segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

CONTINGÊNCIA DO PAULISTANO
para Carlos Drummond de Andrade

Oitenta por cento de borracha no chão.
Noventa por cento de fumaça no ar.
Cem por cento de concreto no cidadão.

Cimento sobre os córregos,
carros sobre avenidas,
viadutos sobre todos os outros
e gente abaixo destes.

No meio do caminho tinha um corpo,
tinha um corpo no meio do caminho.
Mas o homem atrás do terno passa apressado,
nem ligando.

É preciso abrir caminho,
a locomotiva vai passar,
precisa passar,
o carro precisa passar,
o edifício precisa subir.
São Paulo não pode parar.

Helicópteros entre as construções.
Gente entre carros.
Carros entre carros
(uma pessoa em cada carro)

Meu Deus! Pra que tanto carro?





Um comentário:

  1. vejo muito do drummond em vc, talvez até por tb ser grande fã da obra desse grande poeta, se bem que acho dificil alguem não o ser. Nesse poema é nitido a identidade que há com relação ao mineiro de Itabira, ele com sua confidencia do Itabirano e vc com sua Contingencia do paulistano.

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