PULSAÇÃO

No peito a pontada.
No ser o estampido.
No coração a vala.
No passado o fosso.
No nervo a agulha.
No querer o bloqueio.
No futuro a torção.
No jardim o asfalto.
No sonho a queda.

Na mão o corte.
Na boca a secura.
Na infância o trauma.
Na manhã a aflição.
Na carne o espinho.

Depois do tédio a náusea.
Depois do sono o aperto.
Depois do tranco a ânsia.
Depois do depois o mesmo.


Edvard Munch: O Grito (1893)




TANGO, DE CARLOS SAURA

O tango tem qualquer coisa de intermediário. Meio temperado, meio tropical. Meio música, meio dança. Meio hétero, meio homo. Meio crepúsculo, meio amanhecer. Meio tortura, meio libertação. Meio fratura, meio cicatriz. Meio rotina, meio clandestinidade. Meio cachaça, meio ressaca.

O tango é um homem atraente e másculo, com marcas de expressão, como Mario Suarez, do filme Tango, de Carlos Saura. O tango é uma mulher deslumbrante, tão jovem quanto vivida, como Elena Flores, do filme Tango, de Carlos Saura.

Tango. Argentina/Espanha 1998. 117 min. Drama. Diretor: Carlos Saura. Atores: Miguel Ángel Sola (Mario Suárez), Cecilia Narova , Mía Maestro (Elena Flores), Juan Carlos Copes.  



Cena do filme Tango, de Carlos Saura
BREVIÁRIO DA INFÂMIA: A INFÂMIA EM SEIS ATOS

1º) Funcionário de empresa contratada pela Prefeitura de SP é filmado esguichando água num morador de rua. Trata-se de ação com a cara de pau higienista do Prefeito João Doria. A mesma da cara de pau de quem havia dito que tal prática não existia. A mesma cara de pau de quem havia dito que cumpriria o mandato até o fim.

2º) Em greve contra a reforma da previdência, que reduzirá salários e dificultará aposentadorias, professores de SP vão à chamada “casa do povo” para pressionar seus carrascos (parlamentares), são surrados e enxotados pela GCM de Doria e pela PM de Alckmin. As imagens de professoras e professores feridos giram o país.

3º) Juízes fazem greve para garantir recebimento do chamado auxílio-moradia, benefício escuso que possibilita ganhos acima do teto constitucional. Trata-se de ação imoral praticada pelos que aplicam leis criadas pela burguesia para manter a dominação burguesa e que, por isso, têm direito a benefícios escusos, como o tal auxílio-moradia, que é maior que o salário médio dos professores. A “luta” dos juízes pelo auxílio-moradia é um exemplo de que há coisas que podem ser legais e imorais ao mesmo tempo, como a escravidão nos primeiros séculos da história do Brasil.

4º) Com toda pinta de execução praticada por agentes do Estado, é assinada, no RJ, a vereadora Marielle Franco e o motorista que a conduzia, Anderson Gomes. A execução comove o mundo e divide o Brasil: há brasileiros que denunciam e protestam, há brasileiros que tentam justificar o assassinato.

5º) Assustados com a repercussão do assassinato da vereadora Marielle Franco, a turba de defensores do status quo parte para o segundo atentado contra a vereadora, inventam e propagam uma série de mentiras com a intenção de justificar o assassinato. Agem, na prática, como despachantes da barbárie. São cumplices do assassinato e da barbárie.

6º) Assustada com a repercussão do assassinato da vereadora Marielle Franco, a mídia empresarial tenta passar um pano para si própria, como se não tivesse passado anos defendendo discursos de ódio, sensacionalistas e de endurecimento da repressão. Como se o assassinato da vereadora não tivesse nada a ver com a intervenção militar em curso no RJ, intervenção que a mídia empresarial apoia e que a vereadora morta criticava.   

O título de um livro de Jorge Luis Borges ajuda a amarrar os fatos: História Universal da Infâmia. São seis atos para a história universal da infâmia. Infâmia de João Doria, infâmia da GCM de João Doria, infâmia da PM de Geraldo Alckmin, infâmia dos juízes e juízas em “luta” por auxílio-moradia, infâmia dos assassinos de Marielle e Anderson, infâmia dos que tentam justificar os assassinatos de Marielle e Anderson e, ressalte-se: infâmia da mídia empresarial: que apoia infâmias como a política privatista e higienista de João Doria, que apoia infâmias como a intervenção militar no RJ, que combate com infâmias a greve dos professores; mas que tira o corpo fora quando um funcionário joga água no morador de rua, que tira o corpo fora quando a polícia massacra professores, que tira o corpo fora quando assassinam a vereadora que combatia a intervenção militar. Nada mais infame do que a mídia empresarial tentando se afastar das responsabilidades por suas narrativas infames. Anos de promoção do medo, do ódio e da ignorância pelo discurso infame da mídia empresarial geraram uma geração de infames: eles estão no sofá da sala, assistindo a novela das nove; eles estão nas empresas multinacionais, tramando golpes de Estado; eles estão fardados, planejando chacinas; eles estão nos tribunais, “julgando”; eles estão parados no trânsito praguejando contra carroceiros e ciclistas; eles estão na internet comentando notícias que não leram; eles perderam a vergonha de ser infames. A infâmia enraizou-se, é preciso cortar as raízes da infâmia!

HÁ MUITAS NOITES DENTRO DA NOITE
  

“O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade”¹


A poesia de Ferreira Gullar transporta para tardes que já passaram, mede a velocidade da noite, contempla o lento apodrecer das frutas no cesto, recruta os legumes que ficaram por vender, fotografa cenas desaparecidas ou não identificáveis a olho nu. O cinema de Silvio Tendler recorta e costura acontecimentos, constrói abrigos contra o esquecimento, conduz por onde a luz é pouca. Do encontro do poeta com o documentarista surgiu a série Há muitas noites na noite²cinebiografia do Poema Sujo e, por tabela, de Ferreira Gullar.

Gullar é um poeta orgânico, seus versos descascam, trocam de cor como a matéria que apodrece, têm cheiro de mangue e de sexo. Nos anos 1950, o poeta foi do Maranhão para o Rio de Janeiro, e se aproximou do concretismo e do Partido Comunista. Depois se afastou de ambos.

Tenho a sensação de que a poesia do maranhense não cabia na estética concretista, seria um bicho concretado vivo. Após a ruptura, Gullar afirmou que o concretismo é a arte de quem não tem nada para dizer, já os concretistas aplicaram-lhe sovas bem dadas e com razão. Interessa pontuar, por aqui, que a poesia de Ferreira Gullar é sensual e orgânica, enquanto a poesia concretista é mineral e inorgânica. Ou seja, são poéticas que seguem por veredas distintas.

Já o Partido Comunista, o Centro de Cultura Popular (CPC) e as lutas dos anos 1960 alimentaram uma arte que secava, mas engajou-se e renasceu. Ferreira Gullar escreveu poesia da melhor qualidade, como quando reconstrói a captura do Che na quebrada do Yuro (no livro e no poema Dentro da Noite Veloz). Gullar pegou o trem da revolução, mas não seguiu viagem até o fim, era mais artista do que revolucionário. O contato do poeta com a esquerda foi uma solução de continuidade³ para uma poesia que secava. As lutas sociais irrigaram a arte de Gullar, garantiram temas e matéria bruta ao poeta, que, por sua vez, pagou um preço alto. É aqui que o cinema de Sílvio Tendler conduz por onde a luz é pouca.

Apesar da ótima poesia engajada que escreveu, apesar da atuação política, Gullar compunha um segmento que Nelson Rodrigues definiu como a “esquerda festiva”. Eram mulheres e homens com militância política e boêmia. Ocorre que, por um conjunto de circunstâncias trágicas e cômicas, Gullar foi apontado como dirigente do Partido, mesmo sem sê-lo de fato. Resultado: acabou empurrado para a clandestinidade quando veio o golpe empresarial-militar de 1964. O poeta pagou caro pelo engajamento que renovou sua arte.

Gullar passou pela escola de formação de quadros da URSS. Foi para o Chile e teve que fugir depois do golpe de Estado empresarial-militar que assassinaria milhares de homens e mulheres. Passou pelo Peru, não se adaptou e foi para Argentina, e teve que fugir de outro golpe de Estado empresarial-militar-assassino.

Gullar escreveu o Poema Sujo na Argentina. Curioso notar que, em Buenos Aires, o poeta fala de São Luís. O exílio se tornara insuportável. Gullar afirma que escreveu como quem vomita palavras, como se fosse o último poema, o último suspiro, o último arroto. Ele não retrata diretamente as lutas de seu tempo, prefere explorar espaços e cenas ocorridas em São Luís, décadas antes: “a cidade está no homem que está em outra cidade”. No auge de seu engajamento, correndo risco de ser sequestrado ou morto, o poeta se definia como “combatente clandestino aliado da classe operária”. O adjetivo “aliado” diz muito, Gullar não se sentia parte da classe operária, colocava-se apenas como “aliado”. O Poema Sujo transcorrer em São Luís do Maranhão também é sintomático. Parece um exílio do exílio, uma fuga uma fuga, uma tentativa de recomeçar.

Gullar declamou o Poema Sujo num encontro em que estava presente Vinicius de Moraes, que trouxe os versos para o Brasil. O poema foi impresso, distribuído, lido, editado e, finalmente, lançado sem a presença do autor, num ato político contra a ditadura empresarial-militar brasileira.

Assim como há muitas noites dentro da noite, há diversos registros de entrevistas e vídeos sobre e com Ferreira Gullar, mas nenhum mostra o homem de tão perto quanto a série de Silvio Tendler. Se é verdade que as lutas sociais dos anos 1960 adubaram uma poesia que secava, como sustento, é também verdadeiro que a participação política do poeta custou caro: a família fugindo de país para país, separações, prisões, torturas, suicídio de amigos. O tempo rugia na fuça do poeta. Gullar revela que, provavelmente, só escreveu o Poema Sujo porque estava exilado, mas, se pudesse escolher, preferiria não ter escrito. Pergunta inevitável: o poeta teria se engajado nas lutas do seu tempo se soubesse o preço que pagaria?

No final da vida e distante da revolução, Gullar assinou colunas reacionárias na mídia empresarial. Mas o tempo e o desaparecimento do poeta separarão as colunas de jornal da poesia de primeira. Neste ponto Tendler recorta e costura acontecimentos, constrói abrigos e alerta os precipitados. A série “Há muitas noites na noite” serve como para-raios. O colunista é um cachorro morto, fácil de chutar, que, por isso, nem aparece; mas o poeta é grande, sua poesia está entre o que se escreveu de melhor. O Poema Sujo é um dos maiores da poesia brasileira (em todos os sentidos). A sacada do documentarista é filmar a cinebiografia do poema, porque os versos são a melhor fala sobre o poeta e seu tempo.

Se é verdade que ao se aproximar das lutas sociais Gullar renovou sua arte, como suspeito, é também verdadeiro que tal aproximação lhe foi pesadíssima. Tendler capta bem esta dimensão, alertando críticos superficiais e linchadores de plantão. Entre o sujeito que foi da “esquerda festiva” para direita fim de festa, há um crítico de arte respeitável, um perseguido político e, sobretudo, uma poesia de primeira qualidade. Ao reapresentar o Poema Sujo, seu autor e sua história, Tendler recoloca Gullar no devido lugar: entre os grandes. Então, cuidado: há muitas noites dentro da noite!

Notas:

1) Quando não houver indicação de autoria, as palavras e versos entre as aspas são de Ferreira Gullar, como na epígrafe. 

2) O verso presente no Poema Sujo é “Numa noite há muitas noites”; Tendler optou por “Há muitas noites na noite”; resolvi usar “Há muitas noites dentro da noite”, porque se adapta melhor ao objetivo do texto e porque remete a Dentro da Noite Veloz, que, se a minha hipótese estiver correta, marca um salto de qualidade na poesia de Ferreira Gullar. 

3) Solução de continuidade certamente casual e inconsciente. Ou dizendo de outra forma: o poeta não se aproximou das lutas sociais com a intenção deliberada de revigorar sua arte, as coisas aconteceram naturalmente.