sábado, 25 de dezembro de 2010

DEUS NÃO MORREU, MATOU-SE! O SUICÍDIO DO GRANDE CASTRADOR.
Os homens foram criados à imagem e semelhança de deus, porém uns mais que os outros. Paul Lafargue, André Gorz, Ernest Hemingway, Wladimir Maiakovski, Virginia Woolf, Mario Monicelli e Torquato Neto entre os mais semelhantes. Seres humanos são antes de tudo criaturas criadoras, que se fazem e desfazem continuamente. Mas se por definição uma criatura é um ser criado, como lhes pode ser permitida a criação e seu contrário, a destruição? Ainda mais porque a capacidade destrutiva humana implica na negação da criação divina. O auto-assassinato humano, por exemplo, nega a onipotência divina em sua maior dimensão, a concessão da vida. A condenação aberta do suicídio pela maioria das religiões nos diz muito. O mínimo que se pode afirmar é que existe algo como um Complexo de Édipo entre homens e deuses. Sísifo e Prometeu que o digam.
A relação com deus é duplo: ame-o ou deixo-o. Deus é o limite, para bem e para mal. É o grande sintetizador na medida em que pode representar o princípio, a unidade e a mediação; mas, pela mesma razão, é também o grande castrador já que oferece uma solução externa e inacessível aos homens. À humanidade caberá castrar deus ou ser por ele castrada. A divindade é a pedra no caminho do fazer e desfazer-se humano, é o limite. Alguns caminharão para o deicídio, outros se anularão nos braços do criador.
Das duas uma, ou deus não é onipotente ou aos homens não se concedeu o livre-arbítrio. Pela simples razão de que uma opção inviabiliza a outra. O livre-arbítrio humano tende a chocar-se com a onipotência divina.
Na concepção cristã as implicações deste problema são demolidoras. Para haver pecado é preciso existir livre-arbítrio e escolha, mas assim abre-se a possibilidade de se negar inclusive o próprio criador.
Uma questão quiçá mais interessante do que determinar a medida do livre-arbítrio humano é mensurar a autonomia criativa de deus, que teria forjado a possibilidade da sua própria negação: o homem. Como o livre-arbítrio é sempre relativo a algo, seríamos forçados a terceirizar ou hierarquizar a divindade. Mas suponhamos o pior, quais a implicações de imaginarmos um deus todo poderoso e livre de qualquer arbítrio que lhe fosse externo? Como o deus cristão. Se assim fosse, deveríamos cobrar-lhe a conta de todas as chagas do mundo, incluindo os campos de concentração, Hiroshima, Nagasaki, Gaza e por aí vai. Se o homem escolhe o pior é porque essa opção lhe foi disponibilizada pelo criador.
O contrário dessa obviedade é o cinismo mais meia-boca, ultra-hollywoodiano, que consiste em afirmar que todo mal deriva unicamente das escolhas humanas. Transforma-se deus no mocinho redentor e os homens em vilões. Mas a questão é: quem criou a possibilidade de escolha humana? Quem colocou o ovo de serpente no cesto? Deus é um pai que deixou um revolver entre os brinquedos de seu filho. A quem responsabilizar pelo crime cometido com esta arma?
O protagonismo de deus é duplo: primeiro suicida em potencial da história e guru da auto-ajuda. Matou-se ao criar o seu assassino: homem. Por outro lado, inaugurou a arte do auto-engano, conhecida atualmente por auto-ajuda, e que consiste em acreditar no que é mais conveniente. Como na canção: “não há crença sem recompensa.” Crença e recompensa se tornam diretamente proporcionais, e utilitaristas. A crença religiosa não é um em-si é um para-íso. Abolido este, extingue-se aquela. Quem perderia tempo rezando à toa? Deus existe na exata medida em que o crente carece de graça.
Da poesia à literatura, o Complexo de Édipo homens-deuses deixou marcas. Millôr Fernandes indagou: “Mestre, respeito o Senhor, mas não a Sua Obra; que Paraíso é esse, que tem cobra?” Mas é nas páginas de Dostoievski que a relação edipiana vai aos píncaros, na fábula de Ivã Karamazov, o Grande Inquisidor, em nome de um determinado projeto de humanidade, condena o representante de deus na terra.
O livre-arbítrio humano é tão livre que chega a aprisionar-se, tão amplo que fabricou o próprio deus, não sem desconstruí-lo depois, num contínuo fazer-se desfazendo-se. Enquanto a crença em deus é utilitarista, posto que fundamentada nos prêmios futuros; a sua mais firme negação é ética, não negocia princípios, recusa uma criação que admite o mal em nome da redenção futura, os fins não justificam os meios.
No caminho da desconstrução, seguindo os passos de Ivã Karamázov, Albert Camus recusa a salvação: deus não existe, mas isso pouco importa, não são legítimas as benesses oferecidas por uma divindade que aceita o mal em sua criação. Recusar a salvação torna-se um imperativo ético.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

DUAS VEZES RONALDO

Como seria um craque platônico? Entidade fundamental da qual os demais seriam cópias desgastadas e inferiores. Teria a elegância de Falcão e Ademir, o encanto de Maradona e Mané, a capacidade de decisão de Pelé?

Já que estamos no campo gramado das idéias, imaginemos o embate de um craque platônico contra uma defesa também ideal, um antecipando os movimentos da outra e vice-versa. Destruição contra criação. Pior que isso. E se existissem goleiros platônicos? A bola jamais entraria? Agora o pior dos mundos. E se houvesse um árbitro ideal? Que nunca errasse? Quem culparíamos nas derrotas?

Voltemos para os terrões do mundo real. O futebol é tão includente que elege figuras díspares como um Sócrates e um Romário, um Djalminha e um Kaká. Mais do que isso. Elege inclusive o acaso, que não cabe no mundo platônico. O futebol é essencialmente humano e, consequentemente, antiplatônico. Se visitados por seres extraterrestres, o melhor que faríamos seria convidá-los para uma pelada. Obviamente que a esquadra humana não deve ser formada com os engenheiros pernetas da Nasa, para não causar má impressão nos ETs. Perder em casa (Terra) é sempre complicado.
           
Mas voltando ao craque. O que define esta entidade misteriosa? É um ser tão arisco que dribla inclusive as definições. Mas arrisquemos um desarme: o craque é um insubordinado, sua arte consiste em subverter o encadeamento geométrico e previsível valendo-se do cálculo e da antecipação das coisas. É por isso que a tarefa de marcar e anular um craque é inglória, o marcador está sempre exposto à negação da negação.

O futebol é uma equação absurda. É uma relação de probabilidade entre uma infinidade de casos favoráveis e um imatematicável número de casos possíveis. O craque é o maestro disso tudo.

Exemplifiquemos. Estádio Urbano Caldeira, Vila Belmiro, onde dizem que jogadores mortos se encontram semanalmente para uma pelada noturna. 26 de abril de 2009, domingo à tarde, final do Paulistão. Chutão para o alto. A bola, que não é boba, procura Ronaldo, que relativizando a lei da gravidade, a apara sem perder a passada e o movimento, como um pai que arremessa o filho para o alto segurando-o caprichosamente antes de tocar o chão. A pelota desce sem pressa, da direita para a esquerda, afastando-se do zagueiro mais próximo e se ajeitando para o afago letal, do lado oposto e longe do marcador. O lateral direito tenta chegar pelo flanco, mas é inútil. O domínio do craque e o movimento do seu tronco foram precisos. Ronaldo e bola caminham como namorados, de mãos dadas; e felizes, como um dono e seu cão (e os casais de namorados no começo do relacionamento). Depois de amortecer a queda da redonda com o pé direito, vem o arremate fatal de esquerda. Bola na rede. Zagueiro, lateral e goleiro são reduzidos a figurantes.

No mesmo dia e local, alguns minutos depois, um marcador recupera a bola no meio campo e lança Ronaldo. Contra-ataque em velocidade. É a jogada mais mortal do craque. Sabendo disso, o goleiro se adianta para impedir o avanço. Antieclidiano, Ronaldo corta para trás, o arqueiro fica no meio do caminho (como a pedra do poeta). O marcador passa batido. Com mais um pequeno mimo de direita na pelota, o marcador está definitivamente fora de combate, a meta se abre para o craque (como se fosse a máquina do mundo). Vem um leve empurrão de esquerda por baixo. Encantada, a redonda esboça uma parábola, cobre o goleiro e descansa nas redes, como se arremessada por um jogador de basquete.
           
Quase tudo se consegue com treino e dedicação, inclusive nos nobres campos da poesia, que reconhecidamente exige mais transpiração do que inspiração. Já nos campos de futebol é diferente, para se fazer um gol de placa é preciso ter pé de moleque.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O GRITO

O rapaz recém separado largou tudo para morar num conjunto habitacional na periferia da cidade – mas isso é o menos importante, até porque ele estava contente e feliz. A periferia e o trem cheio não eram bichos de sete cabeças, dava pra tirar de letra. A temida violência também não era coisa de outro Mundo, conforme ele pensava, ladrão não costuma roubar peão.
E tudo seguia bem, exceto um detalhezinho, exceto um fato que a teoria e a estatística antecipavam, mas que não se observava no antigo bairro do rapaz. Sim. Havia um time verdadeiramente do povo, e não era o do rapaz. Isso o constrangia um pouco. Ele queria se integrar totalmente naquela comunidade que o recebia bem e que ele respeitava, mas havia esse problema. Havia o time do povo, que não era o dele.
Presenciou vitórias do time do povo, e alegrava-se sempre, pela simples razão de que todos ficavam felizes. Os gritos e as explosões de alegria contagiavam o rapaz, que até chegou a ter vontade de comemorar também.
Mas ele lembrava-se de seu nome – derivado de jogadores de seu time do coração – e se reprimia. Lembrava-se das façanhas de seu time – poucas vistas e muitas contadas por seu pai – e se reprimia. Lembrava-se da primeira vez que viu seu time campeão – justamente em cima do time do povo – e se reprimia. Enfim, não comemorava os gols do time do povo, mas se alegrava vendo a vibração nas janelas, nas ruas, calçadas...
Só que havia um probleminha. No fundo do coração do rapaz havia uma dor, todas as vitórias do time do povo, toda aquela alegria não podia compensar a falta de vitórias do seu próprio time, que já acumulava três tropeços. O moço chegou a pensar que seu time poderia ser o do povo, seria maravilhoso. Mas isso não era verdade, era preciso encarar a realidade. Seu pai não poderia ter contado aquelas façanhas para todos os filhos do povo.
Ok. Que fosse assim. Mas, no fundo no fundo, o rapaz sentia muita necessidade de mostrar que seu time também era amado, ainda que não fosse o do povo, e apesar dos tropeços.
Eis que um dia os times do moço e do povo jogaram no mesmo horário, por campeonatos diferentes, mas no mesmo horário. O rapaz ouvia o jogo no radinho, e torcia dentro do trem, balançava os braços e gesticulava. Pensava que o trem era um ótimo lugar para demonstrar amor por um time. Mas terminou a primeira etapa, terminou a viagem e o gol que garantiria a classificação não veio.
O moço acelerou os passos e chegou em casa para assistir a segunda etapa da partida. Mas... Logo de início a decepção. Todos os canais de TV transmitiam o jogo do time do povo. O rapaz sentiu um aperto no peito, sentiu-se minoria. Pensava nos craques que jogaram por seu time, pensava no seu pai torcendo do outro lado da cidade. Aí pensou em ouvir a partida pelo rádio novamente, mas não teve forças, o adversário parecia estar sempre a meio caminho do primeiro gol, que seria fatal.
Decidiu acompanhar tudo pela internet, porque um gol sofrido pela rede de computadores dói menos que um sofrido pelo rádio, apesar de se saber que a rede balançou da mesma forma. É como uma injeção letal, um 1 x 0 pela net seria uma morte sem dor. Então abriu no computador uma tela com os resultados da rodada e as informações atualizadas: tempo, comentários, placar...
Alguns minutos depois houve uma explosão de alegria no conjunto habitacional: xingos, fogos, gritos... Era gol do time do povo. E o computador depois atualizou e confirmou a intuição. O tempo passava rapidamente. O time do moço não levava gols, mas não os fazia também, e a classificação ia ficando com o adversário. E então mais xingos, mais fogos, mais gritos... Outro gol do time do povo, pensava o angustiado rapaz com seus botões. E pouco depois o computador confirmou as suspeitas.
Havia alegria no bairro. Mas o moço estava amargurado. Um golzinho! Só um golzinho! O rapaz queria mostrar seu amor também, queria mostrar que seu time também existia. Mas o cronômetro passava dos 40 e nada. Ele não conseguia mais se manter parado em frente à tela, levantava-se, ia da sala pra cozinha e voltava. Os pensamentos se sucediam. Que histórias do seu time ele contaria? De quais craques falaria? De que vitórias? Haveria um dia somente o time do povo?
E então ele ouve outros gritos. Eram meio estrangulados, meio distantes, meio roucos. Pensou que aqueles não eram gritos de gol do time do povo. É preciso velocidade. O rapaz corre pro rádio, ouve do locutor. É gol:
- Goooooooooooooool!
 Que golaaaaçoooo! Um petardo aos 42 do segundo tempo!
O rapaz vai do rádio pra janela, descontrolado. O verbo se fez carne, a carne se fez verbo, se fez berro, se fez festa, se fez grito:
-  É goooooooooooool! Goooooooooooool! Gooooooooooooooooooool!

domingo, 12 de dezembro de 2010

A DERROTA DA CARETICE
A primeira lembrança que carrego da vida remete a 1982, lembro-me do quintal de casa, de rojões e depois lágrimas. Como é estranho ver lágrimas nos olhos daqueles que estão no mundo para nos proteger, neste dia meu pai chorou. O Brasil de Zico, Sócrates, Falcão e outros encantou e perdeu para a Itália de Paolo Rossi.
Não me recordo do jogo em si, mas aquelas lágrimas me marcaram muito. No futebol se ganha e se perde, é certo, e sempre há o recurso de culpar algo ou alguém, um juiz, um técnico, um goleiro... Então culpamos o futebol bem jogado, ofensivo. Daí os Lazaronis, Parreiras e Dungas que viriam depois.
Passados vinte e oito anos, e seis Copas do Mundo, outra derrota, mas sem encanto e magia, um Brasil melancólico perdeu para uma Holanda medíocre. Aqui surge uma primeira constatação: seleções retranqueiras e pragmáticas também perdem. Segunda constatação: seleções brasileiras de "bons moços" (muitos atletas de cristo) como a de 2010 são derrotadas também. Não nos esqueçamos disso.
Mas perdem sem arrancar lágrimas. Por quê? Talvez porque apenas nos faz chorar aquilo que nos emociona. Por isso derramamos lágrimas em 1982 e 1950, pela razão inversa não choramos em 2010. Outra constatação: exijo o direito de chorar em nome do futebol. Mas para isso precisamos dribrar, gingar, brincar, fintar... porque é assim que se joga nas praias, nos terrões e nas ruas do Brasil.
Por que a seleção brasileira não faz como fazemos nas praias, nos terrões e nas ruas? Sim, ganharemos e perderemos. Mas pergunto: quem pode jogar com a magia brasileira? Ninguém. Salvo talvez nossos irmãos argentinos, repito, talvez, em alguns poucos momentos. Então joguemos com magia, choremos na tristeza e na alegria, mas choremos. Mais encantamento!
Futebol retranqueiro e cartorial é triste, não é brasileiro. Nosso jogo é alegre, vistoso, atrevido. Talvez por isso a derrota para a Holanda tenha sido tão insossa, o povo não se reconheceu na seleção covarde, careta e sem ousadia. Jogamos com três volantes de contenção, dois atacantes medianos e um excelente meia (Kaká), mas que estava machucado e não foi decisivo como de costume. O ponto alto da seleção era sua defesa, isso não é Brasil.
Enfim, perder ou ganhar é parte do jogo, mas um povo que renega sua cultura e suas características é um povo suicida. Sendo assim, guardemos a seleção ciborgue e siliconada de Dunga nas páginas do esquecimento.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010


REVOLUÇÃO MEXICANA

Introdução

As lutas revolucionárias e de libertação sempre se fizeram presentes no México, invasores estadunidenses, franceses e espanhóis foram combatidos no século XIX, no presente o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) luta nas montanhas de Chiapas e os movimentos sociais pelejam nas ruas de Oaxaca. A partir do desembarque dos invasores espanhóis a revolução social e a resistência sempre estiveram colocadas em terras mexicanas.

David Alfaro Siqueiros: A Nova Democracia (1954)


Porém, há exatos cem anos a insurgência mexicana atingia alto grau de intensidade. O ditador Porfirio Díaz mantinha o poder em suas mãos por décadas, não sem contestação, é bom que se diga. Os camponeses do sul já lutavam pela manutenção de suas terras comunais, o Partido Liberal Mexicano¹ (PLM) – de composição anarquista – promovia greves e movimentos guerrilheiros.
           
Mas foi a partir do final de 1910 que o processo revolucionário ganhou força. O líder anti-reeleicionista Francisco Madero havia se candidatado à presidência, mas foi preso e impedido de concorrer. Porfirio Díaz se reelegeu e Francisco Madero convocou a população à resistência armada. O levante teve início em 20 de novembro de 1910 às 18h. Combateram o ditador Díaz diversas forças: guerrilheiros anarquistas ligados ao PLM, setores da burguesia nacional descontentes e os exércitos camponeses de Francisco Villa e Emiliano Zapata. Porém, se o inimigo imediato dos combatentes era o mesmo, seus objetivos estratégicos eram diversos. Burgueses descontentes se insurgiam contra os interesses dos imperialismos estadunidense e europeu². Anarquistas pelejavam contra a propriedade privada, o capital e a igreja. Já o exército libertador do Sul, liderado por Emiliano Zapata, lutava contra a expropriação das terras comunais dos camponeses. A Divisão do Norte comandada por Pancho Villa combatia a exploração dos trabalhadores rurais e a concentração fundiária.

A heterogeneidade das forças revolucionárias coloca dificuldades para a compreensão do processo. A realidade mexicana é diferente da brasileira, apesar de também termos origens européias, indígenas e africanas, a proporcionalidade dos povos difere bastante. O México é mais indígena do que o Brasil, que é mais negro. Este fato se reflete na resistência dos dois povos, no sul do México o exército camponês, liderado por Emiliano Zapata, combateu a expropriação das terras comunais, herança dos povos indígenas. No Brasil a existência deste tipo de terras não é comum. Outra dificuldade de compreensão é a própria heterogeneidade da realidade mexicana, enquanto no sul os camponeses lutaram para garantir a posso de suas terras coletivas, no norte a luta esteve centrada na reforma agrária e na divisão dos latifúndios para os trabalhadores, em geral já assalariados, ainda que alguns recebessem em espécie e não em dinheiro. Além das diferenças regionais, saltam aos olhos as relações estabelecidas entre as forças políticas no contexto da Revolução. Como explicar o apoio dos operários de tendência anarquista da Casa do Obreiro Mundial (COM) às tropas constitucionalista/burguesas de Venustiano Carranza? Por que a COM não apoiou os exércitos camponeses revolucionários do Norte e do Sul? Por que os exércitos camponeses lutaram de forma tão pouco unificada? Qual foi a participação do Partido Liberal Mexicano na revolução?
           
Ao longo deste texto tentaremos lançar alguma luz sobre estas questões. Mas iniciemos com algumas palavras sobre a realidade mexicana imediatamente anterior à revolução para contextualizar os fatos.
           
A incorporação do México ao capitalismo mundial no século XIX ocorreu de forma dependente, exportando produtos primários e importando bens manufaturados. Os negócios mais rentáveis eram contralados por capitais europeus e estadunidenses. Os setores ferroviário e energético, as industrias extrativistas entre outros eram dominados quase que exclusivamente por capitais externos. Na industria têxtil o capital mexicano representava apenas 20% do montante total. Apenas nos segmentos tradicionais como a agricultura e o artesanato havia predominância de capital mexicano.
           
Os empregos industriais representavam 18% do total em 1900, caindo para 14% em 1910. A população mexicana era de aproximadamente 15 milhões de pessoas em 1910, sendo que, deste total, 9,5 milhões eram trabalhadores agrícolas sem terra, ou peones.
           
As propriedades comunais do sul e as pequenas propriedades do norte representavam um duplo obstáculo para o projeto de modernização conservadora e dependente das classes dominantes mexicanas. Por um lado, essas formas de propriedade limitavam a expansão dos grandes latifúndios; por outro, reduziam a mão de obra disponível, já que camponeses e indígenas retiravam seu sustento de terras próprias.      
           
É da resistência dos camponeses ao projeto de modernização conservadora e dependente das classes dominantes que surgiram as duas maiores forças revolucionárias mexicanas: a Divisão do Norte (Villa) e o Exército Libertador do Sul (Zapata). Essa resistência determinou a especificidade da Revolução Mexicana, camponeses e indígenas se lançam numa revolução não para transformar a realidade, mas para garantir suas formas tradicionais de vida que eram negadas pela penetração do capitalismo. Esta especificidade histórica determinou a concepção essencialmente agraristas dos guerrilheiros zapatistas e da Divisão do Norte. Estes últimos caminharam para posições antiimperialistas como a nacionalização das ferrovias e minas.
           
O movimento operário desenvolveu-se a partir da segunda metade do século XIX com a chegada dos primeiros anarquistas europeus. No início do século XX funda-se o Partido Liberal Mexicano (PLM), que partindo da negação da ditadura Díaz caminha para posições anarquistas através de Ricardo Flores Magón entre outros. O jornal Regeneración chega ter 20 mil assinantes e começa a incomodar a ditadura porfirista. Ricardo Flores Magón e outras lideranças do PLM são encarceradas. Depois de solto Magón vai para os Estados Unidos e acaba preso outras vezes. Mas o jornal Regeneración continua a ser publicado e a incomodar os poderes estabelecidos.
           
Em 1912, no contexto da luta revolucionária, nasce a Casa do Obreiro Mundial (COM), de tendência anarco-sindicalista, ao menos em seus primeiros anos. Contudo, apesar da existência do PLM, da COM e de sindicatos organizados, o movimento operário urbano não hegemonizou a revolução como no caso russo. A aliança operário-camponesa não se estabeleceu, ocorrendo o inverso, operários da COM se aliaram às forças burguesas de Venustiano Carranza e Alvaro Obregón contra Pancho Villa e Emiliano Zapata.
             
Considerando esta peculiaridade da revolução mexicana iniciemos nossa análise das forças revolucionárias.

Partido Liberal Mexicano (PLM)

Dada a contradição entre os substantivos anarquismo e liberalismo, comecemos com palavras esclarecedoras Ricardo Flores Magón:
           
“Não creio no Estado. Luto pela irmandade humana universal. Considero o Estado uma instituição criada pelo capitalismo para subjugar e explorar o povo. Todo dinheiro do Estado representa suor, angústia e sacrifício dos trabalhadores.[...] Quando morto meus amigos quiçá escreverão em minha tumba “aqui jaz um sonhador”. Meus inimigos poderão escrever “aqui jaz um louco”. Mas ninguém poderá inscrever “aqui jaz um covarde e um traidor de seus ideais.”

 Esclareçamos de início que Ricardo Flores Magón foi o principal quadro político do PLM, partido que surgiu no início do século XX como oposição liberal à ditadura conservadora de Díaz, mas avançou para concepções anarquistas como as expressas no parágrafo acima. Magón sempre rechaçou a santíssima trindade capitalista: propriedade, religião e estado. E foi coerente, nunca traiu seus ideiais. Recusou cargos políticos oferecidos por Francisco Madero. Foi preso pela última vez por publicar artigos antimilitaristas, terminou seus dias assassinado numa cadeia dos Estados Unidos, poderia ter manifestado arrependimento publicamente para ser libertado, mas se recusou a fazer concessões ao Estado capitalista.
           
O proletariado mexicano cresceu à medida que o país se desenvolveu. Trabalhadores mexicanos recebiam menos que os estrangeiros, especialmente os estadunidenses. Nesse contexto ocorreram greves significativas no ano de 1906.
           
Em 1º de junho explodiu a greve da Cananea Copper Company, em Sonora. Exigiam-se a redução da jornada de trabalho para oito horas, a elevação do salário mínimo e o fim da discriminação dos trabalhadores mexicanos. Como as tropas mexicanas estavam distantes dos grevistas, os rangers do Estado do Arizona foram chamados para reprimir os grevistas. Este fato causou indignação entre os mexicanos. A greve terminou após dois dias de enfrentamento dos grevistas com as forças repressivas mexicanas, entre 30 e 100 pessoas morreram. Militantes do PLM tiveram importante participação na greve da Cananea.
           
No começo de dezembro estourou a greve na fábrica e Río Blanco, em Veracruz. Os grevistas exigiam redução das jornadas de trabalho e pagamento de horas extras. Os trabalhadores atacaram os armazens da empresa e o presídio da cidade, todos os detentos foram libertados. Ocorreram confrontos armados que causaram a morte de 200 trabalhadores e 25 soldados. O PLM também teve participação na greve de Río Blanco.
           
Após estas duas greves o Partido Liberal organizou algumas experiências guerrilheiras sem grande sucesso, seus combatentes terminaram dispersos, mortos ou capturados. Demorou alguns anos para que o PLM tentasse lançar outras guerrilhas, o que aconteceu no contexto da Revolução Mexicana. Em 29 de janeiro de 1911, 18 guerrilheiros do PLM tomaram a cidade de Mexicali. As forças guerrilheiras cresceram para 60 e depois 120 homens, incluindo 40 estadunidenses. O escritor Jack London redigiu um manifesto de apoio à guerrilha. As forças revolucionárias chegaram a contar com 500 homens, sendo 100 estadunidenses, mas foram derrotadas no final de junho.
           
Com a radicalização do PLM a partir de 1906, o partido sofreu deserções. Vale lembrar que o próprio Francisco Madero – liberal e futuro presidente – chegou contribuir financeiramente com o Jornal Regeneración. O partido liberal perdeu força após a derrota dos seus guerrilheiros, em 1911. Quadros importantes, como os irmãos Magón, estavam encarcerados nos EUA, outros como Praxedes Guerrero foram mortos, um terceiro setor do PLM aderiu às forças de Madero. A partir de então Partido Liberal praticamente deixou de existir. Apenas o jornal Regeneración continuou a ser publicado.
           
A incipiência da classe operária mexicana no início do século XX determinou boa parte das limitações do PLM, não era possível que o movimento operário hegemonizasse o processo revolucionário. Por outro lado, da mesma forma que aconteceria posteriormente com os anarquistas da Casa do Obreiro Mundial, os magonistas não perceberam o potencial revolucionário da luta dos camponeses do norte e do sul. Em Villa, Magón não enxergava nada além de alguém que queria poder, o que não é verdadeiro. Quanto aos camponeses revolucionários do Sul, Magón não aceitou o convite de Emiliano Zapata para se instalar e publicar o jornal Regeneración em solo zapatista.     

Casa do Obreiro Mundial (COM)

No ano de 1912, nasceu a Casa do Obreiro Mundial (COM) pelas mãos de trabalhadores mexicanos e de imigrantes, principalmente espanhóis ligados à CNT. A COM foi uma confederação de sindicatos de tendência anarco-sindicalista, que tinha a ação direta como sua principal arma de luta. Além da ação direta, a COM também trabalhou com educação popular como ferramenta para a emancipação operária.
           
A Casa do Obrero procurou manter uma posição de independência em relação às forças envolvidas na Revolução Mexicana, posto que não se reconhecia totalmente em nenhuma delas.
           
O governo Madero combateu a COM prendendo suas lideranças mexicanas e expulsando militantes estrangeiros. Este governo também promoveu a Grande Liga Obrera para dimunir a influência da COM. Mas a força da Casa do Obreiro seguiu aumentando.
           
Em 1913, Madero foi derrubado e assassinado por Victoriano Huerta. No primeiro de maio desse ano a COM organizou uma marcha com cerca 20.000 para lembrar e homenagear os mártires de Chicago. Huerta respondeu com a detenção de lideranças e o fechamento da Casa do Obreiro.
           
Huerta foi derrotado em julho de 1914 pelas forças villistas (norte), carrancistas (centro) e zapatistas (sul). A Cidade do México chegou a ser tomada pelas forças zapatistas e villistas.
           
Apesar de não reconhecer suas demandas em nenhuma das três forças militares, a intensificação da luta exigiu um posicionamento da COM. As forças camponesas do sul e do norte, não estavam inseridas nas cidades e não expressavam totalmente as reivindicações do proletariado urbano. Os Zapatistas chegaram a propor a jornada de trabalho de oito horas, salário mínimo fixo, a proibição do trabalho infantil (menores de 14 anos) e a gestão por cooperativas das empresas abandonadas. Mas não contemplaram o controle da propriedade de estrangeiros, a igualdade entre trabalhadores mexicanos e estrangeiros, o direito de greve e a garantia de liberdade sindical.   
           
Além das questões programáticas, havia uma barreira significativa entre zapatistas e anarquistas, enquanto estes eram anti-clericais, aqueles eram bastante religiosos. Neste contexto, Carranza prometeu respeitar as demandas da COM, incluindo a liberdade de ação e organização, assim estabeleceu-se acordo entre as partes. Criaram-se os batalhões vermelhos, formados por operários e que combateram as forças camponesas de Zapata e de Villa.          
           
Ao contrário de outras revoluções, a aliança operário-camponesa não se estabeleceu no México. Mas a adesão da COM às forças carrancistas não foi total. Alguns se juntaram a Villa e outros (Soto y Gama, por exemplo) aderiram aos zapatistas. Ricardo Flores Magón, que estava encarcerado nos EUA, condenou o pacto da Casa do Obreiro Mundial com Carranza. De qualquer forma, o que explicaria a adesão da maior parte dos membros da COM às forças carrancistas (de tendência liberal burguesa)?
           
Certamente esta questão não pode ser respondida por um único fato. Listemos os acontecimentos que determinaram a aliança de Carranza com a Casa do Obreiro Mundial. A religiosidade das forças camponesas ia de encontro ao anticlericalismo da COM, o que impedia uma aproximação maior entre ambos. Carranza foi capaz de formular um programa mais próximo das demandas da Casa do Obreiro, especialmente quando prometeu a liberdade de organização e ação sindical, é possível que os anarco-sindicalistas imaginassem que com a liberdade de organização seria mais fácil promover sua política. Por último vale destacar que as lideranças mais combativas e radicais da COM haviam sido presas ou expulsas do México, o que enfraqueceu o setor favorável à ação direta e abriu caminho para a chamada política da ação múltipla, que visava a promoção de reformas parciais capazes de possibilitar avanços pontuais para os trabalhadores.
           
A união do movimento operário com os liberais burgueses carrancistas foi um fato mais simbólico do que prático, os batalhões vermelhos não tiveram uma participação militar determinante.
           
O acordo da Casa do Obreiro com as forças de Venustiano Carranza durou pouco, este não o cumpriu e aqueles convocaram uma greve de protesto que foi duramente reprimida. Ou seja, assim que puderam prescindir do apoio dos operários, as forças burguesas romperam os acordos estabelecidos e tocaram seu projeto próprio de poder. Carranza fortaleceu outra central sindical (CROM – Confederação Geral do Trabalho) e tratou de a atrelar ao estado, neutralizando-a politicamente. A partir de então a Casa do Obrero Mundial perdeu força.
           
Analisando o acordo da Casa do Obrero com Carranza atualmente, com a mediação de quase cem anos e de outros processos revolucionários, percebe-se que tal acordo representou a morte da COM e um grave retrocesso para o movimento operário mexicano. Mas sabemos que a luta revolucionária concreta é infinitamente mais complexa. A questão é discutir até que ponto outra opção histórica seria possível e acessível no calor dos acontecimentos e, principalmente, não incorrer em semelhantes equívocos. O que só é possível quando se conhece em profundidade a realidade em que se atua.

Emiliano Zapata e o Exército de Libertação do Sul

A guerrilha zapatista nasceu no sul do México, mais precisamente no Estado de Morelos. A resistência surge como resposta à expropriação de terras comunais por latifundiários. É esta especificidade que determinará a concepção política dos guerrilheiros do sul, estava em jogo a manutenção das formas de vida estabelecidas. Neste sentido a guerrilha zapatista é mais um movimento de recusa do que de transformação, é o avanço dos latifúndios sobre as comunidades que determina a resposta armada.
           
José Clemente Orozco: Zapatistas (1936)


Emiliano Zapata tinha 30 anos quando foi escolhido como comandante dos camponeses na luta contra o latifúndio. Zapata dominava como poucos o ofício de tratar de cavalos, mas foi como comandante guerrilheiro que entrou para história. As forças zapatistas não adotavam a rígida hieraquia militar, como os villistas e carrancistas. Pode-se dizer que Emiliano Zapata era um coordenador de forças descentralizadas, mas ligadas pela origem social homogênea. 
           
Os guerrilheiros do sul começaram com 80 homens armados com alguns rifles e facões. Cresceram e lutaram por vários anos. Resistiam com técnicas de guerrilha, as tropas inimigas encontravam sempre aldeias vazias, a população se refugiava nos montes, neste processo a guerrilha se fortalecia com o intercâmbio entre combatentes e populares. As comunidades vazias eram queimadas e destruídas, mas os zapatistas saiam fortalecidos. O apoio da população respaldava as forças de Zapata.
           
A concepção política dos guerrilheiros zapatistas está contida principalmente no “Plano de Ayala” de 1911, neste documento exige-se a devolução das terras expropriadas das comunidades durante a ditadura de Porfirio Díaz e a distribuição das terras dos grandes latifúndios. Estas revindicações simples determinaram a radicalidade zapatista. O Estado mexicano composto por latifundiários não cederia terras, os burgueses liberais não podiam aceitar a propriedade comunitária, os camponeses, por outo lado, não recuariam em seus princípios.
           
Os zapatistas lutaram contra Madero quando este não cumpriu seu programa agrário, depois contra Huerta e por fim contra Carranza, até que Zapata foi assassinado em uma emboscada armada por um traidor a mando do estado mexicano.
           
As reivindicações agrárias dos zapatistas portavam uma radicalidade inaceitável para as forças burguesas, inclusive as de Carranza. A propriedade coletiva defendida pelos zapatistas era um obstáculo para o avanço do capitalismo mexicano ao garantir a posse da terra e o sustento autônomo das comunidades. Às forças burguesas interessava a proletarização dos camponeses para o fornecimento e barateamento da força de trabalho, impulsionando assim o capitalismo mexicano. Além disso, como as comunidades do sul eram capazes de produzir a maior parte dos produtos de que necessitavam nas suas próprias terras, as coletivizações zapatistas representavam um sério entrave para o capitalismo mexicano, já que o mercado interno ficava contido.
           
O setor liberal burguês representado pelos carrancistas não podia aceitar as terras comunais do sul, sendo assim, era preciso destruir os zapatistas. Mas estes dominavam o campo de batalha e contavam com o apoio das comunidades, o que os tornava uma força difícil de ser batida, a solução encontrada foi a eliminação de Zapata numa emboscada armada por um traidor em 1919 e, posteriormente, a cooptação de lideranças das forças do sul. Dessa forma, as forças zapatistas começaram a ser derrotadas.
           
O enraizamento dos zapatistas nas comunidades do sul do México determinou a força do movimento e também seus limites. A legitimidade e a representatividade dos zapatistas os fazia forte. Por outro lado, por serem essencialmente camponeses, os zapatistas não se propunham a tomar o poder, lutavam para garantir suas formas tradicionais de viver, que eram atacadas pelo avanço das relações capitalistas. O poder militar zapatista se restringia às comunidades camponesas, sua capacidade militar ofensiva, ou seja, longe dessas comunidades, era pequeno. Esse localismo zapatista também impediu que o Exército Libertador do Sul se juntasse de forma mais efetiva à Divisão do Norte.
           
A radicalidade do movimento zapatista não era compatível com o desenvolvimento capitalista do México, nesse contexto, a religiosidade do movimento e seu localismo eram secundários. Mas os anarquistas, em sua grande maioria, não perceberam a radicalidade dos zapatistas e aliaram-se aos seus inimigos burgueses.
           
Conhecendo um pouco melhor a história da luta dos guerrilheiros zapatistas do início do século XX, compreende-se porque o atual Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) reivindica em seu nome a figura de Emiliano Zapata. Há uma linha de continuidade entre o exército dos camponeses do sul do México e os guerillheiros das montanhas de Chiapas (EZLN), apesar das inovações propostas pelo EZLN e do espaçamento temporal que os separa. As duas forças são legitimas representantes das comunidades do sul do México, com todas as suas limitações e possibilidades.

Pancho Villa e a Divisão do Norte
           
Villa nasceu José Doroteo Arango e trabalhou numa fazenda até os 17 anos, quando o proprietário assediou sua irmã. Em uma emboscada Doroteo tentou matar o estuprador, que foi ferido. Desde então passou a ser perseguido e tornou-se “bandido”, inclusive adotando o nome Pancho Villa, que era de um antigo bandido do norte do México. Villa fazia questão de ser chamado de bandido, já que roubava para sobreviver e para distribuir aos pobres e necessitados. Para ele ladrões eram os ricos.     
           
Nos primeiros anos da Revolução as forças villistas chegaram a ser as mais poderosas do México, venceram importantes batalhas ao lado de Francisco Madero e posteriormente contra Huerta.
           
No final do século XIX o norte do México sofreu um intenso processo de concentração de terras. Os camponeses expropriados foram transformados em mão de obra barata para as mineradoras e grandes fazendas. O capitalismo avançava.
           
Em outubro de 1910, os maderistas que organizavam a revolução no estado mexicano de Chihuahua entraram em contato com Villa para integrá-lo às forças anti-porfiristas. Dessa forma, Pancho Villa aderiu à luta revolucionária juntamente com alguns companheiros de “bandidagem”.
           
Pancho Villa e suas tropas venceram importantes batalhas e foram decisivos para a vitória de Madero, depois Villa se retirou da vida pública. Até que teve início um golpe para derrubar Francisco Madero. Villa lutou contra os golpistas ao lado de Victoriano Huerta, que o trairia e o prenderia. Pancho Villa escapou da execução devido à intervenção de Madero. Na cadeia Villa conhece as idéias zapatistas e chega a ser alfabetizado através da obra Don Quixote de la Mancha.
           
Huerta estabele um acordo com os golpistas, assassina o presidente Madero e toma o estado. Era a volta das elites porfiristas ao poder. Villa entra na luta contra Huerta ao lado das tropas de Venustiano Carranza, único governador do México que não reconheceu o novo governo. Os carrancistas se definem como defensores da constituição liberal de 1857, passando a ser chamados de constitucionalistas. As tropas villistas começam a ser conhecidas com Divisão do Norte. A participação de Pancho Villa e suas tropas é decisiva. Huerta é derrotado e foge. Neste momento a Divisão do Norte é a principal força militar revolucionária.
           
O apoio dos camponeses e o conhecimento do campo de batalha tornavam a Divisão do Norte uma força importante. Villa soube adaptar sua tropa às características dos camponeses, inclusive incorporando a tradição de luta dos mexicanos do norte. Além disso, os villistas adotam inovações militares, como o transporte de tropas por trem.
           
A base das forças villistas eram os camponeses pobres. Dessa forma, assim como para os zapatistas, para os villistas a questão da terra era fundamental. Sendo assim, essas tropas promovem a expropriação das grandes fazendas nos seus domínios, com a diferença de que os zapatistas privilegiam as terras comunitárias enquanto villistas promoveram as pequenas propriedades.
           
O programa político da Divisão do Norte foi avançando para posições mais radicais à medida que a Revolução colocava questões concretas. Os villistas lutaram primeiramente ao lado de Francisco Madero contra Porfirio Díaz, depois com Carranza e os constitucionalistas contra Huerta.
           
As forças zapatistas e villistas eram formadas essencialmente por camponeses pobres. Mas apresentavam algumas diferenças significativas devido às diferenças sociais, culturais e econômicas entre o sul e o norte do México. Os zapatistas eram religiosos, os villistas eram anticlericais. Os zapatistas lutaram sempre de forma independente de outras forças políticas, seu objetivo principal era a restituição das terras comunais, a luta tendeu a perder seu poder ofensivo quando conseguiram atingir seus objetivos, em 1915. Já as tropas villistas eram compostas por mineiros, vaqueiros, ferroviários, desempregados, bandidos e, principalmente, camponeses. As propriedades comunais do sul não existiam no norte do país, sendo assim, as forças villistas não tinham a mesma ligação com a terra, eram mais móveis.
           
Enquanto os zapatistas combatiam com técnicas de guerrilha, os villistas utilizavam a guerra de posição tradicional aliada às formas de luta tradicionais dos camponeses do norte.
           
A Divisão do Norte venceu as batalhas mais importantes na luta contra Huerta, e seria a primeira força a chegar à Cidade do México em 1914, mas o chefe constitucionalista Venustiano Carranza cortou o fornecimento de combustíveis de Villa para impedir seu avanço, o que possibilitou que as forças constituionalistas de Álvaro Obregón chegassem à capital antes que os villistas.
           
Com a derrota de Huerta, as diferenças entre os revolucionários vencedores tornaram-se insustentáveis. Os programas agrários radicais dos camponeses villistas e zapatistas não eram compatíveis com o reformismo burguês das forças constitucionalistas. Em outubro de 1914 ocorre uma convenção reunindo as três principais forças vitoriosas: Exército Libertador do Sul (Zapata), Divisão do Norte (Villa) e Constitucionalistas (Carranza e Obregón). A convenção elege um novo presidente interino e afasta Venustiano Carranza. Os constitucionalistas não reconhecem a decisão da convenção e se retiram. Em dezembro de 1914, Emiliano Zapata e Pancho Villa entram na Cidade do México, era o ápice da revolução camponesa.
           
No final de janeiro de 1915 as forças constitucionalistas de Álvaro Obregón retomaram a Cidade do México. Em abril do mesmo ano os villistas tentaram romper o cerco dos constitucionalistas atacando a cidade de Celaya, mas são derrotados. Posteriormente a Divisão do Norte seria vencida também nas batalhas de Léon e Aguascalientes.
           
As forças villistas são reorganizadas e continuam combatendo, mas sem o mesmo poder de fogo. Mas mesmo fragilizadas, as forças de Villa atacaram o território estadunidense em 1916, os EUA respondem com suas expedições punitivas, invadem o México para capturar Villa, mas fracassam.
Em meados de 1920, Villa negocia um cessar fogo com o presidente interino Adolfo de la Huerta, que cede uma fazenda no estado mexicano de Durango aos villistas. Três anos depois Pancho Villa seria assassinado a mando do então presidente Álvaro Obregón.
             
Constitucionalistas

Por reivindicarem a constituição liberal de 1857, as forças lideradas por Venustiano Carranza e Álvaro Obregón ficaram conhecidas como constitucionalista. Carranza era filho de proprietários rurais, no início da Revolução combateu ao lado de Francisco Madero. Era governador do estado mexicano de Coahuila quando ocorreu o golpe de Huerta contra Madero.
           
As tropas constitucionalistas de Carranza e Obregón eram formadas principalmente pelas antigas forças repressivas locais.
           
Carranza foi o único governador que não reconheceu o governo Huerta. Politicamente, Carranza representava os setores burgueses descontentes. Seu programa era liberal, estatista e nacionalista. Liberal porque defendia a propriedade privada e era também anticlerical. Estatista porque buscava promover o avanço da economia através do estado. Nacionalista porque visava o fortalecimento do capitalismo mexicano. Para tocar seu projeto, Carranza não hesitou em estabeler acordos que não cumpriu, como o firmado com a Casa do Obreiro Mundial.
           
Inicialmente, Carranza chefiava as forças constitucionalistas, que incluíam as tropas de Villa e Obregón. Após a vitória sobre Huerta, Carranza firmou um acordo com Villa, este reconheceria aquele como presidente interino, mas o próximo presidente eleito não poderia ser um ex-general envolvido na luta e a distribuição das terras aos camponeses deveria continuar. Para Carranza, o acordo era uma forma de acumular forças e de adiar o confronto com Villa.
           
Após a vitória dos constitucionalistas, o antigo exército nacional é dissolvido e substituído pelas forças revolucionárias. Era o fim do antigo exército porfirista.
           
Entre 10 de outubro de 1914 e 09 de novembro do mesmo ano ocorre a Convenção de Aguascalientes, as forças revolucionárias zapatistas, villistas e carrancistas se encontram para definir o futuro do país. A Convenção decide afastar Carranza e elege Eulálio Gutiérrrez Ortiz. Gutiérrez foi um liberal com passagem pelo PLM, participou da luta contra Porfírio Díaz no partido antireeleicionista de Francisco Madero e, posteriormente, combateu ao lado das forças constitucionalistas de Venustiano Carranza.
           
A Convenção significou um acordo mínimo entre zapatistas e villistas. As forças constitucionalistas se retiraram e depois atacam a Cidade do México, em janeiro de 1915. A partir de então a Revolução Mexicana se transforma no conflito entre camponeses e burgueses. O proletariado urbano representado pela Casa do Obreiro Mundial combate ao lado das forças burguesas e é traído pelas mesmas após a vitória dos constitucionalistas, os batalhões vermelhos dos trabalhadores foram dissolvidos e as lideranças da COM foram presas.
           
Em agosto de 1915 os constitucionalistas retomam definitivamente a Cidade do México. Dois meses depois o governo de Carranza é reconhecido pela comunidade internacional. Em 31 de janeiro de 1917 aprovou-se uma nova constituição para o México, as demandas dos operários e camponeses são contempladas, mas não são cumpridas. A burguesia havia se estabelecido no poder, apesar da luta dos zapatistas e villistas, que prosseguiam isoladas nos estados do sul e do norte.

Arte e Revolução

Os processos de transformação social, se realmente revolucionários, se fazem presentes na totalidade das comunidades, da economia à política e das relações pessoais à cultura. As transformações sociais se refletem inclusive nas artes.

Diego Rivera: A gloriosa vitória (1954)


No final de 1914, com a entrada das forças villistas e zapatistas na Cidade do México, um país indígena, mestiço, camponês e rural surgiu diante de outro urbano e voltado para a Europa. O contraste se fez presente. Nas artes é principalmente através das pinturas muralistas que o México indígena, mestiço e rural começa a se buscar e a tentar se descobrir. Nos anos 1920, nasceu a arte muralista mexicana, através dos pintores David Siqueiros, José Orozco, Diego Rivera.

A pintura muralista mexicana foi uma tentativa de criação de uma arte coletiva e revolucionária, ao mesmo tempo livre das limitações dos museus, cavaletes e colecionadores particulares, posto que as pinturas se faziam em espaços públicos e acessíveis a todos. Por outro lado, é através do muralismo que o México profundo, indígena e camponês, começa a se mostrar e a se pensar. Inclusive porque a própria arte dos murais era uma herança dos povos indígenas do México pré-colombiano, que pintavam as fachadas das suas cidades. Neste sentido, a “pintura de cavalete” é identificada como burguesa e negada em nome de uma arte coletiva e acessível, herdada dos indígenas.

O muralismo ganhou força nos anos 1920 quando intelectual José Vasconcelos era ministro da educação do México, nesta época os pintores tiveram apoio e liberdade para se expressar. Mas este quadro não se manteve nos anos seguintes. As disputas ideológicas começaram a se expressar na arte muralista, as concepções de mundo e da própria revolução estavam em questão e se enfrentavam. Este confronto ideológico é nítido nas pinturas.

Nos murais “Sufrágio efectivo, não-reeleição” de Juan O’ Gorman e “A constituição de 1917” de Jorge González Camarena, as lideranças burguesas ganham destaque, Francisco Madero e Venustiano Carranza respectivamente. Como se a Revolução Mexicana tivesse começado com o levante de Francisco Madero em 1910 e se encerrado com a constituição de 1917 promulgada no governo de Venustiano Carranza. O povo e a luta de classes são colocados em segundo plano. Esta é a visão oficial da Revolução, que inclusive dominou o Museu Nacional de História do México.

Por outro lado, podemos citar as pinturas de David Siqueiros como negação da visão burguesa, em Siqueiros o povo mestiço e indígena é protagonista da Revolução, por exemplo no mural “Do porfirismo à revolução – Greve de Cananea e os precursores”. Além disso, o confronto e desarmonia também aparecem nas pinturas de David Siqueiros e contrastam com a visão harmônica da burguesia. Veja-se, por exemplo, as pinturas “Ecos de um grito” e “A nova democracia”. 
           
A cultura popular mexicana também cantou e narrou a Revolução através de seus corridos, que são uma espécie de cordel musicado. Nos corridos as figuras e feitos de Zapata e Villa é que são destacados.

No corrido sou zapatista do estado de Morelos, canta-se: “sou zapatista do estado de Morelos, porque proclamo o Plano de Ayala e de São Luis, se não o cumprem o que ofereceram ao povo, com armas os faremos cumprir.”
           
Os feitos militares de Pancho Villa também foram cantados: “mil novecentos e catorze, vinte e três de junho, foi tomada Zacatecas entre as cinco e as seis.” A perseguição das tropas estadunidenses a Villa também aparece nos corridos: “os de cavalo não podiam se sentar, os de a pé não podiam caminhar; então Villa passa em um avião e do céu lhes grita: good bye.”

Conclusão                

Passados cem anos do levante de Francisco Madero, iniciado às 18h de 20 de novembro de 1910, a Revolução Mexicana continua atual. Trata-se de um processo difícil de classificar. Foi uma revolução burguesa, nacionalista, camponesa e antiimperialista. Oscilou para cada um destes extremos conforme a luta avançava ou recuava.  
           
Apesar da presença dos anarquistas nas áreas urbanas, o México do início do século XX era um país predominantemente agrário. Sendo assim, o proletariado urbano não pode comandar o processo revolucionário, sequer a aliança operário-camponesa chegou a se estabelecer. A Casa do Obreiro Mundial, que hegemonizou o movimento operário entre 1912 e 1918, aliou-se aos setores burgueses (constitucionalistas) contra os villistas e zapatistas. Os batalhões vermelhos (COM) chegaram a combater zapatistas e villistas. O acordo da Casa do Obreiro com os constitucionalistas só foi possível depois que os setores mais radicais da COM foram enfraquecidos com encarceramentos e deportações de estrangeiros. Assim debilitou-se o setor operário defensor da independência de classe e da ação direta. Após a vitória dos burgueses constitucionalistas não foram cumpridos os acordos firmados com os trabalhadores. Houve uma greve de protesto e as lideranças da COM foram presas e condenadas à morte, o que não chegou a acontecer.
           
Ideologicamente, a Casa do Obreiro Mundial estava muito mais próxima dos zapatistas, ambos empregavam a ação direta e eram autônomos em relação às outras forças. Entretanto, a religiosidade dos zapatistas era uma barreira à aproximação dos operários. Mas a religiosidade não pode ser apontada como única responsável pela não concretização da aliança operário-camponesa. Vale lembrar que os villistas eram anticlericais, mas mesmo assim não estabeleceram alianças com o proletariado urbano representado pela COM.
           
É a maior habilidade política e de negociação das forças burguesas (constitucionalistas) que explica aliança da Casa do Obreiro com Carranza. Os carrancistas estabeleceram o acordo com proletariado após isolarem e neutralizarem os setores mais radicalizados deste. Os ativistas mais radicais e destacados da COM começaram a ser presos e expatriados, se estrangeiros, após a homenagem aos mártires de Chicago em 01 de maio de 1913, ainda no governo de Huerta. As detenções e expatriações debilitaram os setores da COM que defendiam a independência de classe e a ação direta. Por outro lado, as forças constitucionalistas apresentaram um programa político mais amplo que os zapatistas e villistas. Em troca do auxílio armado da Casa do Obreiro, os constitucionalistas garantiriam o direito de greve e a autonomia sindical. Assim que puderam prescindir do apoio operário, os constitucionalistas romperam o acordo, inclusive prendendo e ameaçando grevistas com pena de morte.
           
Villistas e zapatistas, devido à origem agrária e camponesa, não poderiam contemplar em seus programas políticos reivindicações essencialmente urbanas e operárias como a independência sindical e o direito de greve. Vale dizer que a greve como método de luta não estava sequer colocada como possibilidade para os camponeses. As forças burguesas de Carranza se mostraram politicamente mais habilidosas, inclusive para contornar sua debilidade militar em relação às forças camponesas à época da Convenção de Aguascalientes, no final de 1914. Os carrancistas procuraram ganhar tempo e estabelecer acordos para poder enfrentar as forças camponesas. O acordo que firmaram com o proletariado foi parte deste processo.
           
A negociação da Casa do Obreiro com os constitucionalistas representou uma grande derrota para o proletariado e praticamente determinou o fim da COM. Os carrancistas romperam o acordo assim que tiveram força política e militar para prescindir da aliança. Em 1918 surgiu a CROM (Confederação Regional Operária Mexicana) que, apoiada pelo estado, reduziu a influência da COM.
           
Ricardo Flores Magón continuou publicando o Regeneración, mas passou a maior parte dos seus dias preso nos EUA Magón condenou a aliança do proletariado com os constitucionalistas. Mas estava distante e não tinha grande capacidade de atuação sobre o desenrolar dos fatos. Politicamente Magón estava próximo aos zapatistas, que inclusive o convidaram para a publicar o Regeneración a partir de solo mexicano, o que não chegou a ocorrer. Especula-se que Magón julgava importante permanecer nos EUA como forma de impedir uma invasão do México.
           
Com a derrota da Divisão do Norte nas batalhas Celaya, León e Aguascalientes as forças burguesas passam a hegemonizar a Revolução. A aliança militar entre villistas e zapatistas se mostrou frágil, os últimos não participaram das batalhas de Celaya, León e Aguascalientes. Villa acusou os zapatistas de não terem cortado as rotas de abastecimento dos constitucionalistas. Ocorre que os camponeses zapatistas haviam reconquistado suas terras, ou seja, sua principal reivindicação havia sido alcançada, ao menos provisoriamente. O zapatistas não perceberam que ao norte seu destino estava sendo selado. Após derrotarem os villistas, as tropas constitucionalistas intensificam a luta contra os zapatistas, que resistiram por mais quatro anos, até o assassinato de Emiliano Zapata em uma emboscada organizada pelos constitucionalistas. Com a eliminação de Zapata, os carrancistas negociam com os setores menos radicalizados do zapatismo. Repete-se o que já havia acontecido com a Casa do Obreiro Mundial, as forças burguesas eliminam as lideranças radicais e negociam com os setores menos engajados.
             
Limitadas pela origem rural, as forças camponesas villistas e zapatistas não chegaram forjar um projeto revolucionário para o México. Enquanto os villistas evoluíram para posições mais progressistas com o avanço da luta, os zapatistas combateram de forma relativamente independente das outras forças, para estes a questão essencial era garantir as terras coletivas. Por outro lado, nem mesmo os anarquistas mais radicais, ligados a Ricardo Magón, forjaram um projeto coerente de transformação revolucionária. Magonistas e zapatistas não chegam a integrar suas lutas.
           
A hegemonia das forças constitucionalistas após 1915 só pode ser compreendida como determinação das condições histórico-sociais concretas. Foram essas condições que determinaram os limites políticos da Divisão do Norte e do Exército de Libertação do Sul. De qualquer forma, a luta dos camponeses e operários deu origem à constituição mexicana de 1917, que é reconhecida como uma das mais progressistas da época. Os artigos sobre a posse das terras e as relações de trabalho não foram adotados na totalidade e imediatamente, mas chegaram a ser colocados parcialmente em vigor à medida que a luta de classes avançou nos anos posteriores à Revolução.
           
Calcula-se que 1 milhão de mexicanos perderam a vida nos primeiros anos da Revolução. As figuras mais expressivas da Revolução Mexicana terminaram seus dias assassinadas: Francisco Madero, Emiliano Zapata, Pancho Villa, Venustiano Carranza, Ricardo Flores Magón e Álvaro Obregón. Essas mortes mostram a radicalidade do processo revolucionário.
           
A heterogeneidade das forças envolvidas e as suas reivindicações não permite que se defina a Revolução Mexicana como burguesa. Certamente foi muito mais que isso. Mas é a burguesia nacional que saiu vitoriosa do processo revolucionário. Como ensinou Marx, as idéias dominantes são as da classe dominante. Sendo assim, o ponto máximo da Revolução Mexicana, segundo a história oficial, é a promulgação da constituição de 1917, as figuras principais são as de Madero e Carranza. Como mostra Camilo de Mello Vasconcelos, são essas personalidades que se destacam na Sala da Revolução, no Museu Nacional de História do México.   
           
Para finalizar, comparando o Exército de Libertação do Sul, de Emiliano Zapata, com o Exército de Zapatista de Libertação Nacional, do Subcomante Marcos, percebe-se que as semelhanças não se restringem ao nome. O EZLN pode e deve ser compreendido não como continuação da luta das forças de Zapata, mas sim como continuidade da luta das comunidades camponesas e indígenas do sul do México. Sendo assim, a palavra que melhor define a Revolução Mexicana de 1910 é inconclusão, trata-se de um processo aberto.

  
Bibliografia Consultada

Alejandro Buenrostro. As raízes do fenômeno Chiapas. São Paulo, Alfarrábio, 2002.

Américo Nunes. As revoluções do México. São Paulo: Perspectiva, 1980.

Arnaldo Pedroso d’Horta. México: uma revolução insolúvel.Rio de Janeiro: Saga, 1965.

Camilo de Mello Vasconcellos. Imagens da Revolução Mexicana – O museu nacional de história do México 1940 – 1982. São Paulo: Alameda, 2007.

Eduardo Ernesto Filippiz. Experiências internacionais de reforma agrária: entre o socialismo e o populismo. http://www6.ufrgs.br/pgdr/arquivos/483.pdf

Eric Nepomuceno. Emiliano Zapata. São Paulo, Brasiliense, 1982.

Faustino Teatino Cavalcante Neto. A Revolução Morelense de 1910: um olhar sobre a formação da classe camponesa indígena. http://www.anpuhpb.org/anais_xiii_eeph/textos/ST%2014%20-%20Faustino%20Teatino%20Cavalcante%20Neto%20TC.PDF

Felipe Deveza. A Revolução Mexicana, cem anos da heróica guerra camponesa por liberdade. http://www.anovademocracia.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=2663&Itemid=105

Felipe Deveza. Dez mil contra Pancho Villa. http://www.anovademocracia.com.br/no-64/2752-dez-mil-contra-pancho-villa-a-fracassada-expedicao-punitiva-ianque-

Felipe Deveza. Francisco “Pancho” Villa o general revolucionário da Divisão do Norte. http://www.anovademocracia.com.br/no-63/2716-francisco-qpanchoq-villa-o-general-revolucionario-da-divisao-norte-

Francisco Alambert. México insurgente. http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16953

Gláucia Rodrigues Castelani. Murais mexicanos: a arte para o povo.  http://www.klepsidra.net/klepsidra6/muralismo.html
Jason Wehling. Influencias anarquistas em la Revolución Mexicana. http://flag.blackened.net/revolt/trans/cast/mexico_wehling.html

José Esteves y Ramón Gil. La Casa del Obrero Mundial. http://www.antorcha.net/biblioteca_virtual/historia/com/casaobreromundial.html

Marco Antonio Villa. Pancho Villa. São Paulo: Brasiliense, 1984.

Mário Schmidt. A Revolução Mexicana. http://fabiocardos.dominiotemporario.com/Revoluo%20Mexicana.pdf

Natally Vieira Diasi. A Revolução Mexicana e o debate sobre as relações continentais nos grandes jornais brasileiros (1910 – 1915).  http://anphlac.org/periodicos/anais/encontro8/natally_dias.pdf

Pier Francesco Zarcone. Os anarquistas na Revolução Mexicana. http://www.anarkismo.net/article/39

Ricardo Flores Magón. A revolução mexicana. São Paulo: Imaginário, 2003.

Ricardo Flores Magón. El anarquismo en la Revolución Mexicana. http://www.antorcha.net/

Rodrigo Gonçalves Beauclair. Muralismo mexicano: intelectuais e arte na tentativa de forjar uma nação. http://www.uss.br/web/arquivos/textos_historia/Rodrigo_Beauclair_Muralismo_Mexicano.pdf

Waldir José Rampinelli. Pancho Villa e a Revolução Mexicana. http://www.iela.ufsc.br/uploads/uploadsFCkEditor/File/rampa_pancho.pdf