segunda-feira, 20 de novembro de 2017

DIALÉTICA SINTÉTICA DA POÉTICA DRUMMONDIANA

Em sua procura da poesia, Drummond registra: “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”. O complemento é: “Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”

Deslocamento intrigante. A poesia não está no que pensas e sentes, mas sim em como expressas o que pensas e sentes, depende das palavras utilizadas. Questionamento inevitável. Sentimentos banais expressos com palavras e construções inusitadas podem compor poemas que “esperam ser escritos”? Talvez. Pode ser o caso da pedra no meio do caminho.

Voltando. Poemas podem nascer de parto normal: de acontecimentos, fatos e imagens. Mas as carnes e os ossos do poema são as palavras. Se estas não forem apropriadas, o poema será burocrático ou cartorial.

O poeta, com suas palavras e demais recursos, fecunda os acontecimentos, fatos e imagens. Nem a poesia pode prescindir do real, nem este é em si poético. A beleza do real é mais direta, com menos mediações.

Expressar algo em versos é poesia, ainda que não seja boa poesia, se não fosse assim não existiriam poemas ruins. Então, bom poeta é aquele que faz mediações (e não média) com as palavras.

A poesia não está em sentimentos, ideias, fatos e acontecimentos. A poesia está na forma de expressar sentimentos, ideias, fatos e acontecimentos. Forma pode ser conteúdo: palavras e construções que guiem por becos desconhecidos, uma pedra marchando para o meio do caminho.

Há poemas paridos a partir de palavras colhidas no reino das palavras. Pode ser tempo, fogo, ferro ou qualquer outra (as mais espessas, as minerais são preferíveis, diria João Cabral). Grávido de palavras, o poeta dá o poema à luz, ou à escuridão, que o importante é dar. A palavra é sempre a pedra no meio do caminho. Com a palavra pedra no meio do caminho, o poeta escreveu o poema No Meio do Caminho.

Por exemplo. Drummond apanha a palavra flor, que é portadora de forte carga poética e simbólica. Relaciona flor com outras palavras: concreto, asfalto, polícia e tráfego, que são suas antíteses. Trabalha como um artesão ou um jardineiro, modela palavras como se fossem vasos, ou plantas no vaso. O manuseio vai revelando sentidos ocultos que existem apenas como possibilidade e inquietação. O resultado final não é planejado com a antecedência e a precisão do artesão ou do jardineiro. Poesia é quando as palavras oferecem a outra face, que “cada uma tem mil faces secretas sobre a face neutra”.

Com Drummond, a flor nasce na rua, e ilude a polícia. É feia, antiparnasiana, mas é uma flor, e rompe o asfalto. O belo não está na flor, “sua cor não se percebe, suas pétalas não se abrem.” Como queria Mário de Andrade, o belo está na deformação do real: na flor furando o asfalto. Efeito que nasce do atrito das palavras, como o fogo nasce do atrito de gravetos. O poeta bate a flor no asfalto, até rompê-lo. O poema é anárquico, sem governo: uma explosão de possibilidades e inquietações. O poeta fecunda o real com seu material genético: precariamente, sem esperança e sem opção.


Postas no papel e atritadas as palavras percorrem veredas improváveis, fogem do controle, escapam como bicho solto na natureza. O sentido do poema não está colocado com antecedência e às vezes ultrapassa o próprio autor, se não fosse assim, seria inútil, mais do mesmo. O sentido do poema não está colocado definitivamente, que o tempo e a vida presente são a matéria do poeta, e as palavras “rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.” A poética drummondiana é anarquia e atrito.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

POEMA CARTA

nosso amor acena
do prédio em chamas
entre as labaredas.

nossos líquidos misturados
evaporam

nosso amor apodrece
nas calçadas do esquecimento.

mas guardo um tufo do seu cabelo
entre os dedos
nos bolsos da memória




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

entre a poeira
o ruído
e os corpos cansados  

entre a mais-valia
o estranhamento
e os uniformes sujos

no meio da tarde
numa fábrica qualquer
e de repente

um homem
por segundos
parou a máquina 

esmagado nas engrenagens



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

VISÕES
para Roberto Piva

I
casal de velhos saltando
de mãos dadas
da ponte de safena
(seus corpos boiando
de mão dadas
no mar de rosas)

II
santa na igreja
com fio dental
e pentelhos de fora

III
jovem nu
na fila da hóstia
com piercing no rabo
(abaixo as rimas fáceis)

IV
cachorro de rua
se esfregando
na estátua depilada

V
contadores anarquistas
trepando
com livros contábeis

VI
homem se masturbando
com o alicate
na ceia de natal

VII
a brisa lambendo
o clitóris da manhã

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

DEUS NÃO MORREU, MATOU-SE! O SUICÍDIO DO GRANDE CASTRADOR
Os homens foram criados à imagem e semelhança de deus, porém uns mais que os outros. Paul Lafargue, André Gorz, Ernest Hemingway, Wladimir Maiakovski, Virginia Woolf, Mario Monicelli e Torquato Neto entre os mais semelhantes. Seres humanos são antes de tudo criaturas criadoras, que se fazem e desfazem continuamente. Mas se por definição uma criatura é um ser criado, como lhes pode ser permitida a criação e seu contrário, a destruição? Ainda mais porque a capacidade destrutiva humana implica na negação da criação divina. O auto-assassinato humano, por exemplo, nega a onipotência divina em sua maior dimensão, a concessão da vida. A condenação aberta do suicídio pela maioria das religiões nos diz muito. O mínimo que se pode afirmar é que existe algo como um Complexo de Édipo entre homens e deuses. Sísifo e Prometeu que o digam.
A relação com deus é dupla: ame-o ou deixo-o. Deus é o limite, para bem e para mal. É o grande sintetizador na medida em que pode representar o princípio, a unidade e o fim; mas, pela mesma razão, é também o grande castrador já que oferece uma solução externa e inacessível aos homens. À humanidade caberá se libertar de deus ou ser castrada por ele. A divindade é a pedra no caminho do fazer e desfazer-se humano, é o limite. Alguns caminharão para o deicídio, outros se anularão nos braços do criador.
Das duas uma, ou deus não é onipotente ou aos homens não se concedeu o livre-arbítrio. Pela simples razão de que uma opção inviabiliza a outra. O livre-arbítrio humano se choca com a onipotência divina.
Na concepção cristã as implicações deste problema são demolidoras. Para haver pecado é preciso existir livre-arbítrio e escolha, mas assim abre-se a possibilidade de se negar inclusive o próprio criador.
Uma questão quiçá mais interessante do que determinar a medida do livre-arbítrio humano é mensurar a autonomia criativa de deus, que teria forjado a possibilidade da sua própria negação: o homem. Como o livre-arbítrio é sempre relativo a algo, seríamos forçados a terceirizar ou hierarquizar a divindade. Mas suponhamos o pior, quais a implicações de imaginarmos um deus todo poderoso e livre de qualquer arbítrio que lhe fosse externo? Como o deus cristão. Se assim fosse, deveríamos cobrar-lhe a conta de todas as chagas do mundo, incluindo os campos de concentração, Hiroshima, Nagasaki, Gaza e por aí vai. Se o homem escolhe o pior é porque essa opção lhe foi disponibilizada pelo criador.
O contrário dessa obviedade é o cinismo mais meia-boca, ultra-hollywoodiano, que consiste em afirmar que todo mal deriva unicamente das escolhas humanas. Transforma-se deus no mocinho redentor e os homens em vilões. Mas a questão é: quem criou a possibilidade de escolha humana? Quem colocou o ovo de serpente no cesto? Deus é um pai que deixou um revolver entre os brinquedos de seu filho. A quem responsabilizar pelo crime cometido com a arma-brinquedo?
O protagonismo de deus é duplo: primeiro suicida em potencial da história e guru da auto-ajuda. Matou-se ao criar o seu assassino: homem. Por outro lado, inaugurou a arte do auto-engano, conhecida atualmente por auto-ajuda, que consiste em acreditar no que é mais conveniente. Como na canção: “não há crença sem recompensa.” Crença e recompensa se tornam diretamente proporcionais, e utilitaristas. A crença religiosa não é um em-si é um para-íso. Abolido este, extingue-se aquela. Quem perderia tempo rezando à toa? Deus existe na exata medida em que o crente carece de graça.
Da poesia à literatura, o Complexo de Édipo homens-deuses deixou marcas. Millôr Fernandes indagou: “Mestre, respeito o Senhor, mas não a sua obra; que paraíso é esse, que tem cobra?” Mas é nas páginas de Dostoievski que a relação edipiana vai aos píncaros, na fábula de Ivã Karamazov, o Grande Inquisidor, em nome de um determinado projeto de humanidade, condena o representante de deus na terra.
O livre-arbítrio humano é tão livre que chega a aprisionar-se, tão amplo que fabricou o próprio deus, não sem desconstruí-lo depois, num contínuo fazer-se desfazendo-se. Enquanto a crença em deus é utilitarista, posto que fundamentada nos prêmios futuros, a sua mais firme negação é ética, não negocia princípios, recusa uma criação que admite o mal em nome da redenção futura, os fins não justificam os meios.
No caminho da desconstrução, seguindo os passos de Ivã Karamázov, Albert Camus recusa a salvação: deus não existe, mas isso pouco importa, não seriam legítimas as benesses oferecidas por uma divindade que aceita o mal. Recusar a salvação torna-se um imperativo ético.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Canção para uma menina
QUE NASCEU NA PRIMAVERA

(Primeiro movimento: chuva)
Água escorre pelas escadas,
pelas calhas, pelas nuvens:
música das águas.

(Segundo movimento: sol e chuva)
O telhado brilha, a planta sua.
Gotas de luz, brisa vegetal:
dança das substâncias.

(Terceiro movimento: sol depois da chuva)
O pássaro canta, o cão espreguiça
e a garotinha corre pela grama:
na direção do arco-íris.