quinta-feira, 31 de março de 2011

O crepúsculo do Pedrão

Os tempos mudaram. Não se conquista mais uma mulher com poemas do Vinicius de Morais, nem com o Soneto da fidelidade. “De tudo ao meu amor serei atento”, neste ponto a moça já não está mais atenta a nada, e isso se já não estiver dando atenção para outro. Pedrão sabia bem disso, aprendeu na prática. Recitar seus próprios versos então... Loucura! Tentou uma vez para nunca mais, seu envolvimento com as artes poéticas foi em vão, não atingiu o objetivo esperado.


Infelizmente Pedrão é um homem fora do seu tempo, atrás do seu tempo, apesar de que não suficientemente atrás. Bom mesmo eram os anos dourados das cavernas, sem poemas, sem versos, tudo no tacape e na marra. Mulher se pegava pelos cabelos e pronto (pensava ele, Pedrão, deixemos claro, o cronista não tem nada a ver com isso). Mas Pedrão tinha náuseas só de pensar no que fariam com a sua irmã ou com a Marcinha naquela época. Por outro lado, nas baladas do Paleolítico as meninas não eram como as atuais. Não havia lorotas como dor de cabeça, te vejo apenas como amigo, vim só pra dançar e coisas do tipo.


Se fosse naquela época Pedrão não precisaria se rebaixar a passear em shoppings e a dar opiniões sobre cachecóis. Sim! Sim! E a Marcinha não faria o que faz. Onde já se viu dar esperança e depois escapulir na hora h? Isso poderia até ser carma de outras encarnações, mais precisamente daquelas dos tempos dos homens de Neandertal, quando o Pedrão levava a Marcinha para dentro das cavernas da Europa, no Paleolítico Inferior. Mas para dentro do quarto que é bom! Nada!


Sim, Pedrão acredita que seu amor pela Marcinha data da época das cavernas e de outras encarnações. Mas ele não conseguia se adaptar às novas regras, e vivia sob o peso de ter seus caracteres hereditários riscados do mapa genético da humanidade pela seleção natural.


Tudo que ele havia visto nos filmes de faroeste estava também superado, as garotas não se atraíam pelos mais valentes, infelizmente. É triste, mas é real. Hoje em dia valentia não é a solução, ser um Clint Eastwood dos trópicos não resolve nada, pelo contrário, até atrapalha, e muito!


Seus versos? Talvez eles até tivessem espaço nos anos de João Gilberto e da Bossa Nova, naqueles calçadões iluminados de Copacabana. Mas estes são tempos de funk e de axé music, o que incomoda até o Neandertal que há no Pedrão. Desgraçadamente ele estava estacionado (na escala evolutiva) em algum ponto entre homem de Cro-Magnon e o Vinicius de Morais, numa posição geneticamente muito distante e incompatível com as mutações da pós-modernidade, especialmente com as mulheres fruta: melancia, jaca etc.


Mulher mesmo era só a sua mãe! Que criou seus irmãos e só conheceu seu pai. O resto não é a mesma coisa. É por isso que sua irmã só ia para as baladas se fosse com ele, e se insistisse muito. Afinal, esses ambientes não são para damas de respeito, alguma vigilância e alguma proteção são indispensáveis. Não é nesses ambientes que o Pedrão espera encontrar a Marcinha, até porque seria impossível proteger sua irmã e a Marcinha ao mesmo tempo.


Era preciso mais romantismo e mais agilidade, mais concisão, mais objetividade. Mas não em excesso, essa história de já chegar chegando também não resolvia. Se não imagine só: nas bodas de prata ou nas de brilhante (pior ainda) alguém pergunta para o Pedrão como ele conquistou a Marcinha, ao que ele dispara um já cheguei beijando.  


Não dá! Não cairia bem! Além disso, lá no fundo Pedrão é um romântico, não chegaria a dar um buquê de flores e um cartão com versos do Vinicius de Morais, mas não por falta de vontade. O ideal seria conquistar dessa forma a Marcinha, que é com quem ele pretende comemorar as bodas. Apesar que a secura dos tempos fazia com que o Pedrão considerasse a possibilidade de abrir mão da Marcinha nesta encarnação.  Se pelo menos aparecesse alguma outra gatinha... Não aparecia nenhuma.


Por falar nesta encarnação, onde estaria a Marcinha? Só faltava estar de papo com aquele Office Boy que comeu todo o departamento, ou então com Gerente de RH que também não fica atrás. Eles que não fizessem nenhum mal para a Marcinha, se não... se não... 


Pedrão pensava no que eles diriam para a Marcinha. E pior ainda, onde eles a levariam e o que fariam com ela?  Pedrão queria reagir, não podia ficar à mercê dos mais adaptados à evolução natural, social e amorosa, até porque algum desses poderia arrebatar o coração da sua amada. Era preciso fazer isso antes que alguém fizesse, especialmente o Office Boy ou o Gerente de RH. Pedrão só queria uma chance de provar que era mais homem que eles e que qualquer um, fosse como fosse, no tapa ou no tacape. Mas a chance não surgiu.


Pedrão é um estranho no ninho, ou melhor, na cesta de frutas das mulheres fruta. Não lhe restou outra opção, recorreu a um site de relacionamentos. Toda coragem, toda macheza, toda virilidade reduzidas a uma pequena foto pessoal. Seu melhor verso virou frase de apresentação, mas infelizmente ainda não despertou o interesse das moças.
JC

segunda-feira, 28 de março de 2011

ESCOLINHA SANTA TERESINHA

subversão no prezinho
era espiar a calcinha
da tia Cotinha




sexta-feira, 25 de março de 2011

Líbia: a aurora do neocolonialismo


Como mostrou Aldous Huxley, a manipulação está menos numa mentira contada e mais numa verdade omitida. Exatamente como no caso da Líbia. Exemplificando: Kadafi é um ditador? Sim. Os países imperialistas estão bombardeando a Líbia para proteger civis? Não. Seus interesses são outros. Está é a verdade omitida. O objetivo principal da OTAN é destruir as forças de Kadafi para abrir caminho para os “rebeldes” ¹.
Nos seis primeiros dias as bombas de democracia do ocidente já ceifaram a vida de 100 civis. O correspondente da Telesur em Trípoli relatou o enterro de 31 cidadãos líbios, incluindo 10 crianças. A pergunta que se coloca é: quem vai proteger a população líbia das bombas imperialista?
        Outras perguntas surgem de imediato. Será imposta uma zona de exclusão aérea sobre Israel? Os imperialistas derrubarão também os ditadores que lhes são úteis? Mais do que isso. Que tribunal internacional julgará os crimes de Guantánamo?
        Quando a Itália invadiu a Líbia em 1911, o argumento era a utilidade (para a Itália) de ocupar e civilizar nômades e selvagens. Exatos cem anos depois, mudaram-se os argumentos mas não os interesses. A própria Itália está de volta ao palco da guerra, três anos depois de pagar aos líbios uma indenização por seus crimes coloniais do início do século XX.
        Todo poderio bélico imperialista foi mobilizado para garantir seus interesses na Líbia. Primeiro fortaleceram os “rebeldes”. Sabe-se que a Frente Nacional para Libertação da Líbia, que teve importante papel no início do levante, é uma organização financiada pela CIA. Depois os batalhões midiáticos assumiram a dianteira e abriram caminho para os caças e bombas.
        Que Kadafi é capaz de reprimir seu povo ninguém duvida. Mas também não se deve duvidar das mentiras da mídia imperialista. Basta lembrar da ficção das “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein. A história dirá se os ataques de Kadafi contra civis são verídicos ou não. Mas há boa razões para duvidar que sejam reais. Militares russos que monitoram o conflito por satélite negaram que tenha havido qualquer bombardeio, essa informação quase não foi divulgada. Por quê? Além disso, é pouco provável que a mídia imperialista e sensacionalista não produziria imagens dos tais ataques, dos corpos e por aí vai. Inclusive porque há correspondentes acompanhando os “rebeldes”. As fontes da mídia imperialista são militares e políticos dos países invasores, o que anula qualquer credibilidade. O mais provável é que as mortes tenham ocorrido nos combates de forças do estado contra os “rebeldes”. Mas, enfim, a história dirá.
        O fato é que as potências imperialistas se aproveitaram da oportunidade que surgiu e que ajudaram a forjar. Muito se falou e se fala do interesse pelo petróleo da Líbia, e certamente este é um dos principais motivos para derrubar Kadafi. Mas há outro. Os levantes árabes surpreenderam o mundo, os imperialistas inclusive, ditadores pró-ocidente ou caíram ou estão se apoiando como podem. Apesar da institucionalidade burguesa e pró-ocidental não ter sido rompida, ainda não é possível prever quais serão os desdobramentos futuros dos levantes árabes. Neste sentido é fundamental que os EUA e aliados estabeleçam governos entreguistas. A Líbia é estratégica porque está entre Tunísia e Egito, dois países com situações políticas indefinidas até o momento. Por isso torna-se fundamental derrubar Kadafi e substituí-lo por um governo submisso, garantindo um porto seguro e impedindo que os ventos revolucionários externos ameacem fazer renascer o Kadafi anti-imperialista.
        Está claro que o objetivo principal da OTAN é derrubar Kadafi. Mas outros pontos são mais difíceis de mensurar neste momento. Inclusive porque a mídia deliberadamente esconde tudo que não lhe interessa. A questão é: qual o apoio popular real de Kadafi? A população que o apóia vai resistir? As bombas da liberdade imperialistas continuarão caindo sobre a população pró-Kadafi? A história mostra que os imperialistas podem derrotar forças regulares com relativa facilidade, já guerras populares e de guerrilhas são mais complicadas.     
        A Líbia de hoje é o Iraque de ontem. Mas com uma perigosa diferença, antes do Iraque ser invadido em 2003, vinte milhões de pessoas saíram simultaneamente pelas ruas do mundo para tentar barrar a agressão militar. Fracassamos. Já os protestos contra o bombardeio da Líbia ainda são tímidos, o que mostra que o imperialismo aperfeiçoou sua propaganda ideológica. A substituição da truculência de um Bush pela desfaçatez de um Obama certamente ajudou.
        É preciso combater e parar a máquina de guerra imperialista. Se vitoriosos na Líbia, os imperialistas se fortalecerão e abrirão novos campos de batalha. O precedente é assustador. Os batalhões midiáticos já se mobilizam contra outros países. O Irã é a bola da vez.
        Enfim, denunciar o imperialismo não é defender Kadafi, é um imperativo revolucionário. É preciso parar as bombas da OTAN: pela aurora de pólvora que se insinua e pelo sangue dos líbios que escorre.  


1) A palavra rebelde está entre aspas porque empregá-la para definir grupos apoiados pela OTAN significaria esvaziar seu significado.


JC



terça-feira, 22 de março de 2011

Sobre bombas, generais e presidentes

Um burguês é sempre um burguês: explora e lucra. Um estado é sempre um estado: oprime e submete. Uma bomba é sempre uma bomba: decepa e mutila. Um fuzil é sempre um fuzil: dispara e cala. Um tanque é sempre um tanque: atropela e esmaga. Um caça é sempre assassino: atira e se retira. Mas a bomba que mais mutila, mas o fuzil que mais cala, mas o tanque que mais esmaga, mas o caça que mais assassina... São todos dos Estados Unidos da América. Um general dos EUA é sempre um covarde: lança um míssil sentado na poltrona, a mil quilômetros do alvo. Um presidente dos EUA, pode ser negro ou não, republicano ou não, mas não pode deixar fazer a guerra. Presidentes, generais e bombas dos Estados Unidos servem para fazer lucrar burgueses dos Estados Unidos. Democracia, nos Estados Unidos, leva um c de cifrão. E fede petróleo.

JC

terça-feira, 15 de março de 2011

Melhor idade

Vamos, Júlio César, reaja.
Chega de pessimismo.
Você ainda tem tempo.
Encontre o meio termo.
Evite o álcool.
Se alimente melhor.
Pratique esportes.
Que tal dança de salão?
Ou terapia de casais?
A vida é maravilhosa,
agradeça ao Senhor,
ele sabe o que faz.
Esqueça o amor perdido,
bola pra frente.
Esqueça os amigos que se foram,
foi a vontade de Deus.
Esqueça o apetite sexual não satisfeito,
canalize suas forças para o mercado de trabalho.
Aceite as pedras no rim
e as dores nas costas.
Você não é mais garoto.
As olheiras e rugas,
bolhas e calos,
a queda de cabelos...
Aceite tudo isso.
Maturidade, Júlio César,
é assim mesmo.
Alegre-se no trabalho,
derrote o tédio.
Tenha atitude,
seja determinado
(você precisa se ajudar).
Que importa a insônia?
A cefaléia? A enxaqueca?
A alergia?
Júlio César, sorria!
Deus te ama, meu filho!

JC

quinta-feira, 10 de março de 2011

Terry Eagleton - Ideologia

A religião, na opinião de Freud, cumpre o papel de reconciliar os homens e as mulheres com as renúncias instintuais que a civilização lhes impõe. Para compensar tais sacrifícios, ela imbui de significado um mundo cruel e sem propósito. Assim, pode-se afirmar, trata-se do próprio paradigma da ideologia, provendo uma solução imaginária para contradições reais, e, se não o fizesse, os indivíduos poderiam muito bem rebelar-se contra uma forma de civilização que exige tanto deles. Em “O futuro de uma ilusão”, Freud contempla a possibilidade de que a religião seja um mito socialmente necessário, um meio indispensável de refrear o descontentamento político; mas considera essa possibilidade apenas para rejeitá-la. Na mais honrosa tradição iluminista, e a despeito de todo o seu temor elitista diante das massas insensatas, Freud não consegue aceitar que a mistificação seja uma condição eterna da humanidade. A idéia de que uma minoria de filósofos como ele possa reconhecer a verdade sem vernizes enquanto a massa de homens e mulheres deve continuar a ser vítima da ilusão é ofensiva para seu humanismo racional. Seja qual for o bom propósito histórico que a religião possa ter servido na evolução “primitiva” da raça, é tempo de substituir esse mito pela “operação racional do intelecto” ou pelo que Freud denomina “educação na realidade”. Como Cramsci, sustenta que a visão de mundo secularizada, desmitiíicada que tem sido até agora o monopólio dos intelectuais deve ser disseminada como o “senso comum” da humanidade como um todo.

Terry Eagleton - Ideologia

A filosofia de Hegel representa uma última trincheira, um esforço de última hora para redimir o mundo pela Razão, contrapondo severamente sua face diante de todo mero intuicionismo; mas o que em Hegel é o princípio, Idéia ou Razão, ao exibir seu majestoso progresso ao longo da história, tornou-se em Schopenhauer a Vontade cega, voraz — a ânsia implacável que está no âmago de todos os fenômenos. O intelecto para Schopenhauer é apenas um servo bruto e vacilante dessa força implacável, falseado por ela, uma faculdade inerentemente deformadora que acredita pateticamente apresentar as coisas como realmente são. O que para Marx e Engels é uma condição social específica, na qual as idéias obscurecem a verdadeira natureza das coisas, é generalizada em Schopenhauer para a estrutura da mente como tal. E, de um ponto de vista marxista, nada poderia ser mais ideológico que essa visão de que todo pensamento é ideológico. É como se Schopenhauer em O mundo como vontade e representação (1819) fizesse e exatamente o que descreve fazer o intelecto: oferece como verdade objetiva a respeito da realidade o que é a perspectiva partidária de uma sociedade cada vez mais governada pelo interesse e pelo apetite. A cobiça, a maldade e a agressividade do mercado burguês são agora simplesmente como a humanidade é, mistificada por uma Vontade metafísica.

sábado, 5 de março de 2011

Pulsação



Edvard Munch: O Grito (1893)
No peito a pontada.
No ser o estampido.
No coração a vala.
No passado o fosso.
No nervo a agulha.
No querer o bloqueio.
No futuro a torção.
No jardim o asfalto.
No sonho a queda.

Na mão o corte.
Na boca a secura.
Na infância o trauma.
Na manhã a aflição.
Na carne o espinho.

Depois do tédio a náusea.
Depois do sono o aperto.
Depois do tranco a ânsia.
Depois do depois o mesmo.


JC

quinta-feira, 3 de março de 2011

Líbia: as piruetas da história

"A Líbia bombardeada, a libido e o vírus. O poder, o pudor, os lábios e o batom."


Sempre "os ianques com seus tanques" e sem nenhum pudor. Desta vez é a Líbia que está na mira do fuzil imperialista. Depois do usual desbravamento midiático, lá vão os marines.
 
O primeiro procedimento de guerra midiática foi igualar Kadafi a Mubarak entre outros. Ainda que para isso fosse preciso esconder o passado antiimperialista do primeiro, sua forte ligação com Nasser e por aí vai. Kadafi derrubou a monarquia líbia em 1969, a partir de então tentou promover a unidade árabe e a destruição do Estado de Israel, inclusive enfrentando os EUA. Apoiou o Movimento Negro Estadunidense, o IRA Irlandês e a Resistência Palestina. Nos países árabes fortaleceu a contestação aos governos que considerava pró-Israel e pró-EUA.

No plano interno Kadafi utilizou-se das receitas do petróleo para promover melhoras para a população líbia. A renda per capita cresceu consideravelmente, hoje é uma das maiores da região. A agricultura se desenvolveu. Mas, ao mesmo tempo, aplicaram-se severas regras morais, proibindo o álcool entre outras coisas. Começou a haver um choque entre o padrão de comportamento imposto e a melhora das condições de vida da população, nos momentos de crise o regime não hesitou em se valer da repressão para fazer a balança pender para o seu lado.

A revolta atual é fruto das contradições internas e do desgaste do governo potencializados pela crise econômica mundial. Kadafi começou assinar seu atestado de óbito quando promoveu uma guinada para o neoliberalismo a partir de 2003, privatizando empresas e abrindo a economia do país. Neste sentido, o levante popular na Líbia tem relação com os de outros países árabes, ainda que não sejam iguais. E, que fique claro, são todos legítimos. Lutam contra governos despóticos, corruptos e vendidos, como o líbio. Se promoverão mais do mesmo no futuro só tempo dirá.

Kadafi fala em distribuir armas ao povo e resistir, mas seu discurso também deve ser entendido como peça de propaganda. Se tivesse respaldo popular para tanto não seria preciso recorrer a mercenários estrangeiros.

Na Líbia o levante ganhou força com a adesão de setores das forças armadas, mas, por outro lado, não houve grandes manifestações populares como no Egito. Até este momento não se produziu uma Praça Tahir em solo líbio. E também não foram noticiadas greves e paralisações. O levante parece ser mais militar do que popular. Além disso, como lembrou Miguel Urbano Rodrigues, uma organização financiada pela CIA (Frente Nacional para Libertação da Líbia) teve um papel importante no início da revolta.  

A bandeira do antigo regime líbio (monarquista) empunhada pelos rebeldes é uma faca que corta dos dois lados. Ao mesmo tempo que é anti-Kadafi é também reacionária, expressa a despolitização do movimento. De qualquer forma, não existe meia autoderminação dos povos. Se essa é a posição do movimento, é legítima. Apesar de ser extremamente contraditório que num momento em que se luta por liberdade surjam bandeiras ligadas à monarquia.

Apesar das tecnologias da informação e das redes sociais não apareceram fotos e imagens de grandes concentrações populares, pelo menos nada parecido com o que se viu em outros países. Também não apareceram imagens e provas dos massacres de civis supostamente cometidos por forças de Kadafi, mesmo que ‘tenham sido praticados” em solo agora controlado pelos rebeldes. O mais provável é que os tais “massacres” sejam na verdade confrontos entre militares desertores e as forças fieis ao regime.

A moral dos EUA e da mídia pró-ianque é dupla, condenam os “bombardeios” de Kadafi sobre os líbios e propõe jogar suas bombas sobre o mesmos. Ou alguém acredita que o fechamento do espaço aéreo e os mísseis da Otan só atingirão radares e bases militares? Pau que bate em Chico passa longe de Francisco. Os bombardeios estadunidenses são sempre para levar a “liberdade” e a “democracia”, inclusive quando explodem crianças iraquianas, afegãs ou líbias (em 1986 assassinaram uma filha de Kadafi). Por uma manobra semelhante, Israel está sempre autorizado a despejar chumbo sobre palestinos. Quando a força aérea colombiana ataca e mata guerrilheiros e quem mais estiver perto não há nenhum problema também. À medida que o tempo passa e as provas não aparecem, vai ficando cada vez mais possível que os supostos massacres de Kadafi sejam muito mais uma peça forjada para acusação e justificação de uma invasão imperialista, como o foram as “armas de destruição em massa” de Saddan Hussein.

A história é sinuosa e serpenteia. O mesmo movimento dos povos árabes que se levantam para derrubar lideranças pró-EUA, deverá vitimar também Kadafi, que inicialmente lutou contra o imperialismo ianque. A tendência é que os EUA tentem garantir um porto seguro implantando um governo títere na Líbia, é uma forma de compensar a perda do aliado Mubarak, além é claro da apropriação do petróleo. Não é à toa que o levante é mais forte perto das regiões petrolíferas.

Todo o caráter progressista do levante líbio tende a ser anulado com a possível intervenção imperialista, que fortaleceria os setores mais reacionários e direcionaria o movimento. A presença de tropas de elite estrangeiras treinando os revoltosos sinaliza o início da derrota do movimento, a aceitação da criação da zona de exclusão aérea será rendição final ao imperialismo, principalmente estadunidense. É sintomático que a maioria dos porta-vozes rebeldes sejam militares desertores, isso vai mostrando o caráter que a revolta está aquirindo, mais de golpe militar do que de insurreição popular.

Por outro lado, a possível intervenção militar direta pode conferir uma sobrevida a Kadafi, já que tende a unificar a Líbia e os árabes contra o inimigo comum. Curiosamente Kadafi conseguiria no auge de sua decadência o que não conseguiu no auge de seu poder: a unificação árabe contra os EUA.

Situações limite como a que vive a Líbia dificultam as tomadas de posição porque tendem a produzir uma falsa dicotomia, ou se está com Kadafi e contra o imperialismo, ou o contrário. Mas as coisas não são tão simples, nem o Kadafi atual é o dos anos 1970 e nem o imperialismo está totalmente unificado. Os EUA são o único país com real capacidade de intervenção militar na Líbia, mas não são os únicos com interesses comerciais por lá. A Líbia tem acordos econômicos com Itália, França e Inglaterra. As empresas destas podem ser prejudicadas com a invasão ianque.

Esta não é a primeira vez que se tenta derrubar Kadafi ou matá-lo. A CIA e os EUA já se valeram desse recurso em outros momentos e falharam. Esta é a oportunidade de ouro para os imperialistas.

No meio do bombardeio dos meios de comunicação pró-EUA é difícil levantar bandeiras. Mas uma coisa é certa: ruim com Kadafi pior com os EUA. O Iraque que o diga. O movimento popular líbio, se for sincero e revolucionário, têm dois inimigos pela frente, um em seu bunker em Trípoli e outro muito mais perigoso chegando pelo mar com suas fragatas e porta-aviões.   


JC

quarta-feira, 2 de março de 2011

Miguel Urbano Rodrigues - Líbia: o que os media escondem

Transcorridas duas semanas das primeiras manifestações em Benghazi e Tripoli, a campanha de desinformação sobre a Líbia semeia a confusão no mundo.

Antes de mais uma certeza: as analogias com os acontecimentos da Tunísia e do Egipto são descabidas. Essas rebeliões contribuíram, obviamente, para despoletar os protestos nas ruas do país vizinho de ambos, mas o processo líbio apresenta características peculiares, inseparáveis da estratégia conspirativa do imperialismo e daquilo que se pode definir como a metamorfose do líder.

Muamar Kadhafi, ao contrário de Ben Ali e de Hosni Mubarak, assumiu uma posição anti-imperialista quando tomou o poder em 1969. Aboliu uma monarquia fantoche e praticou durante décadas uma politica de independência iniciada com a nacionalização do petróleo. As suas excentricidades e o fanatismo religioso não impediram uma estratégia que promoveu o desenvolvimento económico e reduziu desigualdades sociais chocantes. A Líbia aliou-se a países e movimentos que combatiam o imperialismo e o sionismo. Kadhafi fundou universidades e industrias, uma agricultura florescente surgiu das areias do deserto, centenas de milhares de cidadãos tiveram pela primeira vez direito a alojamentos dignos.

O bombardeamento de Tripoli e Benghazi em l986 pela USAF demonstrou que Regan, na Casa Branca identificava no líder líbio um inimigo a abater. Ao país foram aplicadas sanções pesadas.

A partir da II Guerra do Golfo, Kadhafi deu uma guinada de 180 graus. Submeteu-se a exigências do FMI, privatizou dezenas de empresas e abriu o país às grandes petrolíferas internacionais. A corrupção e o nepotismo criaram raízes na Líbia.

Washington passou a ver em Kadhafi um dirigente dialogante. Foi recebido na Europa com honras especiais; assinou contratos fabulosos com os governos de Sarkozy, Berlusconi e Brown. Mas quando o aumento de preços nas grandes cidades líbias provocou uma vaga de descontentamento, o imperialismo aproveitou a oportunidade. Concluiu que chegara o momento de se livrar de Kadhafi, um líder sempre incómodo.

As rebeliões da Tunísia e do Egipto, os protestos no Bahrein e no Iémen criaram condições muito favoráveis às primeiras manifestações na Líbia. Não foi por acaso que Benghasi surgiu como o pólo da rebelião. É na Cirenaica que operam as principais transnacionais petrolíferas; ali se localizam os terminais dos oleodutos e dos gasodutos.

A brutal repressão desencadeada por Kadhafi após os primeiros protestos populares contribuiu para que estes se ampliassem, sobretudo em Benghazi. Sabe-se hoje que nessas manifestações desempenhou um papel importante a chamada Frente Nacional para a Salvação da Líbia, organização financiada pela CIA. É esclarecedor que naquela cidade tenham surgido rapidamente nas ruas a antiga bandeira da monarquia e retratos do falecido rei Idris, o chefe tribal Senussi coroado pela Inglaterra após a expulsão dos italianos. Apareceu até um «príncipe» Senussi a dar entrevistas.

A solidariedade dos grandes media dos EUA e da União Europeia com a rebelião do povo da Líbia é, porem, obviamente hipócrita. O Wall Street Journal, porta-voz da grande Finança mundial, não hesitou em sugerir em editorial (23 de Fevereiro) que os EUA e a Europa deveriam ajudar os líbios a derrubar o regime de Kadhafi.»

Obama, na expectativa, manteve silêncio sobre a Líbia durante seis dias; no sétimo condenou a violência, pediu sanções. Seguiu-se a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e o esperado pacote de sanções.

Alguns dirigentes progressistas latino americanos admitiram como iminente uma intervenção militar da NATO. Tal iniciativa, perigosa e estúpida , produziria efeito negativo no mundo árabe, reforçando o sentimento anti-imperialista latente nas massas. E seria militarmente desnecessária porque o regime líbio aparentemente agoniza.

Kadhafi, ao promover uma repressão violenta, recorrendo inclusive a mercenários tchadianos (estrangeiros que nem sequer falam árabe), contribuiu para ampliar a campanha dos grandes media internacionais que projecta como heróis os organizadores da rebelião enquanto ele é apresentado como um assassino e um paranóico.

Os últimos discursos do líder líbio, irresponsáveis e agressivos, foram alias habilmente utilizados pelos media para o desacreditar e estimular a renúncia de ministros e diplomatas, distanciando Kadhafi cada vez mais do povo que durante décadas o respeitou e admirou.

Nestes dias é imprevisível o amanhã da Líbia, o terceiro produtor de petróleo da África, um país cujas riquezas são já amplamente controladas pelo imperialismo.

Vila Nova de Gaia, 28 de Fevereiro


Extraído do endereço eletrônico http://www.odiario.info/

terça-feira, 1 de março de 2011

Maquinário



O corpo cansado,
o pensamento vago.
Entre eternos minutos,
rompeu-se o silêncio.
Um homem, por segundos,
parou a máquina:
esmagado nas engrenagens.


JC