sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Contra-rebate

Caro amigo JC

Antes os conceitos correntes de nossos debates eram ‘mais-valia’ e ‘taxa de lucro’ porque não discutíamos as premissas gerais, procedimento elementar. Normal, visto que nossa vontade de mudar a vida era maior que a vontade de pensar nas contingências. E talvez nem seja mais ou menos certo mudar essa ordem, visto que a anteposição de uma e outra diz mais sobre nós do que nós mesmos. O Pessoa disse num poema que toda a metafísica era uma conseqüência de se acordar mal disposto. A metafísica dos costumes.

Pensamentos que chegam no “ser ou não ser” têm mesmo como pré-condição a independência de qualquer forma de compromisso consciente com qualquer coisa. E se é legítima e pertinente a dúvida, se é ela também uma contingência, não há como ser de outra forma. A exigência de compromisso ético e engajamento é a moral secular que ocupa o trono de Cristo como redentor do pecado original. Mudam-se os deuses mas a moral e o mecanismo da chantagem são os mesmos. É o caso de se imaginar, em nossa vã filosofia, se a morte de Deus pode resultar em algum grau de liberdade para o homem.

Eu penso que é sempre preciso que superemos o esquema maniqueísta de ver as coisas, ainda que o “esquema maniqueísta de ver as coisas” não signifique a mesma coisa que perceber o maniqueísmo de fato.

O MANIQUEÍSMO COMO CHARME E APELO KITSH

Você começa afirmando, ou melhor, reafirmando a idéia do fechamento de seu primeiro texto sobre o livro, de que “o livro de Kundera é muito mais do que uma simples crítica ao socialismo degenerado (nota minha: que outros chamariam de ‘real’), trata-se de um embate contra o acordo categórico com o ser, que é o ideal estético-filosófico da direita”.

Quando eu elaborei meu comentário sobre esse primeiro texto eu usei algumas vezes esse conceito, acordo categórico com o ser, para designar uma relação de acordo do ser com a ordem determinada, seja ela qual for, e que afirmo ser a mesma definição de Kundera. Ele não especifica ou limita o conceito a uma questão apenas teológica e/ou de direita (a partir da criação, no Gênesis), como fica claro nesta passagem: “Por trás de todas as crenças européias, sejam religiosas ou políticas, está o primeiro capítulo do Gênese, a ensinar que o mundo foi criado como devia ser, que o ser humano é bom e que, portanto, deve procriar. Chamemos essa crença fundamental de acordo categórico com o ser”.

O conceito está presente em todas as crenças européias, como ele afirma, sejam religiosas ou políticas. Portanto, o acordo categórico com o ser é de amplo uso e manipulação política, e como tal não se filia ideologicamente e nem se resume a um ideal-estético-filosófico exclusivo da direita . E a questão teológica é apenas o arcabouço geral de toda a idéia, um esboço. Portanto me utilizei do conceito tal como o próprio Kundera o define e utiliza.

Creio que ao atribuir essa postura de Kundera a um comportamento única e exclusivamente de “direita” é participar do conceito que ele mesmo dá de Kitsh. Porque é que não se pode fazer essa crítica à esquerda sem ser de direita? Porque ela, a crítica, é radical demais e quase não permite uma fuga honesta? Segue-se que o acordo categórico com o ser tem por ideal um mundo no qual a merda é negada e no qual cada um de nós se comporta como se ela não existisse. Esse ideal estético se chama kitsch. Pois o Kitsh afasta de seu horizonte de visão tudo o que é problemático e indesejável para a harmonia de seu mundo.

Se a direita faz uso dessa crítica (e é ela mesma o próprio Kitsh universal, já que é a própria situação) é essa uma outra questão, não se pode responder a uma questão assim apenas afirmando que a crítica é de direita, com a gravidade de se saber que esse ideal estético está presente na história de todo o século XX até hoje. Foge-se do problema, protege-o com a máscara do Kitsh ao invés de encará-lo. É como se, ao ouvirmos do assassino da própria mãe a acusação de que o agente da lei que o prendeu também participou do crime para tirar vantagens, mandássemos executá-lo (o assassino) imediatamente sem dar qualquer ouvido a acusação. Por decreto o sujeito, que transpôs a fronteira do Kitsh ao invadir o domínio da lei, torna-se metafisicamente incapaz de dizer a verdade. É uma postura perigosa, digna somente sob totalitarismos bizarros. Basta lembrar, como em Kundera, que os agentes do estado Tcheco se esquivaram de acusações semelhantes afirmando que não sabiam do que acontecia, se isentando assim de qualquer responsabilidade. E talvez não fossem mesmo os assassinos, porém o que garantiu que tais fatos ocorressem foi justamente a postura de negar o universo Kitsh que eles próprios criaram, mas segundo se acreditava esse era um ideal exclusivo da direita.

Aliás, o Sr. mesmo afirma em teu primeiro texto o seguinte: “o acordo categórico com o ser é o arranjo estético-filosófico das épocas reacionárias. A República tcheca de Tomas e Sabina vivia sob o tacão do stalinismo e do acordo categórico com o ser”. Não entremos em discussões mais profundas sobre a natureza desses regimes, mas está claro que o kitsh é um fenômeno geral, próprio das religiões, partidos, das multidões e das maiorias silenciosas?

Não afirmo, como Kundera, que a fraternidade entre todos os homens não poderá nunca ter outra base senão o Kitsh, mas creio que essa é uma grande pedra no meio do caminho. Com isso não acho sua generalização absurda, para mim até grandes homens padecem e nada, absolutamente, está acima da crítica. Se sua vontade de ruptura com o acordo categórico com o ser os faz mais homens que autômatos do mercado, seus limites, seus erros, sua vontade que ofusca, também os faz homens naquela dimensão em que se completam. É imperioso afastar de nós o esquema maniqueísta se o que se quer é encontrar o homem para libertá-lo.

A RUPTURA DO HOMEM E DO DESEJO

Se alguém puder dizer que os ditos regimes de esquerda, especificamente os do leste europeu, tinham de poder popular meras aparências, no fundo um grande Kitsh mascarando canalhas que serviram a outros interesses, tratar o fenômeno Kitsh como “mito insensato” corre o risco de ser uma insensatez irremissível. Por isso creio que não analisou de forma mais pormenorizada a observação de Kundera.

A mais recente manifestação do fenômeno Kitsh acaba de ocorrer sob os nossos olhos. A morte do ditador da Coréia do Norte, Kim Jung-Il, causou uma catarse coletiva que o estado norte-coreano insistiu em apresentar como se um verdadeiro Tsunami tivesse varrido o país. Não tem a mínima importância, para o Kitsh, se trata-se de uma comoção verdadeira, mas coerente produto do culto à personalidade, ou comoção coagida ou espontânea. Em todos os casos é a tragicomédia do Kitsh.

Não são os posicionamentos políticos propriamente que Kundera (des)qualifica como Kitsh, mas a forma política, a organização. Esses não derivam do Kitsh, mas o criam como conseqüência da organização política. Portanto o argumento de Kundera, como tal, é a revelação e denúncia do fenômeno Kitsh, não permite que em torno de si se crie e se gravite manifestações festivas com bandeiras de auto-denúncia, seria patético e nessa condição não haveria sequer embrião de tamanha bizarrice. Creio ser por essa razão que não entendeu como é possível que os revolucionários insistam em mudar o mundo (e eu não me oponho a que eles o mudem, desde que mudem mesmo). Das duas questões que coloca para entender o fenômeno do acordo categórico com o ser (o mundo não foi criado como deveria ser?, o homem não é bom e deve procriar?), creio que a esquerda, ainda que possa achar que o ser humano não é essencialmente bom (mas que pode redimi-lo), concorde em princípio com a segunda, e assim se insinua um novo acordo. Por essa razão eu sugiro que há, de qualquer maneira, outra espécie de acordo categórico com o ser. Não é fenômeno exclusivo da direita. Por isso acho ainda mais grave acusar Kundera de promover a despolitização quando é precisamente o esforço contrário o que ele emprega. Fica perceptível, dessa forma, a idéia, instrumentalizada, que você faz de ‘politização’. Essa concepção é amplamente Kitsh. Joga para fora de suas bordas um grave problema apresentado para manter apenas o que cabe sem manchar a beleza impecável da “Grande Marcha”. Alguns teóricos pós-modernos criaram o conceito do homem como ‘máquina desejante’, e eu acho que o homem sempre está onde seu desejo não está. Queremos encontrar o homem? A pista ideal é sempre procurar ao inverso do seu desejo, quase sempre o veremos tal como é. Não é novo esse desencontro do homem e seu desejo. Como canta Caetano, “estive no fundo de cada vontade encoberta, e a coisa mais certa de todas as coisas não vale um caminho sob o sol”.

O PESO DE DEUS

De certo que não há possibilidade de mantermos independência absoluta diante da vida, eu concordo com você. Nem a indiferença de Mersault, esse errante estrangeiro da vida a quem deu vida Camus, consegue ser de uma indiferença total. É famosa a passagem em que ele, ao disputar o descanso sob a sombra de uma árvore com um cidadão árabe, o mata. O motivo é fútil e não é, é indiferença mas também não é. Estamos sempre fazendo escolhas, da reflexão mais profunda às trivialidades mais cotidianas. Mesmo quando se argumenta parte-se de algum mínimo conjunto de valores que embasam nosso discurso. Mas quando me oponho a sua exigência de engajamento, ao perguntar se Kundera pode levitar livremente sobre o muro que separa a esquerda da direita, é porque é preciso saber, antes de mais nada, que tudo tem um preço, cada escolha cobra algum tipo de conseqüência. Se tudo tem um preço, não há possibilidade de qualquer tipo de escolha ser vazia ou oca de sentido, esse é subseqüente e se encontra no preço pago, abrimos mão do que poderia ter sido e acatamos o que daí resultar. Para cada escolha que se faz é necessário abrir mão de tantas outras. Posso concordar com a máxima marxista de que a luta de classes é o motor da história e que o mundo se movimenta sobre essa dinâmica geral. Isso significa que eu, você e toda criatura humana do planeta, do agir na vida banal à vida de ação politicamente organizada, necessariamente nos enquadramos em determinado pólo dos valores políticos, esquerda ou direita. Ocorre que eu e você obrigatoriamente nos situamos ‘de cara’ numa delas sem possibilidade de escolha, pois surgimos para a vida em meio ao conflito deflagrado. Pois bem, essa coisa a que chamam ‘livre-arbítrio’ não significou absolutamente nada pois primeiramente é necessário viver. Só que para além dessa fatalidade da qual não escapamos, sei que nossas consciências nos ultrapassam. Sei, também, que a consciência não vai nos livrar da opressão que sofre a mente e o corpo. Mas a consciência que ultrapassa a matéria, que se volta para ela e que pode pensar sobre ela mesma também me dá a liberdade da crítica da consciência, e por meio desta, da auto-afirmação da independência da minha consciência sobre mim. O suicídio talvez seja um indício do que estou falando. É sempre uma pseudo-liberdade, desnecessário dizer, porque essa liberdade crítica da minha consciência parte de uma premissa universal: não nascemos livres, somos matéria da natureza, aglomerado social e parte ínfima de um espetáculo efêmero e eternamente transitório. Se eu aceitar que não tenho escolha (porque sei que não tenho completamente), renuncio necessariamente à única liberdade possível, que é a liberdade que tenho se minha consciência não fizer auto-análise com a exclusiva finalidade de se convencer de que os pensamentos que me perturbam e me põem dúvidas são aberrações a serem evitadas porque questionam uma vida que é sagrada. É como num pleito eleitoral: a representação burguesa dá ao conjunto da sociedade a ilusão de democracia plena porque, dentre outras coisas, permite que escolhamos livremente quem irá nos governar, e que sequer questionemos o fato de alguém nos governar. Mas não nos deixa pensar que aqueles que vão concorrer ao cargo já foram antecipadamente escolhidos, e não o foram por nós. Pois bem: excluí do horizonte das possibilidades da minha consciência a possibilidade de decidir não tomar parte de nenhum lugar na minha existência social, além do que sou, por fatalidade ou por natalidade, obrigado a estar antes da minha consciência. Então as possibilidades são limitadas de qualquer forma: se escolho o engajamento, fundamentado na razão de que não tenho absolutamente escolha, no que penso ser a emancipação política do ser, participo de um jogo que tolhe moralmente a minha consciência, excluindo do seu campo de escolha a dúvida, o “ser ou não ser” shakspeareano, sob o argumento de que se não o faço me situo automaticamente no pólo oposto. Se o que sustenta esse tipo de argumento é o fato de que não temos escolha, o próprio argumento se constrói pela exclusão, denunciando uma concepção da condição manca e negativa do ser e a conseqüente falta de totalidade do argumento moral. O que importa, para a minha consciência, é se minha posição é produto da minha escolha deliberada ou não, argumento também presente em Kundera (“aquilo que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso”).. Se estou numa posição que não escolhi estar e da qual só saio se escolher o que se chama ‘o outro lado’, como posso ser acusado moralmente?  Afinal de contas, não se pode considerar que a merda seja imoral! É uma exigência de natureza fascista. Se escolho não agir, sou acusado; se escolho agir pela direita, naturalmente sou acusado. Só tenho salvação moral se eu fizer o que me exige a esquerda. Portanto é como eu disse no começo desse texto, uma moral secular ocupa o trono do deus redentor e dono de nossas consciências, pois somos portadores de uma culpa ‘pré-consciência’ que guarda alguma relação com o ‘pecado original’. Parece que temos uma necessidade vital de Deus, esse é o peso. Significaria também que o acordo categórico com o ser tem um mecanismo mais geral e oculto que opera por baixo da nossa consciência? A liberdade compulsória da humanidade, estamos condenados moralmente a ela. Penso que a esquerda não pode abrir mão dessa moral (de outro modo já o teria feito) porque isso esvaziaria o valor de sua luta. Mas se for isso mesmo é ela também vítima desse mal estar geral na civilização do qual falou Freud. É uma luta constante consigo mesmo que temos de levar durante a vida. Eu mesmo sei que não estou livre de ser acusado por ousar despejar tais argumentos, mas deixo claro que a escolha pelo engajamento consciente (especificamente o político) é para mim também legítimo na medida em que também se apresenta como uma conclusão e uma possibilidade. Desnecessário seria entrar no mérito da escolha propriamente feita , já que demonstro muito acordo com idéias de Kundera sobre o acordo categórico com o ser e o fenômeno Kitsh. Só vejo problema quando outra postura não pode ser entendida sequer como possibilidade, ainda que possa haver, como em meu caso, desacordo com a escolha propriamente dita. Porque é daí que partem todos os dogmas. Dado todos os pormenores da vida, todas as questiúnculas cotidianas, todas as obrigações da vida e todas as limitações, não consigo admitir que haja qualquer moral superior por natureza.

Resta dizer que esses conceitos de Kundera, do acordo categórico com o ser e do Kitsh, que consistem em fenômenos que legitimam e mascaram a realidade, sobrepondo a ela uma superfície oca de aparência harmônica, não é uma novidade, Marx já havia teorizado melhor e mais pormenorizadamente sobre o mesmo fenômeno. O que Kundera faz é ampliar seu emprego na ação política da esquerda, a partir de uma experiência de algumas décadas como militante e como cidadão de um país da cortina-de-ferro.

O KITSH COMO ACORDO CATEGÓRICO LEGÍTIMO

Se há um elemento transcendental no acordo categórico com o ser, Yakov desprezava, ignorava e desconhecia a merda presente nesse acordo. Seu mundo era um grande e verdadeiro Kitsh, e somente quando se rompem, ou quando se apresentam a ele as letras miúdas desse contrato, se vê diante da leveza, insuportável, sem acordo, e opta pelo suicídio. Um contrato pressupõe a existência de diferenças entre as partes, mas que ainda permitem um acordo. Ambas as partes sabem da diferença mas permitem que ela exista e um contrato a regule. Só que Yakov fora maravilhosamente enganado pelo universo Kitsh do deus-seu-pai-todo-poderoso, pois nunca soube da merda. Se afirmo a leveza do caráter de sua morte voluntária, como Kundera apresenta sua metáfora, é porque percebo que entre o Kitsh e o real nunca pôde haver acordo. Quando se deixa de haver acordo sobra a leveza (e eu sei que aqui você discorda, mas é essa a metáfora de Kundera, o que leva a concluir que se há engajamento há acordo, ao menos no nível de se estabelecer uma nova chance e possibilidade de viver; talvez por isso a luta revolucionária seja mortal), e essa pode ser insuportável. O Kitsh é apenas mentira, e só se permite acordo mentindo, negando e mascarando qualquer verdade inconveniente. Não havendo acordo, o que ocorre na morte de Yakov é encarar a trágica e para ele insustentável leveza do ser. É possível aqui um paralelo com o Buda Siddhartha Gautama em seu périplo para entender o mundo após perceber a miséria, ou a merda, e abandonar sua vida de príncipe. Sintomático que quando percebe a merda e o grande Kitsh que era seu mundo também rompa unilateralmente o acordo.

O Kitsh, de ideal estético do acordo categórico com o ser, firma a convicção de que o ideal legitima o acordo, e quando essa união entre ideal e acordo se rompe, a leveza do ser se apresenta como horizonte possível e difícil da escolha humana e lhe restitui sua consciência usurpada, com todas as conseqüências que terá para o indivíduo. Uma para Yakov, outra para Siddhartha.

OUROBOROS, O ETERNO RETORNO DE DEUS

Concluir que a vida não tem qualquer sentido transcendental não implica em optar pelo suicídio, quem assim procedesse apenas expressaria o quanto carece de deus. A vida é uma contingência total. E daí? Não é isso que determina que a vida seja insuportável. O suicídio é uma possibilidade é não um caminho obrigatório, uma conclusão lógica.”

Esse parágrafo é seu e tenho acordo com ele. Se lhe pareceu em algum momento em meus comentários, ou mais do que ‘parecer’ eu tenha dito mesmo o contrário, foi, e o convido a conferir, participando da concepção de Kundera sobre a leveza e o peso, sobretudo na questão da morte de Yakov, que, se não foi uma conclusão lógica, no sentido de única, foi essa a decisão dele e que explico como disse acima. Quanto a uma crítica da visão da vida sem sentido transcendental expressar uma necessidade inconsciente de deus, o que pode ser verdade, já que o inconsciente é ardiloso, vale aqui o que foi dito por mim linhas atrás: a exigência intransigente que se faz do engajamento, que coloca o homem ante uma obrigação moral através de um acordo à revelia pré-ser e lhe açambarca a consciência, essa já não manifesta mais a necessidade de deus, já lhe ocupa totalmente o trono. Ademais, crer que a vida seria um absurdo se existisse o Grande Organizador (deus) permite a possibilidade de se afirmar que a vida teria qualquer outro sentido ontologicamente determinado, absurdo da mesma natureza . Troca-se um por outro, mas participa-se de um absurdo maior porque engendra e perdoa todos os outros. Se deus existe tudo é permitido. E é permissível pensar que pode não ser só deus aquilo que confere algum sentido ou finalidade à vida; por exemplo, o trabalho não alienado, realização humana, daí talvez ver de forma mais humana um estranhamento diante da ausência de sentido e finalidade que não nos conclua. O homem é um animal metafísico.

Eu não neguei que o engajamento (como qualquer participação na vida, em oposição a indiferença absoluta) possa rebater a insuportabilidade da leveza, creio que até expressei por entrelinhas a aceitação dessa idéia, mas neguei que esse engajamento explicasse unicamente a saída para a insuportabilidade, como você pareceu afirmar quando disse que “a leveza é insuportável porque o engajamento é necessário”. Se você chama de engajamento apenas a inércia natural da vida, todo engajamento é quase instintivo e natural.
A vida não é essencialmente insuportável, o que talvez seja é a leveza, e essa é uma condição existencial como tantas outras, mesmo podendo ser determinada historicamente.

Encarar a gratuidade de uma vida sem propósito pode não ser ontologicamente insuportável, mas como afirmei rompe com qualquer tipo de acordo por entendê-la dessa forma, ou então há um terceiro tipo de acordo, já que concordamos que não há indiferença absoluta. A partir do reconhecimento, pelo indivíduo, da existência como grande absurdo do sentido da vida, a leveza torna-se um fardo pesado e sua resistência ante qualquer espécie de acordo pode levá-lo ao suicídio.

SOBRE KUNDERA

Fechando, acho que você tem uma visão do Kundera como de alguém que essencialmente milita pela direita, mas talvez esteja enganado. Não fui procurar saber detalhes minuciosos de sua vida para saber sua posição hoje, mas soube que foi militante fervoroso engajado no PC na juventude e que depois adotou posições reformistas após o episódio da Primavera de Praga, quando já contava com 30/40 anos. Há contra ele inclusive uma acusação de entregar alguém que ele entendeu como sendo um espião para a polícia Tcheca em 1950, e que foi condenado a 22 anos de trabalhos forçados numa mina de urânio, tendo passado lá 14 anos. O homem estava vivo ainda em 2008 e sempre negou espionagem. Alguns dizem que isso teve motivos passionais e não políticos, pois o sujeito delatado foi preso num encontro com uma mulher com quem Kundera saía. Ele nega, porém a pessoa que encontrou os documentos/relatórios da polícia Tcheca assegura que os documentos são verdadeiros e datam da época.

Abraços
Olavo Mosnos

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A doçura do rebate

Meu caro amigo Olavo, será este nosso diálogo, agora internético, manifestação do eterno retorno? Tudo se repetindo como já foi vivido. Peso e leveza no lugar de mais valia e taxa de lucros. Alteram-se as categorias, prossegue a polêmica.
Conclui meu texto dizendo que o livro de Kundera é muito mais do que uma simples crítica ao socialismo degenerado, trata-se de um embate contra o acordo categórico com ser1, que é o ideal estético-filosófico da direita. Mantenho essa posição, mas ainda há coisas por dizer. Há uma ferida que, no meu texto, preferi contornar: o posicionamento político de Milan Kundera. Minha ideia era aprofundar depois, é o que tento fazer. Teu texto é um incentivo. A publicação destes materiais talvez interesse a alguém.
Não prejudica em nada a qualidade estética da obra, mas é fato que Kundera dá passadas de onça para o lado da direita. Afirmar que o kitsch2 é o ideal estético de todos os homens políticos, de todos os partidos e movimentos políticos... Que a fraternidade entre todos os homens não poderá nunca ter outra base senão o kitsch... É direitismo para corar até o teu xará, que é de carvalho no nome e de alface nas ideias.

Fico pensando se Kundera arriscaria despejar alguns homens políticos na sacola do kitsch. Marx? Lenin? Lukács? Bakunin? Che? Brecht? Rosa Luxemburgo? De duas uma: ou a contribuição dessas pessoas é menor, ou a generalização de Kundera é absurda. Fico com esta última.

Kundera afirma e você endossa que desde a Revolução Francesa, metade da Europa se intitulou de esquerda e a outra metade recebeu a classificação de direita. É praticamente impossível definir uma ou outra destas noções através dos princípios teóricos em que elas se apóiam. Não há nisso nada de surpreendente: os movimentos políticos não se baseiam em atitudes racionais, mas em representações, em imagens, em palavras, em arquétipos, cujo conjunto constitui esse ou aquele kitsch político.

Não é segredo que o inconsciente joga considerável peso na determinação das concepções em geral, políticas inclusive. Até aqui há acordo. Mas afirmar que os diversos posicionamentos políticos derivam de diferentes kitsches é demais. A quem interessa esse mito insensato? O argumento de Kundera, que é essencialmente político, deve ser também enquadrado no reino kitsch? É uma ideia suicida que se inviabiliza ao ser formulada? Ou o escritor é capaz de levitar livremente sobre o muro que separa a esquerda da direita? Como a revolução demanda engajamento, a despolitização promovida por Kundera milita pela direita. Se seguirmos por este caminho é possível apontar diferenças políticas e teóricas que Kundera não consegue enxergar.

Do que derivam as representações, imagens, palavras e arquétipos que condicionam os movimentos políticos? Se a origem do kitsch é o acordo categórico com o ser, se todos os movimentos políticos se baseiam no kitsch, por que os revolucionários insistem em transformar o mundo? O mundo não foi criado como devia ser? O ser humano não é bom e deve procriar?

Kundera não vê, ou não quer ver, que o kitsch e o acordo categórico com o ser fundamentam os reacionários. Se o primeiro capítulo do Gênese está correto, se o mundo foi criado como devia ser, se o ser humano é bom; é preciso salvaguardar a ordem estabelecida, que é boa, justa e valiosa Quem firma o acordo categórico com o ser se alista na defesa do status quo. Sendo assim, é legítimo definir os estalinistas como reacionários, afinal, eles defendiam a ordem firmada; por outro lado, generalizar a crítica a toda a esquerda é uma posição conservadora.

Não existe outra espécie de acordo categórico com o ser, como você sugere. Nós dois e tantos outros só podemos ser definidos por nosso desacordo categórico com o ser3. A questão é o que cada um faz a partir daqui. O filho de Estalin, Yakov, se matou quando o real rechaçou qualquer possibilidade de acordo com o ser. Enxergo o auto-aniquilamento de Yakov em termos de peso e não de leveza.

Concluir que a vida não tem qualquer sentido transcendental não implica em optar pelo suicídio, quem assim procedesse apenas expressaria o quanto carece de deus. A vida é uma contingência total. E daí? Não é isso que determina que a vida seja insuportável. O suicídio é uma possibilidade é não um caminho obrigatório, uma conclusão lógica.

Quando falo em engajamento não me limito à política, trata-se de engajar-se na vida. A leveza total seria a ausência completa de engajamento, um tanto faz absoluto. Me parece que é este tanto faz absoluto que Kundera classifica como insuportável. Se tudo tivesse a mesmíssima insignificância, seríamos plenamente indiferentes. A leveza absoluta é uma tomada de posição que excluiria todas as demais, ou melhor, depois de optar pela leveza o homem se tornaria totalmente indiferente nas suas escolhas. Levitaria como uma pluma. Se fosse totalmente leve, Tomas poderia assinar sua retração se reconciliando com os estalinistas, e seria indiferente entre seguir a medicina ou qualquer outra profissão, mas isso não ocorre, Tomas se realiza como médico, e isso é uma forma de engajamento. Se fosse totalmente leve, Tereza poderia assistir a invasão de seu país sentada no sofá, mas ela optou por fotografar os tanques russos. Lembremos que estes foram os melhores dias de Tereza, por quê? É neste sentido que afirmo que o engajamento rebate a insuportabilidade da leveza.

A vida não é essencialmente insuportável, até porque neste ponto também estamos diante de um significador humano de sentido, para um lado e para o outro. A questão é ser coerente com as escolhas. A vida pode se tornar insuportável à medida que a leveza avança. É sintomático que somente Sabina experimente a insuportável leveza do ser, justo ela que é leve (pelo menos no amor). Repare que Tomas não é vitimado pela insuportável leveza do ser, exatamente porque ele não é leve. Sua leveza amorosa se dissolve quando um cesto com um bebê desce o rio vai parar na sua porta, a partir deste dia Tomas experimentou o amor, que para ele nada mais é do que o desejo do sono compartilhado. Sofreu com o peso de seu engajamento, mas não padeceu da insuportável leveza do ser.

É interessante observar que Tomas também se realiza como cirurgião, o que é, como já foi dito, uma forma de engajamento. Ou seja, o homem se realiza no trabalho não alienado. É sempre bom lembrar que o trabalho alienado é uma condição historicamente determinada, nem sempre foi assim. E aqui Marx surge como referência. A insuportável leveza do ser é em boa medida historicamente determinada.

A gratuidade da vida não lhe confere um caráter ontologicamente insuportável. Isso só ocorre para os que carecem de deus e de um sentido transcendental. Penso exatamente o contrário: a vida seria insuportável se existisse o Grande Organizador (deus). E isso pela simples razão de que, se assim fosse, o espírito criador do ser humano seria tolhido. Deus seria o limite, o Grande Castrador. Criatura não supera o criador. A leveza é capitulação na medida em que nega o espírito criador. Da arte à política, toda criação é pesada.

Fico pensando se não há um kitsch kunderiano. Sabemos que a história é suja e se escreve com sangue. Se é assim, dá para pensar que a despolitização pregada por Kundera é uma forma de negar a merda. Lembremos que o autor afirma que todos seus personagens são o conjunto de suas possibilidades não concretizadas. Eles são capazes de combater a ocupação da Boêmia com fotos, mas defenderiam seu país com balas? Me parece que não. Porque ao dar este passo é preciso pegar um caminho sem retorno que não exclui o derramamento de sangue próprio ou de terceiros.

Para finalizar, digo que não existe tomada de posição que não seja nem pela direita e nem pela esquerda. A luta de classes é o motor da história. Num mundo dividido entre uma minoria que explora e uma maioria explorada, é um grande kitsch imaginar que exista uma posição que não é nem pela direita e nem pela esquerda. Numa guerra não há três trincheiras.

JC


Pequeno léxico categorial


1º) Acordo categórico com o ser: crença segundo a qual o mundo foi criado como devia ser, que o ser humano é bom e que, portanto, deve procriar.

2º) Kitsch: negação absoluta da merda; tanto no sentido literal quanto no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.

3º) Desacordo categórico com o ser: crença segundo a qual o mundo não é o como deveria ser, sentimento de que o homem é explorado pelo homem, estranhamento, inadequação.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O homem, a leveza e o peso

JC,

Começo afirmando que a leveza é atroz. O que confere peso são todos “significadores humanos” de sentido (“Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora” –Tomas). Quando Kundera utiliza categorias como “leveza” para o que é insuportável e “peso” para o que é doloroso, dá à “leveza” a maior carga de enfrentamento, resistência, insubmissão, iconoclastia, tudo aquilo que, ilusória e aparentemente (porque só concebe, imperiosamente, esses atos humanos àquilo que se situa dentro dos limites físicos e do possível, sem entender que o homem, uma espécie de deus preso a um tubo digestivo, pode e deseja o impossível - “Unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica”) se pode atribuir ao “peso”, ao ponto de subverter os significados. Porque o “insuportável”, antes de sê-lo, passou por todas as espécies de acordo.

A burocracia stalinista é um Kitsch, é o peso. Você tem razão, leveza é algo que confere ausência de sentido e sentimento de absurdidade, esvaziamento de razão, fundamento... a insuportável leveza, mais cruel dos fardos. O ‘acordo categórico com o ser’ é também um peso, diz respeito ao sentido da vida para milhões de pessoas, lhes confere substância.

Encarar a gratuidade de uma vida sem propósito, tarefa que Nietzsche atribuiu ao seu herói ‘super homem’ (“A história é tão leve quanto a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pluma, como uma poeira que voa, como uma coisa que vai desaparecer amanhã.”) rompe com qualquer tipo de acordo. A leveza carrega todo o peso de uma existência absurda, tanto quanto possível.

A perspectiva de Kundera mostra legados sombrios, associados à leveza  (“A história da Boêmia e a história da Europa são dois esboços que a inexperiência fatal da humanidade traçou.”)
O homem moderno rompeu com suas dimensões clássicas de sentido, pois não há razão que não tenha sofrido abalos em seus fundamentos, inclusive a que foi, durante quase todo o século XX a responsável por um otimismo de perspectiva mas logo de um ceticismo de constatação: a ciência, mãe zelosa da razão e desejosa de coesão e sentido da matéria. Se movimentamo-nos sem certeza não é isso produto do nosso desejo, mas pré-condição. Por isso não se pode ceder a uma crítica da leveza porque desejamos o peso, significação e tomada de posição. Ou até pode, mas assim como o homem pode desejar o impossível. Admitamos que podemos e então é também a leveza uma tomada de posição, e talvez a mais cruel por descalçar nosso caminho: nem pela direita, nem pela esquerda, nem adiante e sem retorno.

“Se a maldição e o privilégio são uma só e única coisa, se não existe diferença alguma entre o nobre e o vil, se o filho de Deus pode ser julgado por uma questão de merda, a existência humana perde suas dimensões e adquire uma insustentável leveza. Assim, o filho de Stalin corre para os arames eletrificados e neles se atira, como se jogasse seu corpo no prato de uma balança que sobe, impiedosa, levantado pela leveza infinita de um mundo que perdeu as dimensões.”  O filho de Stalin morreu por merda, como metaforiza Kundera. Mas vejamos: Yakov perdeu as dimensões do sentido da vida porque acreditou que fosse real a distinção entre divindade e merda. Quando foi desmentido não suportou a idéia, suja ou pesada demais. Morreu experimentando uma centelha de verdade, ou da falta dela.

Adiante Kundera diz que Yakov não morreu de forma absurda. “O filho de Stalin perdeu a vida por merda. Mas morrer por merda não é morrer de modo absurdo. Os alemães que sacrificaram a vida para ampliar seu império em direção ao leste, os russos que morreram para que o poder de seu país se estendesse em direção ao oeste, esses, sim, morreram por uma tolice, e a morte deles é destituída de sentido, de qualquer valor geral. Em contrapartida, a morte do filho de Stalin foi a única morte metafísica em meio à tolice universal que é a guerra.”

É uma morte metafísica porque precedida da percepção do absurdo em que vivera acreditando, o que impõe um sentido para seu suicídio. A morte dos soldados, cada qual em sua posição, não tem essa carga pois tem apenas um sentido mecânico, conseqüente. A leveza metafísica da morte de Yakov, fardo pesado demais para suportar, não é frívola, fútil ou oca, apesar de vã. Desmente a afirmação de que “um ser pleno de leveza é capaz de levitar indiferente sobre qualquer realidade, mesmo a mais hostil, mas o preço a pagar será a futilidade e o vazio” e que “leveza é capitulação”. Por isso Kundera, ao dizer que “só tem valor aquilo que pesa”, sabe que a vida, quando não tem valor, se acaba (“Essa vida não deve ser considerada mais importante do que uma guerra entre dois reinos africanos do século XIV, que não alterou em nada a face do mundo, embora trezentos mil negros tenham encontrado nela a morte através de indescritíveis suplícios.”), por isso deve entrever entre suas palavras que o valor, em seu sentido próprio, não se estabelece arbitrária e objetivamente, mas se encontra em fatos e lugares insuspeitos. Sabe que a história é amoral e que, se uma vida desprezível como a de Yakov pode realizar alguma redenção, ideais nobres não conferem absolutamente valor ao portador (“O kitsch é o ideal estético de todos os homens políticos, de todos os partidos e movimentos políticos”).

"Desde a Revolução Francesa, metade da Europa se intitulou de esquerda e a outra metade recebeu a classificação de direita. E praticamente impossível definir uma ou outra destas noções através dos princípios teóricos em que elas se apóiam. Não há nisso nada de surpreendente: os movimentos políticos não se baseiam em atitudes racionais, mas em representações, em imagens, em palavras, em arquétipos, cujo conjunto constitui esse ou aquele kitsch político. A idéia da Grande Marcha, com a qual Franz gosta de se embriagar, é o kitsch político que une as pessoas de esquerda de todos os tempos e de todas as tendências. A Grande Marcha é essa soberba caminhada para a frente, essa caminhada em direção à fraternidade, à igualdade, à justiça, à felicidade, e mais longe ainda, a despeito de todos os obstáculos, pois os obstáculos são necessários para que a marcha seja a Grande Marcha.”
É a leveza que é arriscada demais. Afirmações como “a leveza é insuportável porque o engajamento é necessário”, onde os termos não têm relação de causalidade, são ‘non sequitur’. A possibilidade de que o engajamento, ou o ‘peso’, elimine a insuportabilidade da leveza, não explica que a vida seja ontologicamente suportável pelo engajamento, apenas que migrou-se para outra espécie de “acordo categórico com o ser”.


PS.: tentei publicar em seu blog nos comentários mas não coube, então envio agora... quase todas as citações entre "aspas" são de Kundera, exceção das suas, que saberá distinguir.


Abraços,
Olavo Mosnos


sábado, 3 de dezembro de 2011

O peso insuportável da leveza

Muss es sein?
(Tem de ser assim?)
Es muss sein!
(Tem de ser!)
Es muss sein!
(Tem de ser!)

Palavras preliminares

A insustentável leveza do ser é uma obra misteriosa de Milan Kundera, que, com ela, conseguiu intrigar não poucos leitores. O espanto começa na citação de Nietzsche e do eterno retorno, no primeiro parágrafo; passa pelas palavras incompreendidas; vai de Praga à Suíça; do kitsch à merda; do título à última linha; e retorna. Pensar que a leveza do ser não se sustenta... Quanto pesa o ser? Por que a leveza do ser é insustentável? Que significado terá este mito insensato?

Quanto mais pesado o fardo, mais restritos serão nossos movimentos, ficamos presos ao solo. Mas o peso não é necessariamente negativo. Segundo Kundera, na poesia amorosa de todos séculos a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo corresponderia ao ideal mais elevado de realização vital. O exemplo é ridículo, dissolve-se com a simples alternância da posição do coito. Mas a questão não se resolve tão facilmente. A leveza total faz o ser levitar livre e fútil, tão insignificante que suas escolhas não pesam mais que uma pluma. Todo valor se anula. Então o que escolher? Será atroz o peso e bela a leveza?

Vinte e tantos séculos antes, na Grécia, Parmênides já se perguntava qual era pólo positivo da contradição: peso ou leveza? Para ele o primeiro é negativo e segundo positivo.

Palavras compreendidas

Na terceira parte do livro, As palavras incompreendidas, Kundera trata do fardo dos relacionamentos amorosos, do peso das barreiras da comunicação. Idiossincrasia de cada um. Toneladas de incompreensão. Insegurança. O implicar com a posição da escova de dentes, com a dobra do pijama... O pudor.

Tomas é um sedutor que procura o que há de único em cada mulher. Nos vinte e cinco anos de sua via sexual ele estima que teve duzentas amantes, média de oito novas mulheres por ano. Contra o tédio e a banalidade monogâmica, Tomas formula e segue a regra do três: no curto prazo, nunca encontrar a mesma amante mais que três vezes; no longo prazo, para manter a mesma amante, é preciso deixar passar pelo menos três semanas entre os encontros.

Mas detalhes se oferecem aos poucos. É provável que a primeira parte da regra do três – nunca encontrar a mesma mulher mais do que três vezes seguida – tenha impedido Tomas de descobrir detalhes únicos das suas amantes. Ou seriam detalhes para não se perceber? Ou seria Tomas um consumista do amor?

Ao rever (talvez violando a regra do três) a película A insustentável leveza do ser me surpreendi. Em espanhol, o título do filme é La insoportable levedad del ser. Desabou a minha interpretação. Insuportável não é insustentável.

Procurei e encontrei o título original do filme em inglês: The unbearable lightness of being. Depois da consulta aos tradutores eletrônicos, quase não restou dúvida. A tradução do adjetivo unbearable é insuportável ou intolerável. Ou seja, muito distante de insustentável. A internet e os dicionários virtuais contradizem a tradução para o português. O título original em tcheco é Nesnesitelná lehkost bytí. A palavra nesnesitelná aproxima-se de insuportável.

O golpe de misericórdia veio com a leitura de um texto teórico de Kundera, A arte do romance. Apesar da tradução como insustentável leveza, estava claro que o adjetivo correto seria insuportável. Os tradutores brasileiros e portugueses realmente haviam aliviado o peso do título do principal romance de Kundera e, conseqüentemente, também seu conteúdo. Cordialidade à la Sergio Buarque? É  possível.

A leveza, se insustentável, pode ser positiva. Um ideal de perfeição a que os seres aspiram. A existência é insuportável porque a leveza não é sustentável. Se a leveza fosse perene a existência seria suportável. Era esta a minha interpretação. Forças poderosas jogariam peso para inviabilizar a leveza. A burocracia estalinista canalha seria uma força sufocando a leveza dos personagens. Os grilhões do casamento idem. Em alguma medida o amor fixo de Tomas por Tereza seria também um agente do peso contra a leveza. A luta de Tomas seria para aliviar a carga de seu ser. A vida seria uma peleja perpétua da leveza contra as forças que a inviabilizam.

Mas, se a leveza é insuportável, desabam os cenários. As coisas ficam nubladas. O caráter positivo é dissolvido. Explica-se, dessa forma, por que, no amor, Sabina sofre ao invés de gozar a leveza de seu ser. Kundera aproxima-se de Camus. Para este, o absurdo é uma doença do espírito, um desabar de cenários, um divórcio entre o homem e sua vida. Segundo Camus, esse divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário, é que é propriamente o sentimento da absurdidade.

Em A arte do romance, Milan Kundera expressa semelhante sensibilidade absurda com outras palavras: Depois de ter conseguido milagres nas ciências e na técnica, este “senhor e dono” [o homem] se dá conta subitamente de que não possui nada e não é senhor nem da natureza (ela se retira, pouco a pouco do planeta) nem da história (ela lhe escapou) nem de si mesmo (ele é guiado pelas forças irracionais de sua alma). Mas se Deus foi embora e o homem não é mais senhor, quem então é o senhor? O planeta caminha no vazio sem nenhum senhor. Eis a insustentável leveza do ser.     

Aqui a correta tradução seria insuportável, sem dúvida. E a leveza é negativa. O homem carece de Deus. A reflexão de Kundera, se continuada, pode apontar para o suicídio, como em Camus. O dom juanismo de Tomas não redime o fardo da existência.

Se a vida é absurda e insuportável, só resta uma possibilidade: recriá-la. Não é por acaso que homens como Albert Camus e Milan Kundera caminharam para a literatura e o romance.

O feitiço de Tomas

Um epitáfio: Desejava o Reino de Deus sobre a terra. Na lápide de qualquer cristão seria apenas mais uma frase, se registrada na campa de um libertino ateu as coisas mudam. Mas saltemos da morte para trás, do pó para a vida. 

Kundera afirma que seus personagens são o conjunto de suas possibilidades pessoais não realizadas, todos atravessaram a fronteira que o autor se limitou a contornar. Tomas é mais do que isso. Ele é o conjunto de aspirações não realizadas dos leitores. Seduzir alguém com uma frase simples, um tire a roupa... Experimentar o amor por uma única pessoa e a poligamia ao mesmo tempo... Ser íntegro e não se curvar aos burrocratas estalinistas... Tomas encanta e confunde como todo sedutor.

A poligamia de Tomas ilude, passa a falsa sensação de fluidez e leveza. Uma leitura desatenta tende a igualar Tomas à sua principal amante, Sabina, como se ela fosse a versão feminina dele ou o inverso. Ilusão. Sabina recusa as algemas da monogamia, abandona Franz exatamente quando este rompeu seu casamento para ficar exclusivamente com ela.

Para Tomas, o amor não se manifesta pela atração sexual, que é quase infinita; é o desejo do sono compartilhado que certifica a presença do amor. Ele nunca dormia com suas amantes. Depois do ato sexual Tomas sentia a imperiosa necessidade de ficar só. Acordar à noite ao lado de uma criatura estranha era-lhe profundamente desagradável, como o despertar matinal e o café da manhã compartilhado. Num dos primeiros encontros amorosos com Teresa, Tomas se surpreendeu ao acordar ao lado da moça, que segurava-lhe a mão com força. Pela primeira vez ele sentia o prazer do sono partilhado. A leveza do ser se dissolve. O peso do amor se impõe.

Sabina nunca sentiu o prazer sono compartilhado e do amor. Ela aspira à leveza amorosa. E padece da insuportável leveza do ser, que é o mais cruel dos fardos. Sobre os ombros de Tomas pesa a carga da existência e não a leveza do ser. Mas a coragem custa caro, o prestigiado cirurgião é transformado em limpador de vidros por ousar retornar à República Tcheca, é a fatura do amor, o preço do sono compartilhado com Tereza. 

Tomas encanta porque explode o muro que separa o amor por uma pessoa do desejo por outras, porque é fluido sem ser fútil. Ele é todo engajamento e escolha. Tomas seduz e enfeitiça.

As traições de Sabina

O mundo é bom, os homens são bons e foram criados à imagem e semelhança de Deus e, portanto, devem se multiplicar. Kundera dá a esta crença o nome de acordo categórico com o ser. O kitsch é o ideal estético-filosófico dos que firmam o acordo categórico com o ser, é uma tentativa desesperada de negação da merda. A merda é a prova definitiva do caráter inaceitável da criação. O kitsch é uma  tentativa de disfarçar a presença da merda. Mas das duas uma: ou a merda é inaceitável (e, nesse caso, não precisamos nos trancar no banheiro), ou Deus nos criou de maneira inadmissível.

O acordo categórico com o ser é o arranjo estético-filosófico das épocas reacionárias. A República Tcheca de Tomas e Sabina vivia sob o tacão do estalinismo e do acordo categórico com o ser.

Sabina afirma que, no reino do kitsch, Tomas seria um monstro. O mesmo se aplica a ela. É a traição e não a fidelidade que seduzia Sabina. Mas aqui é preciso reposicionar as coisas, para Sabina a traição é, em verdade, a expressão de seu desacordo categórico com o ser, trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido. As traições de Sabina são, sobretudo, iconoclastia e subversão contra a compaixão cristã, contra a transformação da música em barulho, contra a era da feiúra total.

Numa leitura apressada tende-se a associar Tomas a Sabina,  como se ele fosse a versão masculina dela. Errado. Tomas é o conjunto das possibilidades não realizadas de Sabina, e o inverso é verdadeiro. Ela não conhece e nem procura conhecer o prazer do sono compartilhado. Sabina aspira à leveza e ao desprendimento amoroso. Mas ela não é plena de leveza, sua vida e seus quadros são um enfrentamento contra o kitsch. No primeiro plano sempre um mundo perfeitamente realista, ao fundo, escondido, sempre algo misterioso e abstrato. Na frente a mentira inteligível, por trás a verdade incompreensível.


Sob os ombros de Sabina pesa o desacordo categórico com o ser. Suas traições são atos subversivos contra o kitsch e a era da feiúra total. Sabina recusa a ordem firmada.


Palavras finais

Afinal: peso ou leveza? Peso de Tomas e Sabina? Leveza para Parmênides. Peso para Kundera. E aqui a tradução incorreta para o português é prejudicial, fosse a leveza adjetivada como insuportável já no título, as coisas seriam menos confusas. Por outro lado, a tradução imprecisa acrescenta mistério e fascínio. O fato é que a leveza do ser é moléstia e enfermidade, e não redenção como pode parecer inicialmente. A leveza é vazia, frívola, fútil, vã, oca. O peso é comprometimento e tomada de posição, tão perigoso quanto necessário.

O peso é belo mas doloroso. O peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa. Com essas palavras Kundera se afasta de Parmênides, alistando-se no pólo oposto da contradição. 

O livro de Kundera é um convite ao engajamento, a leveza é insuportável porque o engajamento é necessário, apesar de todos os riscos. É assim sob autoritarismo estalinista ou sob toneladas inúteis de mercadorias do capitalismo. Um ser pleno de leveza é capaz de levitar indiferente sobre qualquer realidade, mesmo a mais hostil, mas o preço a pagar será a futilidade e o vazio. A leveza do ser é insuportável porque anula o espírito criador e a perspectiva de intervir sobre as coisas. Leveza é capitulação.

A indiferença da leveza é angustiante. Já a tomada de posição pode implicar numa forte carga de dor, mas é preferível. O engajamento é necessário no amor e na política, na República Tcheca invadida pelos tanques russos e no mundo capitalista asfixiado pelas mercadorias. 

Camus afirma que as grandes obras sempre expressam mais do que têm consciência de dizer. É o caso de A insustentável leveza do ser, que, sobretudo, afirma muito mais do que transparece em leituras afoitas. O livro de Kundera é muito mais do que uma simples crítica ao socialismo degenerado do leste europeu, como pensa o direitista tacanho. É possível imaginar Tomas e Sabina em Praga, Washington, Paris, Buenos Aires ou São Paulo. A insustentável leveza do ser cobra engajamento contra o acordo categórico com o ser, que é, fundamentalmente, o ideal estético-filosófico da direita.

JC

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O cadáver do Kadafi

Vídeos e provas dos massacres promovidos por Kadafi contra seu próprio povo não apareceram. Vídeos e provas do massacre dos mercenários da Otan contra Kadafi surgem aos borbotões e no ritmo da internet. Sintomático.
O monopólio midiático transforma merda em prato de comida, mercenário em rebelde, cadáver em troféu. E o público asnático consome tudo.
Kadafi cometeu o erro fatal de se aproximar dos seus verdugos ocidentais, acabou liquidado pela turba mercenária. Mas não se rendeu. Combateu tropas e aviações poderosas. E morreu no último reduto fixo da resistência líbia, Sirte, sua cidade natal. O simbolismo é evidente.
Com o cadáver de Kadafi tentarão enterrar a revolução nacionalista e todas as suas conquistas. Urubus imperialistas sobrevoam o país norte-africano. Petróleo, privatizações e reconstruções interessam aos carniceiros capitalistas. 
Kadafi viveu enquanto Sirte pôde resistir, depois caiu. Morreu como costumam morrer os que ousam desafiar o imperialismo: baleado e com o corpo exposto como troféu. O cadáver de Kadafi não redimi os erros do homem morto, mas lhe reserva a cova dos que resistem até a morte. Não é pouco. Não é na cova dos que resistem até morte que apodrecerão covardes como Obama, Sarkozy e Cameron.
JC

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CAPITALISMO E CRISE
Introdução
O real é um encadeamento de forças, tendências e contratendências em movimento contínuo. Este caráter não estático da realidade é o maior desafio ao pensamento que aspira à totalidade, ou seja, à teoria político-filosófica do proletariado, que precisa compreender o real em movimento e em todas as suas potencialidades.
Sob o capitalismo decadente, a burguesia se refugia nas trincheiras fragmentadas e dispersas do pensamento pós-moderno, ou irracionalista, ou qualquer outro que prescinda da totalidade. Apologético à ordem decadente do capital, o pensamento burguês é forçado a varrer contradições para baixo do sofá, o que é um adiamento e não uma solução. No início do século passado, Lukács já constatava os limites da arte burguesa, estrangulada por sua perspectiva de classe. Voltaire, Diderot e outros não existiriam um século depois, ou existiriam de forma diferente da original, porque o período revolucionário da burguesia estava encerrado. O esgotamento da arte de perspectiva burguesa é também consequência da necessidade de mascarar contradições e de abrir mão da totalidade, repete-se nas artes o mesmo fenômeno que se observa em outros campos do pensamento.
Por outro lado, também por determinações materiais e com Sartre, é possível afirmar que sob o capitalismo Marx é um pensador insuperável. Os teóricos burgueses da utilidade marginal tentaram há mais de um século atacar a teoria do valor trabalho para, posteriormente, inviabilizar o marxismo; mas fracassaram: falseamento e mistificação têm limites. Repelidos os ataques de Jevons, Menger e outros marginalistas; o combate burguês ao marxismo mudou de estratégia, abriu mão do embate frontal e passou atacar aspectos específicos. Por exemplo: sem contrariar o sistema de Marx, Bresser Pereira faz um ataque pontual esforçando-se para mostrar que o que era contratendência transformou-se em tendência. Segundo Bresser1, a composição orgânica do capital deixou de ser crescente, a mecanização é evidente, mas o capitalismo teria sido capaz revolucionar a produção, em termos de valor (quantidade de trabalho acumulado) o capital constante não cresceria mais rápido do que o variável. Se a composição orgânica do capital não é crescente, a lei da queda tendencial da taxa de lucro cai por terra. Bresser apresenta dados que corroboram sua tese, mas reconhece a precariedade de suas fontes e a necessidade de aprofundamentos. Enfim, a hipótese da estabilização da composição orgânica do capital é plausível, ajudaria a explicar a longevidade do capitalismo, mas carece de melhor comprovação empírica. Infelizmente, nem pensadores e nem organizações marxistas têm se debruçado com afinco para provar empiricamente se a composição orgânica do capital é crescente, decrescente ou estável. A escassez de dados confiáveis e a necessidade de transformar as estatísticas burguesas em categorias marxistas dificultam a aferição da evolução da composição orgânica do capital, mas, trata-se de tarefa fundamental para os que querem compreender a dinâmica do modo de produção capitalista. O desconhecimento dos movimentos da composição orgânica do capital prejudica muito a compreensão teórica dos revolucionários.
Mas, ainda que a composição orgânica do capital seja estável ou decrescente, as crises capitalistas continuam a se repetir. Como explicar o aparente paradoxo? Há em Marx dois caminhos para compreender as crises capitalistas, um via aumento da composição orgânica do capital e queda tendencial da taxa de lucro, outro através do aumento do preço do capital variável.
Luta de classes e crise
Antes de discutir as duas vias para crise é preciso fazer uma pequena digressão categorial. O método marxista parte do abstrato para o concreto, o grau de abstração vai se reduzindo à medida que o pensamento avança. Na obra máxima de Marx, O Capital, a cada página se avança um passo no difícil caminho que liga o abstrato ao concreto. No livro I, as mercadorias se relacionam em termos de trabalho abstrato acumulado (valor), é somente no livro III que os valores se transformam em preços. Para compreender a dinâmica capitalista é fundamental entender a transformação dos valores em preços e as especificidades destes últimos.
A variável fundamental no modo capitalista de produção é a taxa de lucro, que, por sua vez, é produto da divisão da mais-valia (m) pela soma do capital constante (c) com o capital variável (v).
Taxa de lucro = Mais-valia (m)/Capital constante (c) + capital variável (v)
Ou seja, a taxa de lucro é uma porcentagem obtida após a divisão do excedente expropriado (mais-valia) pelo capital empregado (variável e constante). Considerando a equação acima, a queda da taxa de lucro pode ocorrer via redução do numerador (mais-valia), ou através do aumento das variáveis do denominador (capital constante e/ou capital variável).
No sétimo capítulo do livro I do Capital, Marx insere a categoria taxa de mais-valia, ou taxa de exploração, que surge da divisão do trabalho expropriado pelos salários:
Taxa de mais-valia = Mais-valia (m)/Capital variável (v)
A luta de classes é o motor da história e da taxa de mais-valia. Se o cabo de guerra da luta de classes pende para o lado capitalista, crescem as taxas de mais-valia e de lucro; mas, se os trabalhadores conseguem impor suas reivindicações salariais, cresce o capital variável, diminui a mais-valia e, consequentemente, a taxa de lucro. Ou seja, é possível compreender a queda da taxa de lucro e a crise a partir do aumento do capital variável em relação à mais-valia, mesmo sem que ocorram aumentos significativos do capital constante.
Crise estrutural. Aumento da composição orgânica do capital. Redução da taxa de lucro
A taxa de lucro é variável fundamental do capitalismo. Aumentos da taxa de lucro determinam a ampliação dos investimentos e da produção. Reduções da taxa de lucro implicam na diminuição dos investimentos e em crises. A questão fundamental é determinar a causa da redução das taxas de lucro: aumento da composição orgânica do capital, ou redução da taxa de mais-valia, ou as duas coisas ao mesmo tempo?
Se a redução da taxa de lucro se explica pelo aumento da composição orgânica do capital, é possível falar em crise estrutural2. Os capitalistas podem tentar reverter a queda dos lucros aumentando a taxa de exploração, mas a extração de mais-valia tem limites. Além disso, partindo da suposição de que o capital constante custa mais que o variável (o que ocorre na maioria dos ramos de produção), para compensar a redução dos lucros causados pelo aumento da composição orgânica, os capitalistas precisariam aumentar a taxa de mais-valia em porcentagens maiores que as de crescimento da composição orgânica, o que é inviável no longo prazo. Ou seja, aumentos das jornadas de trabalho (mais-valia absoluta) e/ou da intensidade do trabalho (mais-valia relativa) são incapazes de compensar a elevação da composição orgânica do capital. No limite só restaria um recurso aos capitalistas, revolucionar a produção barateando o capital constante e, consequentemente, fazendo diminuir a composição orgânica do capital.
As revoluções industriais baratearam máquinas e matérias-primas (capital constante), reduziram, dessa forma, a composição orgânica do capital e aumentaram as taxas de lucro. Foram, portanto, imprescindíveis para a sobrevivência do capitalismo. No limite, se a crise atual é realmente estrutural, somente uma nova revolução industrial ou tecnológica será capaz de conceder sobrevida ao modo capitalista de produção.
Guerras imperialistas são úteis para batear matérias-primas (petróleo entre outras) e aumentar lucros. Não é à toa que a rapinagem capitalista esteja mais aguçada do que nunca. Por outro lado, ainda que as expropriações imperialistas concedam algum fôlego para as burguesias dos países centrais, não serão suficientes para redimir o capitalismo. As guerras redistribuem os recursos entre as burguesias. Considerando a totalidade capitalista, trata-se de um jogo quase que de soma zero e de efeito limitado no longo prazo. As burguesias imperialistas ganham algum fôlego com suas guerras de rapina, que não redimem o capitalismo no longo prazo.
Já a ampla destruição de capital através de guerras entre países imperialistas é uma possibilidade remota, e que, além disso, não é uma ferramenta que possa ser utilizada pelas burguesias: os armamentos estão desenvolvidos a ponto de colocar em xeque a vida no planeta e, principalmente, os investimentos estão espalhados por diversos países, com uma guerra interimperialista os burgueses destruíram seus capitais investidos do outro lado das trincheiras. Sendo assim, guerras entre países imperialistas não devem ocorrer no curto prazo, os mais provável é que estes continuem formando coalizões para saquear estados menos submissos, como ocorreu na Líbia.
Ou seja, ainda que a exata evolução da composição orgânica do capital não seja plenamente conhecida devido à falta de comprovação empírica, é certo que os países imperialistas manterão e ampliarão as guerras de pilhagem. A expropriação de matérias-primas e, consequentemente, o barateamento do capital constante é fundamental na atual conjuntura. 

Líbia bombardeada

Crise cíclica. Redução da taxa de mais-valia. Queda dos lucros.
 O conceito de crise cíclica está presente na obra Marx, ele explica as crises periódicas do capitalismo principalmente a partir dos movimentos da taxa de mais-valia, e não do crescimento da composição orgânica do capital. Esquematicamente, é possível dizer que para Marx as crises periódicas ocorrem devido à redução da taxa de mais-valia; mas a crise final/terminal3 do capitalismo viria da redução dos lucros causada pelo aumento da composição orgânica do capital. A autópsia do cadáver carcomido do modo de produção capitalista indicaria o aumento da composição orgânica como causa mortis.
Mas Marx não estabelece temporalidade na evolução e no colapso do capitalismo. Para ele o aumento da composição orgânica é uma tendência com contratendências e sem data fixa para prevalecer. E não era possível levar o conhecimento científico para além deste ponto, nem Marx nem nenhum outro pensador teria condições de antecipar o caráter da evolução das forças produtivas e as consequências destes avanços.
Por outro lado, se Marx não data a crise final do capitalismo, ele deixa claro que as crises cíclicas tendem a se repetir em intervalos cada vez menores. Como foi dito acima, a análise de Marx parte dos valores para chegar aos preços, que tendem a variar sem se afastar muito dos primeiros. Repetindo: a taxa de lucro é obtida dividindo-se a mais-valia pela soma do capital constante mais o variável.
 Taxa de lucro = Mais-valia (m)/Capital constante (c) + capital variável (v)
Quando a taxa de lucro cresce, os capitalistas reinvestem na produção. A necessidade de empregar mais trabalhadores reduz o exército industrial de reserva, os preços dos salários aumentam, reduzem-se proporcionalmente as taxas de mais-valia e de lucro. Até que, no limite, os aumentos salariais inviabilizam novos investimentos: inverte-se o ciclo, irrompe a crise. Basicamente é esta a dinâmica das crises cíclicas. Vale ressaltar que o crescimento dos investimentos produtivos também podem elevar os preços das matérias-primas (capital constante) rebaixando os lucros, este movimento é semelhante ao aumento dos salários (capital variável). Como este último aumento do capital constante é pontual e cíclico, não é correto interpretar a consequente redução dos lucros como crise estrutural do capital, não há um determinante estrutural na elevação dos preços do capital constate. Ao diminuírem os investimentos e a demanda por matérias-primas, o preço destas diminuirá possibilitando a abertura de um novo ciclo de crescimento.
Crise atual
No segundo semestre de 2008 as bolsas de valores começaram a fazer água, grandes instituições financeiras pediram concordata, o desemprego cresceu... Crise! No momento em que a economia parecia operar com força total veio o solavanco e a guinada para o fundo do poço. O colapso súbito sugere que o mais correto é caracterizar a crise como cíclica. A economia cresceu reduzindo o exército industrial de reserva e aumentando os salários. Além disso, a expansão ampliou a demanda por matérias-primas, os preços destas se elevaram4. O duplo movimento para cima dos capitais constante (matérias-primas) e variável (salários) freou a expansão das taxas de lucro, os reinvestimentos produtivos estancaram e iniciou-se a espiral recessiva: menos investimentos reduzem o emprego, o consumo diminui, reduzem-se ainda mais os lucros e a economia caminha para o fundo do poço. A retração se encerra quando a recessão barateia matérias-primas e salários a ponto de viabilizar investimentos, as taxas de lucro começam a se recuperar à medida que a economia se aproxima do fundo do posso.
Se a economia capitalista realmente funcionasse regida pelas mãos invisíveis do mercado, as oscilações conjunturais seriam bruscas, os movimentos do topo para o fundo do poço seriam muito mais recorrentes e radicalizados. Entretanto, somente os palpiteiros meia-boca acreditam no livre funcionamento do mercado, que só funciona nas telenotícias da mídia apologética. Depois de Keynes, a burguesia aprendeu definitivamente que, se quiser se mante, precisará utilizar o estado para intervir na economia regulando os investimentos.
Comparando a Grande Depressão de 1929 com a crise de 2008, salta aos olhos a diferença na forma como as burguesias responderam à queda na atividade econômica. Em 1929 empregaram-se políticas de contenção de gastos semelhantes às que são recomendadas atualmente pelos neoliberais, aprofundou-se a crise. Em 2008 utilizaram-se políticas totalmente diferentes, toneladas de dólares e outras moedas foram lançadas na economia, os estados tentaram fortalecer a demanda para evitar a quebradeira geral, alcançaram parcialmente seus objetivos, o pior não aconteceu naquele momento, mas o endividamento público disparou. Três anos depois a crise volta a rugir nos calcanhares da burguesia. Os estados nacionais, imperialistas inclusive, estão em dificuldades para pagar suas dívidas.
Analisando a economia dos EUA no período que vai do início da crise atual (2008) até a presente data (2011), percebe-se que não houve uma significativa ampliação da utilização da capacidade instalada, que permanece abaixo da sua média histórica. O desemprego continua alto. Ou seja, não houve uma recuperação significativa que permita diferenciar o ciclo de retração atual do ocorrido há três anos. A forma da crise pode ter mudado, mas sua essência é a mesma. Não houve um ciclo de recuperação e ampliação da acumulação que permita se falar em nova crise, os keynesianismos de 2008 impediram que a economia despencasse para o fundo poço, o que vai ocorrer em algum momento5. Para garantir um ciclo de expansão da acumulação, o capitalismo precisa partir do fundo do poço da crise. Um novo ciclo expansivo não é possível porque a crise ainda não se realizou em toda sua potencialidade.      
O tempo ruge e urge. Apesar dos keynesianismo, o acerto de contas se aproxima, o dinheiro transgênico das impressoras estadunidenses não será suficiente para alimentar o capitalismo. A destruição de capital observada até agora não foi suficiente, o canibalismo da burguesia deve se aprofundar. Capitais e homens precisam ser destruídos para que seja possível retomar um ciclo de crescimento. Esta é a principal lição de 1929.
Quanto à crise atual, percebe-se que foram mecanismos de mercado que elevaram salários (capital constante) e matérias-primas (capital constante). O capital em seu movimento ascendente reduziu o exército industrial de reserva e os estoques de matérias-primas, elevando os preços de ambos, até que se inviabilizou a continuidade da expansão. Entretanto, não é correto definir a crise como estrutural, o capitalismo não se encontra num beco sem saída estruturalmente determinado. Apesar das dores do parto e dos homens, os investimentos capitalistas serão retomados após as desvalorizações das matérias primas e dos salários. Não há nenhum imperativo estrutural que impeça um futuro ciclo expansivo.   
Conclusão
O modo de produção capitalista é composto por tendências e contratendências. A interação destas forças estabelece arranjos pontuais. O real concreto é móvel e inacessível ao pensamento estático e unidimensional. Marx formulou as categorias-chave para a compreensão da concretude real em movimento, mas permanece o desafio de fortalecer a base empírica da análise marxista.
Como já foi dito, a crise é fundamentalmente redução da taxa de lucro, que, por sua vez, pode se manifestar das seguintes maneiras: redução da taxa de mais-valia, ou aumento da composição orgânica do capital, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Ocorre que o aumento da composição orgânica do capital (c/v) pode ter duas origens. Marx separa o capital constante em dois grupos: capital constante fixo (máquinas e equipamentos que transferem valor às mercadorias à medida que se depreciam) e capital constante circulante (insumos e matérias-primas que transferem todo seu valor às mercadorias).
Assim sendo, é possível reescrever as equações da composição orgânica do capital e da taxa de lucro:
Composição orgânica = Capital constante fixo + Capital constante circulante/Capital variável
Taxa de lucro = Mais-valia/Capital variável + Capital constante fixo + Capital constante circulante
A queda das taxas de lucro a partir de 2008 ocorreu devido ao aumento de duas variáveis da equação: matérias-primas (capital constante circulante) e salários (capital variável). A redução do exército industrial de reserva e os altos preços das matérias-primas nos momentos imediatamente anteriores à explosão da crise de 2008 sustentam essa tese. Sendo assim, é correto definir a crise atual como cíclica. Ou seja, o crescimento da acumulação elevou os preços do capital variável e do capital constante circulante a níveis proibitivos. Caíram os lucros e novos investimentos foram inviabilizados. Irrompeu a crise.
Para que ocorra um novo ciclo de expansão é preciso baratear o capital variável (salários) e o capital constante circulante (matérias-primas). Entretanto, como a crise explodiu principalmente nas economias centrais, suas proporções são muito maiores6. As burguesias imperialistas adotaram keynesianismos contra a crise, diferentemente do que receitam para os outros. As medidas empregadas foram capazes de evitar o tombo para o fundo do poço em 2008, mas, por outro lado, o acerto recessivo necessário ainda não ocorreu. É isso que explica a crise de 2011. Ainda que não seja possível estabelecer datas e prazos, é certo que virão novas falências, concordatas e quebradeiras.
Resta, por fim, uma interrogação: por que dessa vez a parada cardíaca atingiu o coração do capitalismo mundial? Arriscarei uma resposta parcial e provisória utilizando os poucos dados que tenho e a teoria da transformação de valores em preços7.
No capítulo XXIII livro I do Capital, Marx apresenta a categoria composição técnica do capital, que é a proporção em que os diversos ramos de produção se utilizam de capitais constantes (valor dos meios de produção) e variáveis (valor da força de trabalho). Como somente este último gera valor, as taxas de lucro tendem a ser maiores nos ramos de produção que empregam grandes proporções de capital variável. Mas as altas taxas de lucro atraem investimentos capitalistas, aumentando a oferta dos ramos de produção mais rentáveis, os preços e lucros caem, até que estes se igualem à média social. Nos ramos de produção que empregam grandes proporções de capital constante ocorre o inverso. As taxas de lucro são baixas, o que obriga o capital a procurar investimentos mais rentáveis, diminuindo a oferta e aumentando os preços e lucros, até que estes se igualam à média social. Ou seja, os preços tendem para baixo do valor nos ramos de produção intensivos em capital variável; inversamente, nos ramos de produção intensivos em capital constante, os preços tendem para cima dos valores.
A falta de uma base empírica consistente limita as possibilidades de análise, mas é coerente supor que os ramos de produção mais avançados sejam os que empregam proporcionalmente mais capital constante. É igualmente plausível supor que estes setores estão nas economias imperialistas. Por outro lado, os ramos mais intensivos em capital variável se deslocaram para a periferia capitalista. A China é sem dúvida o principal exemplo deste deslocamento. Sendo assim, é plausível afirmar que os ramos de produção que elevam a média social das taxas de lucro foram transferidos para fora das economias imperialistas, o que ajuda explicar a redução da rentabilidade e a crise no coração do capitalismo. Ainda que parte da produção deslocada para China e outros países periféricos seja tocada por empresas estrangeiras, o argumento não se inviabiliza. Parte da mais-valia expropriada é reinvestida localmente e não retorna para as economias imperialistas. Além disso, a massa salarial deslocada para os países periféricos enfraquece o consumo nas economias centrais. Sendo assim, o deslocamento dos setores intensivos em capital variável para fora das economias imperialistas empurra a crise para dentro destas.
Mas o deslocamento de capital entre países tem limite. O exército industrial de reserva chinês é grande, mas não infinito. Tem caído a rentabilidade dos investimentos na China, os baixos salários são quase insuficientes para compensar a reduzida produtividade. Ressalte-se que, considerando o grau de exploração do trabalho chinês, é impossível imaginar reduções salariais e/ou aumentos da produtividade.
Pelo que escondem, todas as analogias são perigosas. Com essa ressalva e assumindo riscos, registremos que as economias dos EUA e da China são siamesas, uma não existe sem a outra. O declínio da acumulação nos EUA e outros países imperialistas causará impacto semelhante na China e demais economias periféricas.
Enfim, considerando que o acerto de contas dos capitalistas com a crise ainda está pendente, é fácil prever que a luta de classes vai se acirrar no planeta. O difícil é a vida e seu ofício: o difícil é formular a estratégia e as táticas coerentes com o tempo presente.

Notas
1º) Bresser desenvolve essa argumentação na obra Lucro, acumulação e crise, que, descontando a perspectiva ideológica, vale à pena ser consultada.
2º) A categoria crise estrutural está associada à impossibilidade de restabelecer as taxas históricas de lucro capitalista. Para Mészáros e outros teóricos, a crise estrutural do capital teve início no começo dos anos 1970. Para estes pensadores a elevação da composição orgânica do capital é a causa fundamental da crise. É neste sentido que emprego a categoria crise estrutural. Aproveito para registrar que discordo dessa formulação e que a mesma não está presente na obra de Marx, o quenão a inviabiliza a priori. A maior debilidade da categoria crise estrutural é que, para ser real, as forças produtivas precisariam estar contidas, entretanto, é nos anos 1970 que começam a surgir inovações como a microinformática e a biotecnologia. Ou seja, a crise estrutural do capital é contemporânea de inovações que revolucionaram a produção e que tendem a barateá-la. Outro ponto fraco da ideia de crise estrutural é a base comparativa utilizada, o período 1945 – 1968 é comparado com os últimos 40 anos, como as taxas de expansão da acumulação capitalista não se mantiveram depois de 1968, afirma-se que o capitalismo vive uma crise estrutural. Entretanto, sabe-se que o período 1945 – 1968 registra o maior crescimento percentual da história do capitalismo, ou seja, a base de comparação inviabiliza a análise.
3º) Emprego o conceito de crise final/terminal como potencialidade da crise estrutural, apesar de não concordar nem com uma e nem com a outra. Trata-se apenas de tentar desenvolver argumentos de terceiros. Aproveito para registrar que a ideia de que o modo de produção capitalista caminha de encontro a limites estruturais não é exclusiva de Marx, décadas antes Ricardo já a formulava, ainda que não nos mesmos termos, para o economista inglês a inelasticidade da oferta agrícola limitaria a expansão capitalista no longo prazo.
4º) A elevação do preço das matérias-primas nos últimos anos foi o que impulsionou o crescimento da economia brasileira. A demanda externa (principalmente chinesa) por matérias-primas elevou os preços das exportações brasileiras como nunca antes na história desse país. O governo neoliberal e farofeiro de Lula da Silva aproveitou-se da conjuntura externa favorável, surfou na marolinha e tomou sol na ilusória praia da bonança capitalista. A desindustrialização do país foi compensada pela elevação do preço de suas exportações. Só faltou Lula repetir o dito de Keynes: no longo prazo estaremos todos mortos!
5º) A burguesia pode tentar “parcelar” a crise em um longo período de estagnação como forma de reduzir quebradeiras, falências, desemprego etc. Mas é pouco provável que a teoria econômica disponha de instrumentos para empurrar a crise com a barriga por muito tempo.
6º) Por ocorrer no coração do capital, o enfarte é muito mais letal e fulminante, mas não deixa de ser um enfarte. A crise a atual, como outras tantas, é uma obliteração momentânea das artérias do capital. Se estas forem desobstruídas a acumulação se restabelecerá. Como as analogias são perigosas, esclareçamos que os enfartes não são mortais para o capitalismo como são para humanos. Para matar o capitalismo é preciso cravar-lhe uma estaca proletária no peito.
7º) Em Marx a transformação de valores em preços depende dos deslocamentos do capital entre os ramos de produção. Estes movimentos são possíveis em sociedades capitalistas jovens, ainda baseadas no que a microeconomia chama de concorrência perfeita. Entretanto, à medida que se estabelecem oligopólios e monopólios, os movimentos do capital ficam restritos, surgem barreiras à entrada e à movimentação. Marx previu este processo, chamou de centralização do capital a formação dos monopólios e oligopólios. Entretanto, se há barreiras à movimentação do capital, as taxas de lucro não serão as mesmas nos diversos ramos de produção, a rentabilidade nos setores monopolizados serão maiores.