sábado, 30 de abril de 2011

Ernesto Sábato - O escritor e seus fantasmas



Ernesto Sábato: Por qué gritará?

[...] os seres de carne e osso jamais podem representar as angústias metafísicas no estado de idéias puras: fazem-no sempre encarnando essas idéias, obscurecendo-as com sentimentos e paixões. Os seres carnais são essencialmente misteriosos e se movem por impulsos imprevisíveis, mesmo para o escritor que serve de intermediário entre esse estranho mundo irreal mas verdadeiro da ficção e o leitor que segue seus dramas. As idéias metafísicas se convertem assim em problemas psicológicos, a solidão metafísica se transforma no isolamento de um homem concreto em uma cidade concreta, o desespero se metafísico se transforma em ciúmes e o conto que parecia destinado a ilustrar um problema metafísico se converte em um romance de paixão e crime.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Centenário de Ernesto Sábato

Ernesto Sábato: Auto-retrato
O argentino Ernesto Sábato é, para mim, um escritor fundamental, que consulto com freqüência: porque me reconheço em seus personagens, na introspecção de Juan Pablo Castel, por exemplo; e também porque me alimento com as porções humanismo de seus ensaios. De Sábato é preciso falar na primeira pessoa, ainda mais nestes momentos em que o escritor caminha para completar seu primeiro centenário.

Lembro-me de que conheci Sábato através de Albert Camus (outro que considero fundamental). Vale registrar que foi Camus um dos primeiros a reconhecer o talento do escritor argentino. Na Internet encontrei o livro Mensageiros da Fúria – uma leitura camusiana de Ernesto Sábato –, de Janer Cristaldo. Procurava um e encontrei o outro. Desse dia em diante as leituras foram se sucedendo: O Túnel, Homens e Engrenagens, Sobre Heróis e Tumbas, El Escritor y sus Fantasmas, La Resistencia, Uno y el Universo e por aí vai. Tenho livros de Sábato de uma simpática edição do diário La Nación, todos em espanhol. A leitura destes me faz lembrar do outro Ernesto, o Guevara, que dizia que os latino-americanos são o mesmo povo mestiço, somos mesmo, inclusive nós, brasileiros, nossas línguas latinas são parecidas. 

Ernesto Sábato é um homem de transição e movimento. Aproximou-se do marxismo e da ciência, depois afastou-se. Caminhou para a literatura e os ensaios, até que uma doença visual lhe restringiu as possibilidades de escrita e leitura. Teve contatos com os surrealistas franceses nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial. Em 1984, presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), que investigou os crimes da ditadura militar argentina. Atualmente, Sábato se dedica à pintura, seus quadros são sombrios como seus personagens.

Ernesto Sábato: Dostoiévski
Há um eixo sempre presente em Sábato: o humanismo radical. É este humanismo que caracteriza o escritor argentino, e que o aproxima de homens como Albert Camus. Como Camus, Sábato é um estrangeiro: um latino-americano na Europa, ou um europeu na pampa argentina, ou um humanista na ciência, ou o contrário disso.

Para Sábato, os argentinos, principalmente os portenhos, caracterizam-se fundamentalmente por desencontros: são europeus na América e americanos na Europa. O Tango é a expressão mais bem acabada destes homens de prata. Talvez por isso o nascimento do Tango só poderia ter ocorrido em Buenos Aires ou Montividéu, como afirmou Jorge Luis Borges.

A literatura e as letras são, para Sábato, a melhor forma de enfrentar fantasmas e de derrotar engrenagens mecanicista, ou seja, de caminhar por vias que a ciência pura não pode explorar. A literatura é o campo de conhecimento capaz de promover o encontro e a síntese dos mais diversos saberes: da história à física e da filosofia à geometria etc. Além disso, a literatura não inibe o eu (sujeito), pelo contrário, liberta-o.

O escritor tcheco Milan Kundera (outro fundamental) diz que seus personagens são o conjunto de suas possibilidades pessoais não realizadas. É neste sentido que Sábato percebe a primazia da literatura, os romances são a objetivação do seu ímpeto de construtor. A literatura, ao penetrar a alma dos seres, ilumina o mundo com holofotes únicos. Os ensaios são portadores da mesma potencialidade.

Ernesto Sábato: Alquimista
Segundo Sábato, vivemos um período de transição e de crise de toda a cultura ocidental. Nesta crise se incluem o capitalismo, a racionalidade produtivista que lhe é própria e até mesmo o marxismo. Para ele, a crise do projeto marxista é parte da derrocada da cultura ocidental baseada razão, que se realiza afastando-se do mundo cotidiano e de questões também fundamentais. Os personagens e quadros de Ernesto Sábato são sombrios exatamente por serem parte de um mundo em crise. Sábato rechaça a velocidade produtivista do mundo moderno, que inviabiliza gestos não utilitários à produção, como os bate-papos nos cafés de Buenos Aires. Segundo o escritor argentino: “Não se deve desperdiçar a graça dos pequenos momentos de liberdade que podemos gozar: um mesa compartilhada com pessoas queridas, uma caminhada entre árvores, a gratuidade de um abraço.”  

Mas a questão não é negar e abandonar a racionalidade (o marxismo inclusive). O problema é muito mais sútil. Trata-se de recolocar a razão em seu devido lugar. A questão, para Ernesto Sábato, é romper a preponderância da racionalidade utilitária e produtivista, incorporando outras dimensões ao real, como os sonhos, os desejos e os pequenos prazeres.

A obra de Ernesto Sábato é um protesto contra a mecanização da vida e dos homens. Parafraseando os títulos dos seus ensaios, é uma luta dos homens contra as engrenagens, ou do escritor contra seus fantasmas. Em um dos seus últimos textos (La Resistência), Sábato afirma: “é preciso resistir, nos salvaremos pelos afetos.”

Num mundo que padroniza e coisifica, homens como Ernesto Sábato são imprescindíveis.
JC

domingo, 24 de abril de 2011

Amanda


Foto: Antonio AFRAS
Água brota da rocha,
desce pura e clara,
contorna as pedras,
procura o riacho
e escorre suave.
Banha o terreno,
refresca os bichos,
as flores.
Da rosa amarela
salta uma borboleta
(também amarela)
que vai ziguezagueando
sobre as margens,
sobre as águas.
Atrás da borboleta
vai uma garotinha
pisando a grama,
descalça.
Corre e sorri
com dentinhos brancos,
de leite.


JC

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A mulher mais bonita do mundo

A mulher mais bonita do mundo não está na televisão, pelo contrário, está no banco de escola, no escritório vizinho, ou atrás de uma máquina copiadora (como neste caso). É preciso que seja assim, porque a beleza desmedida não pode ser absorvida de um tapa, é preciso observá-la de todos os ângulos e em seus gestos corriqueiros: um piscar de olhos, um esboçar o sorriso e até uma cara zangada.

O principal sintoma da presença da mulher mais bonita do mundo é a inspiração que se produz, em todos os sentidos, seja a aspiração profunda que enche o peito de ar como se quisesse sugar tudo, inclusive a moça, seja a produção de crônicas e poemas que sucede o encontro.

A beleza da mulher mais bonita do mundo começa na aparência, chega à essência e retorna, dialeticamente. Sempre há algo a descobrir, por explorar, e é isso que fascina.

Vamos aos fatos. O Lico era casado. Claro, não com a mulher mais bonita do mundo, porque se é verdade que tamanha beleza não se absorve de um tapa, também é fato que o convívio exagerado com a formosura tende a danificá-la. Imagine a mulher mais bonita do mundo de pijama de bolinha. Não dá, né? Mas curiosamente o Lico enxergava a mulher mais formosa atrás de um avental de loja copiadora, e que perfume não teria aquele avental branco? Qualquer que fosse, devia combinar com os olhos felinos, tinha de ser selvagem, fugídio. Porque o belo é sempre esquivo, reticente, difícil de penetrar.

E precisamos falar do belo e do sublime. Isso a tal ponto, que num arroubo de insensatez, o Lico chegou a comentar com sua esposa sobre a beleza da moça da copiadora, e houve acordo, sua esposa concordou. Ele chegou a pensar que a beleza é tão poderosa que supera até ciúme de mulher casada, que supera o sentimento de posse, que o belo é irresistível. Quem casasse com a mulher mais bonita do mundo deveria assinar um contrato autorizando – com testemunhas e sob as penas da lei – a contemplação pública.

É claro que existem diversas mulheres mais bonitas do mundo, se não fosse assim a Terra seria um tédio só, mas o fato é que a do Lico estava no prédio dele, não exatamente no apartamento, mas apenas cinco andares abaixo, na copiadora. Ele podia dizer que dividia o prédio com a mulher mais bonita do mundo.

Como sonhos e devaneios atravessam paredes e lajes, o Lico chegou a sonhar que a mulher (dele) trabalhava na copiadora e que a outra é que estava debaixo do edredon. Sim, isso é o antipolitamente correto na veia, em dose cavalar, é um levante dos instintos mais básicos, mas é real, fazer o quê?

O problema é que o tempo passa, a mulher mais bonita do mundo deixou a copiadora. Lico imaginava que algum empresário podia ter sido atendido por ela, e que a tivesse contratado para contracenar com o Brad Pitt num filme romântico, ou então que algum gringo a tivesse pedido em casamento. E daí ele pensava na sina do nosso Brasil, ter suas riquezas arrancadas, sempre, desde Cabral.

Lico adaptava Drummond: o pior é que a mulher mais bonita do mundo foi embora, e não há outra disponível. Na verdade até havia, mas aí é outra história. O fato é que a mulher mais bonita do mundo não estava mais no prédio. Lico também não permaneceu muito tempo por lá, separou-se e foi morar em outro lugar.

Mas um dia, mais precisamente numa sexta-feira, era preciso que fosse numa sexta, Lico pegou um ônibus quase vazio, o que já é um indício importante, e ao apontar no corredor... Lá estava ela sentada: a mulher mais bonita do mundo, sem dúvidas. O que fazer?

Sentar ao lado dela? Contar tudo? Mas o Lico não sabia o nome da moça, o que convenhamos, é irrelevante. O ônibus vazio com os bancos vagos também era só um detalhe, ele pensou em sentar ao lado dela explicando que sempre viajava naquele assento, exatamente naquele. Ela o aceitaria, eles largariam os compromissos para tomar um café, é possível, mas... Mas a coragem passou e o Lico passou e sentou um pouco atrás, até permaneceu um tempinho parado ao lado dela, mas ficar em pé no ônibus vazio seria ridículo.

Sim, era ela, era preciso pensar rápido, agir era preciso. O que falar? Como superar as divisórias da incomunicabilidade? Meter o pé na incomunicabilidade, tocar fogo... Sentar ao lado dela e contar tudo. Não. Era preciso utilizar gracejos, superar a falta de comunicação aos poucos, dizer que a conhecia de algum lugar, talvez de um filme de hollywood em que ela era a mocinha, aquele filme com o Brad Pitt... Qual era mesmo?
           
Então ele levantou, avançou pelo corredor e parou ao lado da moça. Segurou firme no apoio do ônibus,  mostrando o bíceps. Olhou para ela. Era a própria, sem dúvida. O olhar fugídio era o mesmo. Era preciso dizer algo, qualquer coisa, perguntar a hora... Mas as palavras estavam travadas. Lico era só contemplação e silêncio. O tempo passou, o ponto passou, e ele desceu (três paradas depois do correto). Não disse nada. Mas a beleza da moça iluminou toda sua sexta-feira

JC

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O dia em que os porcos nadaram, nadaram e morreram na praia: 1961, Praia Girón, Baía dos Porcos, Cuba.


15 de abril de 1961. Cuba é bombardeada por aviões B-26, são caças cedidos pelos EUA, mas pintados com bandeiras cubanas, um destes pousa em Miami após o ataque. A mídia estadunidense divulga que há um levante da força aérea “de Castro”. O objetivo do ataque era criar uma zona de exclusão aérea (que é como se diz atualmente).  Na prática se tratava de destruir os poucos aviões de combate cubanos (sete ou oito), e assim facilitar a invasão por terra (que é também o mesmo que se faz até hoje).


Cuba exige o fim dos ataques estadunidenses, estes negam qualquer relação com os bombardeios e mostram fotos do “avião cubano” que havia descido em Miami. Os britânicos apóiam os estadunidenses, dizem que “o governo do Reino Unido sabe por experiência que pode confiar na palavra dos Estados Unidos”.


Os bombardeios continuaram. Aeroportos foram atacados. Mas os sete ou oito caças cubanos não foram destruídos. Estavam espalhados e escondidos na ilha, esperando o melhor momento para contra-atacar. Cuba estava preparada para se defender.


16 de abril de 1961, 23:45, mercenários cubanos treinados pela CIA desembarcam em Praia Girón. A primeira linha de defesa cubana são seus recifes naturais. Os grandes barcos invasores são bloqueados, os botes encontram dificuldades. Milicianos revolucionários recebem os mercenários a bala. O terreno e o mar difíceis dificultam o avanço dos invasores. Chegam reforços revolucionários.


Quando o dia nasce, a aviação cubana decola. A estratégia de Fidel é sábia. Primeiro afundar os barcos com os suprimentos do inimigo, depois derrubar seus aviões, para por último derrotar os mercenários em terra.


Dois navios invasores com armas e suprimentos são afundados. Setes caças dos EUA são colocados fora de combate, quatro pilotos estadunidenses morrem.


19 de abril de 1961, pela manhã, o chefe mercenário envia mensagem à CIA dizendo: “Por favor, não nos abandonem”. À tarde a invasão estava liquidada. 1197 mercenários foram capturados.


Os invasores haviam sido treinados na Nicaraguá e na Guatemala por cerca de um ano. O plano da CIA surgiu no governo de Eisenhower (um republicano como Bush), mas foi executado por Kennedy (um democrata como Obama). O que prova que uns e outros faziam e fazem a guerra, inclusive os agraciados com o Nobel da Paz.


O plano da CIA era financiar e apoiar um levante que ocupasse ao menos uma parte da Ilha. Na sequência os golpistas seriam reconhecidos como governo oficial e legítimo, o que possibilitaria o envio de tropas estrangeiras para liquidar definitivamente a revolução do Che, de Fidel e de todo o povo cubano.


Fracassaram os invasores. O povo cubano venceu. A Revolução derrotou os dólares, a CIA e os mercenários. Estava escrito um dos belos capítulos da Revolução Cubana.    
JC

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Convite de suicídio


Companheiros,
considerando os últimos avanços
das ciências filosóficas e literárias,
fica estabelecido que a vida não vale a pena.
“A vida é a mais cruel
das doenças sexualmente transmissíveis.”
Assim sendo,
fica decretado que a vida deve ser abolida.
Caminhemos serenos para gesto definitivo.
Escolhamos a rocha mais alta
e saltemos
(a Golden Gate e a Rio Niterói são boas opções também).
Vamos morrer em série,
estraçalhemo-nos uns aos outros,
uns sobre os outros.
Metaforizemos a existência,
esse monte de carnes e ossos retorcidos.
Um tiro seco também serve.
Esqueçam as meninas
e as cervejinhas
(esses agentes da procrastinação).
Vamos de encontro ao trem,
ou deitemos nos trilhos.
Companheiros, vamos!

Vai indo que eu já vou,
me espera lá!


JC

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Notas da barbárie

Alguém invade uma escola do RJ e dispara contra os estudantes. Chegamos finalmente ao primeiro mundo, pela porta do fundo. Também temos nossos suicidas assassinos.


Na verdade isso não é tão novo assim para nós. Em SP um sujeito já havia invadido e matado três pessoas numa sala de cinema. Em dois dos três bilhetes encontrados no apartamento do atirador, lia-se: “Mídia, realidade, sociedade hipócrita”.

Muito se falou do assassino, das vítimas, do filme... Quase nada se disse da mensagem do bilhete. O que só confirma o quanto a nossa sociedade é hipócrita e caduca.

O primeiro mecanismo de defesa social é a desumanização do assassino, separando-o e diferenciando-o dos demais cidadãos. O fato de que os matadores de SP e do RJ tenham vivido anos entre os "normais" não conta.


Em geral os matadores são figuras à la Dostoiévski, com o agravante de serem criaturas intelectualmente muito inferiores em relação aos personagens do escritor russo. A carta do atirador do RJ é exemplo disso. Mesmo assim, pode-se dizer que os matadores estão menos para Memórias do Subsolo e mais para Crime e Castigo. São seres atormentados que não se contentaram em ver a vida passar entre as quatro paredes de um quarto sujo, resolveram agir e matar.


A pergunta de Rodion Românovitch Raskólhnikov, de Crime e Castigo, é simples e incomoda: o que nos impede de matar? Ele responderia: as leis e a polícia. Raskólhnikov praticou um crime porque achava que não seria descoberto.


Mas se alguém está decidido a se matar, o que impede essa pessoa de assassinar terceiros também? O caso do matador do RJ mostra que a religião não é um freio razoável. O rapaz era religioso e mesmo assim derramou sangue próprio e alheio.


Em última instância se matar é afirmar que o custo de viver é maior que o benefício. Qualquer cidadão pode chegar a esta conclusão. A questão é o que se faz desse ponto em diante, já que não há nada a perder. Muitos optam pelo que se poderia chamar de suicídio anônimo, se matam e ponto. Alguns escolhem um suicídio mesquinho e autoritário. Decidem impor sua decisão de morte a terceiros. É o caso do matador do RJ e dos demais.


A hipocrisia social aparece nas propostas que surgem depois dos massacres: colocar detectores de metal e policiais nas escolas, desarmar a população, impedir a divulgação do nome do assassino na mídia e assim vai. Ora, ora, mas o que gera um suicida assassino? Quais são as circunstâncias que brutalizam e amesquinham um ser a ponto de se chegar a tal extremo de baixeza?


Um matador como o do RJ é alguém que quer devolver uma violência que acha que sofreu. O fato de ter alvejado principalmente meninas é muito significativo. As vítimas são, provavelmente, a imagem das garotas que o assassino desejou na sua época de estudante. Neste sentido o massacre do RJ lembra o de Montreal de 1989, quando um atirador matou 14 meninas em uma universidade, história mostrada no filme Polytechnique.


Enfim. Assassinos como o do RJ são o pus das inflações sociais, não é à toa que são mais comuns nos EUA. Por lá e por aqui outros virão e como raios trarão a morte. São os filhos doentes de uma sociedade que brutaliza e amesquinha. 
JC