Povo. Coincidência ou não, o poema A máquina do mundo foi publicado exatamente no livro Claro Enigma, quando a máquina de fazer versos ameaçou se fechar para o poeta. Ele tentou então se voltar para um fazer poético mais clássico e tradicional? É uma possibilidade, mas não é uma solução, e nem o assunto deste texto.Retomemos a poética da luta com palavras.
         Em sua Procura pela poesia, Drummond começa dizendo onde ela não está, citemos alguns versos:

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesias com o corpo

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

 Não cante tua cidade, deixa-a em paz

 Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.

Dito onde a poesia não se encontra, Drummond afirma:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos. 


Surge uma aparente contradição que ameaça inviabilizar a própria obra de Drummond, que escreveu versos sobre sua infância na série Boitempo, que registrou acontecimentos em A rosa do povo e assim por diante. Nada disso seria poesia? Como resolver o impasse? A auto-ironia seria uma lâmina a dilacerar o próprio poeta? A invalidar sua obra?
Parece-me que não. Ocorre que os poemas drummondianos tratam de acontecimentos, afinidades, aniversários etc.; mas não nascem destes, fluem delas, das palavras, estas corporificam aqueles. Ou seja, os poemas falam de acontecimentos, mas através de palavras que os vão condicionando. A poesia, por sua própria essência, é a arte de manejar as palavras, é justamente o manejo poético das palavras que transforma um relato sobre algo qualquer num poema. Acredito que seja essa a resposta (ou chave) para a procura drummondiana da poesia.
As palavras são a unidade primeira e última da poesia de Carlos Drummond, são sua matéria-prima fundamental, e é curioso que ele as amasse mesmo antes de aprender a ler, o simples aspecto gráfico delas já atraía o garoto Carlos. Do menino que apreciava as palavras para o poeta genial foi um salto.
Mas como funcionam as engrenagens da luta com palavras? Quer o poeta “penetre no reino das palavras”, quer estas brotem dele, e nelas que está a poesia. As inquietações se condensam em palavras, e aqui se encontra a unidade primeira dos poemas de Drummond. Por exemplo: suponhamos que os sentimentos de perda e de falta dominassem o nosso mineiro em algum momento dos anos 1940, estes sentimentos poderiam se fundir no substantivo feminino ausência. E mais que isso, suponhamos que essas inquietações fossem recorrentes, que estivessem presentes sempre. A partir dessa duas palavras pode ter sido construído verso final do poema O Enterrado Vivo: “é sempre no meu sempre a mesma ausência”.  Inclusive, este poema pode ter nascido de trás para frente, torto, porque tudo é possível perante a poesia, diante dela “não há criação nem morte”.  
A luta drummondiana é uma batalha por expressar-se poeticamente através das palavras e pela relação entre estas. Os poemas brotam das palavras, que condensam os sentimentos de seu criador, este pode ser comparado a um catador/reciclador de palavras. Mas a poesia não é um simples somatório de palavras, pela simples razão de que juntas elas ganham vida e são capazes, inclusive, de ultrapassar o próprio poeta, podem expressar mais do que este tinha consciência de dizer. Drummond captou e registrou essa possibilidade nos versos de Consideração do poema:

As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Ou seja, se as palavras “não nascem amarradas” e “se beijam”, é porque elas se procuram, se buscam, se convidam, se tocam, se acariciam. O poema então é uma confraternização de palavras, que, postas no papel, podem trilhar caminhos independentes da intenção original do seu criador. A arte poética consiste no manusear e no atritar as palavras.
Mas aqui surge uma questão. Como compreender os poemas metalinguisticos/metapoéticos de Drummond, mais precisamente os três citados no início deste texto? Teriam eles brotado de palavras ou da intenção deliberada de falar do fazer poético? É provável que esta última hipótese seja a correta, é difícil imaginar que do manejo de palavras aleatórias o poeta tenha atingido um resultado tão concreto, ou seja, a formulação de um programa poético em versos. De qualquer forma, isso não inviabiliza a poética da luta com palavras. É como se Drummond nós dissesse que sua intenção de compor um poema metalinguistico/metapoético não era o mais importante, a questão seria com que palavras escrevê-lo. Neste ponto a poética drummondiana irrompe com toda sua força.
O mais importante não é o que dizer, mas sim como dizer. A poesia está menos nos fatos espetaculares e mais na forma poética de narrar as coisas, ainda que sejam as mais comuns, como uma simples pedra no meio do caminho.
Para Drummond, a essência do fazer poético não consiste em expelir imagens inconscientes, não está na métrica e nem na rima. O poeta, para ele, é um mineirador de palavras que estão “em estado de dicionário”, ou então um artesão que as lapida e as renova. Exemplifiquemos adaptando o trecho final de Morte do leiteiro:

as palavras se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando uma outra coisa
a que chamamos poesia.

Drummond ensina: “Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra.”  Portanto, sua batalha é a eterna tentativa de revelar as faces ocultas das palavras, é por este caminho que se encontram “os poemas que esperam ser escritos.”
         A luta com palavras é a tentativa de encantá-las em busca de um sentido poético possível apenas no verso, é este sentido que Drummond procurou e encontrou repetidas vezes. Mas se isso é verdade, por que “lutar com palavras e a luta mais vã”? Talvez porque “o inútil duelo jamais se resolve”, a luta não tem fim, é quixotesca. O poeta seria um atormentado, um Sísifo condenado carregar palavras montanha acima. Porém, se a luta é vã para o poeta enquanto indivíduo, posto que é eterna e “prossegue nas ruas do sono”, não é inútil, porque nos salva, e nos dá “uma esperança mínima”,  verbaliza e expressa o que sentimos. Exemplifiquemos novamente com o Enterrado Vivo:

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

         A partir da repetição do advérbio sempre, cria-se uma atmosfera de dor e de ausência eternas, quase sisificas, uma angústia atemporal, onde o orgasmo é passado e o futuro reserva o pânico. A dor é uma constante, é para sempre. Entretanto, se o poema é duro, se não deixa escapatória, ele também estabelece o diálogo na exata medida que todo esse desespero é demasiadamente humano. Neste sentido lutar com palavras não é um esforço vão, é uma luta para estabelecer a comunicação, e aqui há uma rima e uma solução.
         Mas Carlos, e agora? Sua luta com as palavras foi quixotesca, sempre haverá poemas por escrever, assim como havia sempre novos gigantes por combater. Então adaptemos para ti, Carlos, os versos que escreveste para o fidalgo Alonso Quejana, mais conhecido como Dom Quixote de la Mancha:

Dorme, Carlos Drummond.
Pelejaste mais do que a peleja
(e perdeste).
Amaste mais do que amor se deixa amar.
O ímpeto
o relento
a desmesura
fábulas que davam rumo ao sem-rumo
de tua vida levada a tapa
e a coice d'armas,
de que valeu o tudo desse nada?
Vilões discutem e brigam de braço
enquanto dormes.
Neutras estátuas de alimárias velam
a areia escura de teu sono
despido de todo encantamento.
            Dorme, Carlos Drummond, andante
            petrificado
            poeta-desengano.

         Você marcha, Carlos! Carlos, para onde? Respondo: para os nossos corações, “uma rua sai de Itabira e vai dar” nos nossos corações, foste um Quixote com poder de encantar as palavras, um nigromante. Sua poesia é toda encantamento e comunicação. De tua luta com as palavras ficaram os mais belos poemas, neles encontramos nosso desespero, nossa dor, nossa indignação e nossa vontade de amar. Teus poemas são todos nós, são todos nossos.

1) Todos os versos citados são de Carlos Drummond de Andrade.

JC