PARA UM IRMÃO QUE PARTIU POR CONTA PRÓPRIA

Com um único nó na corda
cruzaste a borda da vida.
No primeiro metro da queda,
a moeda fria do fim.

Na derradeira volta do Mundo,
a primeira mancha no rosto,
no meio da terça-feira.

A cavalgada no lombo da morte,
o beijo no corte da carne,
o esgarçar do couro do corpo.

A porrada na porta de saída da vida,
a pancada na ponta de dentro do peito.

O enforcamento no topo do arco-íris,
teu cadáver balança nas nuvens.

O salto do alto do sonho,
o tombo para fora do destino.

Com suas cartas de suicídio nas mãos,
todos os mortos do amor sorriem.

Ao som do último tango,
descansa, meu camarada!


AMANDA

Água brota da rocha,
desce pura e clara,
contorna as pedras,
procura o riacho
e escorre suave.
Banha o terreno,
refresca os bichos,
as flores.
Da rosa amarela
salta uma borboleta
(também amarela)
que vai ziguezagueando
sobre as margens,
sobre as águas.
Atrás da borboleta
vai uma garotinha
pisando a grama,
descalça.
Corre e sorri
com dentinhos brancos,
de leite.


ESCOLINHA SANTA TERESINHA

subversão no prezinho
era espiar a calcinha
da tia Cotinha







ITANHAÉM


Água mole em pedra dura,
tanto bate até que chora.

Água bate na pedra
e escorre choro
de pandeiro e violão.

Água bate na pedra
e escorre canto
do povo da terra.

Escorre sonho.
Escorre som.
Escorre sal.

Escorre sangue.
Escorre seco.
Escorre só.

Canto de pedra.
Pedra que chora.

Som de pedra.
Som de choro. 

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Itanhaém é uma cidade do litoral sul de São Paulo, é considerada a segunda mais antiga do Brasil. A palavra Itanhaém é de origem tupi e significa pedra (ita) sonora (nhaém), ou pedra que canta, outra versão diz que Itanhaém significa pedra que chora. O mar bate nas pedras da praia do Sonho, que choram, ou cantam. Talvez o povo tupi não separe canto de choro, ou talvez as pedras cantem e chorem ao mesmo tempo, como os pássaros engaiolados, e como no poema. As duas fotos desta postagem foram tiradas em Itanhaém.





bebê corre com fone no ouvido
na praça de alimentação do shopping popular
a mãe compra a prazo
o pai deseja as formas barrocas da manequim

homens e ratos disputam restos de comida
prefeito playboy oferece a solução
ração ultraprocessada com carne de indigente

pastor flerta pelo aplicativo de relacionamento
estudante aprende inglês no site de pornografia
propaganda eletrônica anuncia ereções absolutas

adolescentes lacram suas vaginas
com linha de pesca
à espera do homão da porra

estátuas depiladas enrubescem em praça pública

casal idoso planeja se afogar de mãos dadas
no mar de rosas
da Costa Amalfitana

roqueiros tatuam borboletinhas e pombinhas da paz

especialistas ensinam animais de estimação a lidar com necessidades fisiológicas
mijar e cagar apenas no quarto da empregada
por questões higiênicas
trepar apenas nos pet motels
para garantir a moralidade pública e a pureza da raça

prótese de silicone salva patricinha de bala perdida

mercado de pintos postiços supera o de perucas

startups planejam lucrar com a venda de vibradores
para senhoras católicas

supremo tribunal federal aguarda resultado de pesquisa de opinião
para decidir se sonho erótico é crime
ministério da justiça lança consulta pública
para discutir a legalidade do coito anal

enquanto a tropa de choque garante a segurança e empresta cassetetes
para a suruba coletiva da grande burguesia
na casa de swing flutuante

Roberto Piva sapateia dentro do caixão
com Parkinson e com raiva




COMUNICADO Nº 001/2017

Considerando os princípios da legalidade, moralidade, impessoalidade, publicidade, eficiência, razoabilidade e liberdade de expressão; comunicamos que este blogue voltará a ser atualizado apenas em meados de janeiro do próximo ano.


Dando tudo por bom, firme e valioso; paramos por aqui.
POEMA PROLETÁRIO

Nossas bocas vão mastigar
seus títulos de propriedade,
suas togas e fardas,
seus contratos de hedge,
suas algemas e viaturas,
seus soldados e cães,
suas reintegrações de posse.

Nossas bocas vão mastigar
suas gazetas e hebdomadários,
seus condomínios fechados,
suas opções de compra,
seus passeios na Disney,
suas tropas de choque,
seus jornalistas de aluguel.

Nossas bocas vão mastigar
seus derivativos agropecuários,
suas projeções de lucro,
seus ternos italianos,
suas balas de borracha,
seus barretes doutorais,
suas pick-ups importadas.

Nossas bocas vão mastigar
suas terras griladas,
seus gases lacrimogêneos,
suas commodities agrícolas,
seus oficiais de justiça,
suas especulações imobiliárias,
seus tribunais e magistrados.

Nossas bocas vão mastigar
seus capitais,
suas reformas,
seus golpes de Estado,
sua classe social.

Argentina - 2017