segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

GESTÃO PÚBLICA

O servidor público desperta cedo.
Banha-se e penteia-se
(indiferente ao princípio de calvície).

Camisa semi-social por dentro da calça,
início de barriga,
cinto e sapatos pretos.

Na esquina: os pães, o leite e o jornal
sempre fresquinhos. No café:
pão com notícias e manteiga.

O servidor público crê nas instituições.
As leis, os contratos e a aliança
garantem-lhe a necessária solidez.

As alíneas, os incisos e os captus
respaldam o servidor
e o avanço irresistível do país.

A transparência dos despachos
e a justeza dos decretos
lubrificam a máquina pública.

Na hierarquia: a segurança.
Nas portarias: o futuro.
No dia-a-dia: a felicidade.

O servidor janta arroz, feijão, bife
e telenotícias. Adormece
e sonha com processos e expedientes.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Era uma vez um menino,
que não comia frutas
e fugia da escola.

Anjos, assombrações,
espíritos, igrejas,
pecados, Deus.
Era um medo tão suave.

Era uma vez um menino,
que brincava na rua
e espiava as primas.

Avô, avó, pipa,
carrinho de rolimã,
bola, quitanda.
Era tudo tão doce.

Eram tantos desejos.
Eram tantos sonhos.
Era uma vez.

Vicent van Gogh: Casas em Auvers



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

PARA ALONSO QUIJANO

Ó cavaleiro que não hesita!
Ó ditoso guerreiro manchego!
Pelos prados,
pelas penhas,
vaga sua triste figura.

À mais formosa dama,
encomenda sua alma
e arremete sereno.

Ó venturoso domador de gigantes,
seu halo luzente ofusca encantadores!

Ó patrono das glórias da cavalaria,
legítimo portador do Elmo de Mambrino!

Apequena os maiores,
uma simples carga de sua lança.

A fama de sua espada
corre os arroios da Ibéria.

Seu braço invencível estorva os tortos,
sua alcunha de aço ecoa.

Nas páginas de mármore da cavalaria,
inscreva com pena de bronze:
Dom Quixote de La Mancha!


Pablo Picasso: Dom Quixote (1965)

                                       

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

DIALÉTICA SINTÉTICA DA POÉTICA DRUMMONDIANA

Em sua procura da poesia, Drummond registra: “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”. O complemento é: “Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”

Deslocamento intrigante. A poesia não está no que pensas e sentes, mas sim em como expressas o que pensas e sentes, depende das palavras utilizadas. Questionamento inevitável. Sentimentos banais expressos com palavras e construções inusitadas podem compor poemas que “esperam ser escritos”? Talvez. Pode ser o caso da pedra no meio do caminho.

Voltando. Poemas podem nascer de parto normal: de acontecimentos, fatos e imagens. Mas as carnes e os ossos do poema são as palavras. Se estas não forem apropriadas, o poema será burocrático ou cartorial.

O poeta, com suas palavras e demais recursos, fecunda os acontecimentos, fatos e imagens. Nem a poesia pode prescindir do real, nem este é em si poético. A beleza do real é mais direta, com menos mediações.

Expressar algo em versos é poesia, ainda que não seja boa poesia, se não fosse assim não existiriam poemas ruins. Então, bom poeta é aquele que faz mediações (e não média) com as palavras.

A poesia não está em sentimentos, ideias, fatos e acontecimentos. A poesia está na forma de expressar sentimentos, ideias, fatos e acontecimentos. Forma pode ser conteúdo: palavras e construções que guiem por becos desconhecidos, uma pedra marchando para o meio do caminho.

Há poemas paridos a partir de palavras colhidas no reino das palavras. Pode ser tempo, fogo, ferro ou qualquer outra (as mais espessas, as minerais são preferíveis, diria João Cabral). Grávido de palavras, o poeta dá o poema à luz, ou à escuridão, que o importante é dar. A palavra é sempre a pedra no meio do caminho. Com a palavra pedra no meio do caminho, o poeta escreveu o poema No Meio do Caminho.

Por exemplo. Drummond apanha a palavra flor, que é portadora de forte carga poética e simbólica. Relaciona flor com outras palavras: concreto, asfalto, polícia e tráfego, que são suas antíteses. Trabalha como um artesão ou um jardineiro, modela palavras como se fossem vasos, ou plantas no vaso. O manuseio vai revelando sentidos ocultos que existem apenas como possibilidade e inquietação. O resultado final não é planejado com a antecedência e a precisão do artesão ou do jardineiro. Poesia é quando as palavras oferecem a outra face, que “cada uma tem mil faces secretas sobre a face neutra”.

Com Drummond, a flor nasce na rua, e ilude a polícia. É feia, antiparnasiana, mas é uma flor, e rompe o asfalto. O belo não está na flor, “sua cor não se percebe, suas pétalas não se abrem.” Como queria Mário de Andrade, o belo está na deformação do real: na flor furando o asfalto. Efeito que nasce do atrito das palavras, como o fogo nasce do atrito de gravetos. O poeta bate a flor no asfalto, até rompê-lo. O poema é anárquico, sem governo: uma explosão de possibilidades e inquietações. O poeta fecunda o real com seu material genético: precariamente, sem esperança e sem opção.


Postas no papel e atritadas as palavras percorrem veredas improváveis, fogem do controle, escapam como bicho solto na natureza. O sentido do poema não está colocado com antecedência e às vezes ultrapassa o próprio autor, se não fosse assim, seria inútil, mais do mesmo. O sentido do poema não está colocado definitivamente, que o tempo e a vida presente são a matéria do poeta, e as palavras “rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.” A poética drummondiana é anarquia e atrito.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

POEMA CARTA

nosso amor acena
do prédio em chamas
entre as labaredas.

nossos líquidos misturados
evaporam

nosso amor apodrece
nas calçadas do esquecimento.

mas guardo um tufo do seu cabelo
entre os dedos
nos bolsos da memória




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

entre a poeira
o ruído
e os corpos cansados  

entre a mais-valia
o estranhamento
e os uniformes sujos

no meio da tarde
numa fábrica qualquer
e de repente

um homem
por segundos
parou a máquina 

esmagado nas engrenagens



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

VISÕES
para Roberto Piva

I
casal de velhos saltando
de mãos dadas
da ponte de safena
(seus corpos boiando
de mão dadas
no mar de rosas)

II
santa na igreja
com fio dental
e pentelhos de fora

III
jovem nu
na fila da hóstia
com piercing no rabo
(abaixo as rimas fáceis)

IV
cachorro de rua
se esfregando
na estátua depilada

V
contadores anarquistas
trepando
com livros contábeis

VI
homem se masturbando
com o alicate
na ceia de natal

VII
a brisa lambendo
o clitóris da manhã